APENAS UMA VIAGEM – parte II

Enquanto o avião taxiava, eu ainda massageava (e protegia) o meu joelho direito. Até porque o mesmo estava bem próximo do agente agressor: o enorme salto da gigantesca bota da minha vizinha da direita que, de pernas cruzadas, aproximava ainda mais a “arma” da região submetida ao seu efeito.

Percebendo a minha aflição a jovem mutante de cabelos vermelho-sangue, enquanto tirava o iPod da sua mochila, renovou delicadamente os pedidos de desculpas. Tudo isso, sem jamais largar seu copo descartável, muito menos interromper a audível sonoplastia de sugar compulsivamente o estressado canudinho. A julgar pela sonoridade emitida, o conteúdo líquido já havia terminado e certamente teria deixado a minha vizinha de poltrona ávida por outra dose de @Caypyrynha.

Outro detalhe era um chiclete grudado na sola do volumoso calçado. Percebendo a minha curiosidade, sua proprietária deu-me a explicação, sorrindo, que era uma antiga mania: toda vez que terminava de mascar um chiclete (e pelo visto era um hábito constante) tirava a goma e aplicava (?!) na sola do pisante: – Gosto de caminhar um pouco mais grudada ao planeta, ta ligado?! Sinto até um pouco mais de equilíbrio cósmico, entende?! Fiz que sim com a cabeça! A explicação ouvida, embora possuindo alguma coerência com as leis da física, me deixou perplexo. E um pouco tonto também.

A situação piorou quando o meu vizinho da esquerda removeu a toalha que cobria a sua mão, tornando visível a existência de algum problema de ordem neuro-muscular: os quatro dedos de sua mão direita estavam todos contraídos, exceto o @Dedo_do_meio que se apresentava com absoluta rigidez erétil. Isso mesmo! Parecia estar sempre emitindo o gesto obsceno mundialmente conhecido como o desejo de aplicar, no destinatário, o órgão sexual masculino em seu orifício anal. Trocando em miúdos: gesto que determina o famoso “tome no cu”.

– O que houve com você?! Fiz a pergunta buscando puxar assunto.

– Então… Fui consultar alguns médicos em São Paulo para verificar qual o problema! Acham que foi um “travamento” muscular.

– Entendo! Pode ser algum tipo de LER (lesão por esforço repetitivo).

– Pois é… Acho que é por aí, mesmo! Passo horas no meu twitter digitando com esse dedo. Apontou em minha direção enquanto eu procurei me esquivar.

De fato, aquele vôo estava tenso: pela direita, uma bota com um enorme chiclete grudado bem próximos do meu (sempre protegido) joelho. Pela esquerda, um dedo em riste na minha direção fazendo-me lembrar que – por ambos os lados – eu estava super vulnerável a, literalmente, tomar no cu!

Nas poltronas atrás das nossas, parecia que um grupo de senhoras evangélicas estava indo para alguma convenção religiosa. Meu vizinho da esquerda levantou seu braço direito para trás sobre o encosto da sua poltrona, ficando a girar seu pulso com finalidades meramente fisioterápicas.

– Ohhhhh!  Ouviu-se um uníssono, coletivo e forte grito vindo de trás! – Aeromoçaaa! Políciaaaa! Socoroooo! Em nome de Deus, alguém nos acuda! As senhoras estavam indignadas.

– Pois não, senhoras. Qual o problema? Posso ajudá-las? Perguntou solícita a bela aeromoça. 

– É esse passageiro endemoniado aí da frente que não pára de fazer gesto obsceno em nossa direção. Respondeu a líder do grupo no mesmo instante que aplicava, usando um pequeno livro de capa preta, um golpe certeiro no dedo mediano que não parava de girar.

– Aiiii, porra! Puta que pariu! Qual foi a filha da puta celestial que fez isso comigo!  Gritou meu vizinho da esquerda, enquanto pulava da poltrona, segurando o @Dedo_do_meio agonizando de dor.

Toda a movimentação despertou o interesse da minha vizinha da direita em se posicionar de joelhos na sua poltrona e voltar-se para trás no sentido de melhor observar de onde partira aquela agressão física. Para meu desespero, esta rápida e radical manobra de mudança de posição, fez com que o chiclete ficasse grudado à minha calça.

Entrei em pânico: à minha direita – todo movimento que aquela bota fazia (e não parava de fazer), levava junto minha calça, o meu joelho, a minha perna e, por conseqüência, eu todo. À minha esquerda – um moço gemendo de dor e emitindo toda a sorte de impropérios. Atrás – o grupo de senhoras evangélicas (todas em pé) cantando hinos religiosos para exorcizarem o demônio de dentro do rapaz que, a esta altura, lançava com as duas mãos o @Dedo_do_meio para todas as componentes do coral.

Totalmente descabelada, a aeromoça já começava a usar da força física para fazer com que todos os passageiros retornassem aos seus assentos. Fazia um bom tempo que o comandante já havia anunciado que a aeronave entraria em zona de alta turbulência. Pelo visto, a de fora era bem menor que esta aqui de dentro; a julgar de onde eu estava: quase deitado no chão ainda preso por um chiclete e uma gigantesca bota que não parava de mexer ao som do Guns N’Roses – era o que mostrava a tela do iPod pendurado e próximo à minha boca.

– Uhhhuuuuuu! Vamo pulá galéééééraaaa!  Gritava a dona da bota degustando a terceira @Caypyrynha do litro de vodca que trazia dentro da mochila.

Por hoje é só! Depois continuamos….

RLombardi-mai/2010/a

 

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APENAS UMA VIAGEM – parte I

Bem que eu tentei esquecer! Acontece que o senso de responsabilidade estava me induzindo a ter que assumir um “mea culpa” de algo que jamais imaginei que fosse acontecer. Alguma coisa, não sabia bem o quê, precisava ser feita.

Eram esses os pensamentos que me consumiam durante a escala em São Paulo, do vôo com destino a Curitiba. A todo instante voltava a olhar a manchete estampada no jornal: “jovem curitibana de nome @caypyrynha volta a incorporar espírito da Rê Bordosa”.

A notícia trazia a foto de uma jovem com um olhar suave, sereno, que em nada demonstrava estar possuída por forças do além, muito menos estar sob efeito de droga alucinógena. Era exatamente esse aspecto de tranqüilidade que me corroia internamente. O semblante daquela jovem possuía alguma coisa que confirmava evidentes sinais do mundo científico estar prestes a se confrontar com um milagre de mutação física.

Não somente o mundo científico precisava ficar em alerta. Tratando-se de um fenômeno “Rê Bordosa’s revival”, também deveriam ficar em atenção redobrada: o mundo da boêmia, do sexo-drogas-e-rock’n’roll; das seitas exotéricas; dos consumidores de absinto; dos filhos de Woodstock; das comunidades GLS; dos adeptos de Hare Krishna; e de muitas outras tribos da modernidade.

Jamais imaginei que uma simples crônica, voltada para “testar o poder de comunicação do Twitter” fosse capaz de causar, em mim, tamanha aflição. Como posso ter comparado alguém que não conheço (nem mesmo sei se é faker) a doce, saudosa e amada Rê Bordosa. Ainda pior! Como pode essa mesma pessoa ter identificado no espírito doce-sacana da uma espécie de alter-ego; ou, quem sabe, a sua alma-gêmea.

Sentia-me culpado, sim! Ou, no mínimo, responsável! Por isso estava reembarcando para o último trecho da viagem até Curitiba. O que eu ia, de fato, fazer naquela cidade?! Não tinha a menor idéia! Nem mesmo sabia se essa nova e camaleônica personagem rê@caypyrynhabordosa morava naquela bela cidade. O fato é que não estava dando mais pra viver com tamanha dúvida; daí a necessidade de tão súbita viagem.

Já no interior do avião, percebo que o meu assento no último trecho da viagem, ficava na cadeira do meio. Nada bom! Sempre optei por sentar próximo ao corredor; não somente pelo tamanho de minhas pernas, mas também pela artrose no joelho direito, proveniente de um acidente de moto. Qualquer pancada no menisco, ou mesmo tentar dobrar a perna em demasia, gerava uma forte dor aguda.

Na poltrona do corredor, sentou um rapaz com o braço direito na tipóia, e uma pequena toalha cobrindo a sua mão. O vôo estava lotado; apenas disponível a cadeira da janela, ao lado da minha. Claro que eu estava torcendo pela possibilidade de ocupá-la e poder estirar minha perna. Pena que isso não aconteceu!

Com a porta quase fechando para o embarque, todos os passageiros – devidamente sentados, com os encostos das suas poltronas na posição vertical, e cintos de segurança travados – espantaram-se com um alucinante grito: – Êêêêppaaaa! Abre esta porra que eu quero entrar, cacete!

Completamente, estáticos e atônitos, todos os passageiros (principalmente eu, sentado ao lado da única cadeira desocupada) desviaram seus olhares para a porta de entrada do avião, com a imensa curiosidade de conhecer a pessoa possuidora de tão fortes pulmões.

Surge a figura de uma moça, entre seus vinte e trinta anos, de cabelos curtos, ouriçados, espetados para cima, e tingidos na cor vermelho-sangue; de pele na tonalidade branca-anêmica-hepática que contrastava fortemente com o preto forte de sua roupa no mais perfeito estilo punk. Vestia uma camiseta branca, e sobre esta um pequeno colete preto. Esse conjunto terminava alguns centímetros antes do seu umbigo; este na posição anatomicamente correta.

Bem abaixo do umbigo e bem acima dos joelhos, a presença de uma micro saia harmonizava o visual dark. Não parava por aí. Alguns importantes acessórios compunham o marcante estilo: óculos escuros de lentes pequenas e redondas; mochila às costas; piercing na sobrancelha direita; uma tatoo (estilo tribal) no braço esquerdo; e calçada com duas longas botas pretas, estilo heavy-metal.

Oláaaa galera! Tudo nice nesta nave!? Cumprimentou a todos enquanto se dirigia para o único assento disponível, o da minha esquerda! Após sua identificação, jogou a mochila na poltrona. Antes que eu me levantasse para liberar sua passagem, uma perna com enorme bota preta, abriu escalas sobre a minha pessoa. No movimento, que possibilitava até um exame ginecológico, o salto da pesada bota bateu em meu problemático joelho, gerando uma intensa dor que, frente ao doce pedido de desculpas daquela peculiar figura, tive que chamar de volta uma educada exclamação já pronta pra sair: – Puta que pariu! Porra!

Toda essa suave movimentação foi realizada sem que um único pingo fosse derramado do inseparável copo descartável de @caypyrynha que a minha vizinha de poltrona zelosamente conduzia. – Aí tio, vai querer dar uma chupadinha! Cumprimentou-me inclinando o pequeno canudo em minha direção.

Sei não… mas algo me fazia crer que este vôo seria inesquecível !!

RLombardi-abr/2010/c

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TWITTER – quem quiser que conte outra!

A primeira vez que ouvi falar em Twitter foi assistindo a uma entrevista no programa Manhattan Connection. Já faz um bom tempo, pois o assunto também era novidade para o Lucas Mendes e sua equipe. Durante meses fiquei investigando inúmeros sites sobre essa nova forma de socialização que, em princípio, já me parecia eficiente, na medida em que limitava a comunicação em 140 caracteres.

Fantástico, pensei! Já não estava mais agüentando receber emails com trilhões de palavras que não diziam absolutamente nada sobre nada. Pior ainda quando vinham aqueles “sublimes” anexos de (no mínimo) 15 megabytes!, com mensagens e fórmulas garantidas de como alcançar o paraíso e/ou a imortalidade.

Ao som da Rita Lee, ♫ um belo dia resolvi mudar ♪, me transformei em tuiteiro (ô palavrinha escrota!). Inclusive fiquei com a impressão que estava sendo um dos pioneiros na minha aldeia, pois, quando disse pra minha mãe que eu era o mais novo tuiteiro da cidade, de pronto, ela devolveu: – O que houve meu filho?! Seu casamento não anda bem?!

Nos primeiros meses me senti um Avatar (um ser supremo). De frente pra tela do meu laptop, concentrei-me e profetizei: “estou inserido na maior ferramenta de transformação do mundo e agora posso espalhar minhas idéias (todas geniais!) para o bem da humanidade”. Puta de uma responsa!

Minha nova missão pareceu-me facilitada e abreviada quando decidi quais seriam os quatro primeiros amiguinhos que deveria seguir: @OCriador; @BarackObama; @BillGates; e  @DalaiLama. Passei meses following essas personalidades, e enviando-lhes, no mais absoluto anonimato, infalíveis receitas de como salvar o mundo. Frustrou-me não haver recebido nenhuma manifestação de agradecimento. Bem feito! Por isso o mundo continua esta merda! Como vingança, lasquei um unfollowing no quarteto.

Após a primeira (e frustrante) experiência – e à medida que me transformava em um twitteraholic – percebi que o “buraco do meu mundo” ficava mais embaixo. Logo aprendi que havia uma infinidade de fakes, mas que era interessante estabelecer contatos com eles. Com essa nova interpretação, minha mudança foi radical. Adotei como “critério following”, não mais me preocupar com a origem (real ou irreal) da pessoa, ou da coisa(!).

O que passou a valer foi “O QUÊ” aquela pessoa (ou coisa) transmitia em 140 caracteres, e qual a sua relação com o “domínio” do tema que o caracterizava. Assim, tornei-me mais eclético e passei a ser following de: @SouMaconheiro; @Dedo_do_meio; @Caypyrynha; @iquecartoonist, entre vários outros.

Foi pelo @iquecartoonist (acredito não ser fake!), que passei a conhecer a @Caypyrynha. Conhecer, e me preocupar! Em sua bio, ela se rotula como: …aquele tipo de garota que quando põe os pés no chão de manhã o diabo pensa: – ‘Puta merda, ela acordou.’  Caraca, mano! O pior de tudo é que ela me parece real! E bebe pracaramba! Parece também, à distância, ser uma reencarnação (bem mais carregada) da saudosa Rê Bordosa, do @Angeli_.

Como profissional da área de saúde, acredito que o Twitter também seja um instrumento de recuperação de pessoas com sinais evidentes de dependência “hepático-demoníaca”. Sendo assim, contando com o aval do @iquecartoonist; mantive contato com um amigo que é frade exorcista, que reside em um mosteiro aqui perto, em Olinda.

– Alô, fradim amigo! Estou seguindo a @Caypyrynha e percebo que ela precisa de uma intervenção que somente você pode fazer.

Ohh, amigo @lombardric; lamento desapontá-lo. Já tentei curá-la várias vezes. Em todas, consigo tirar o diabo dela; é até fáci!. O problema é que, também em todas, eu saio completamente bêbado. Com ela, só trazendo o William Peter Blatty.

Caros, @iquecartoonist; @Caypyrynha, e @manhattanfans: perdoem-me o atrevimento “literário”. Apenas gosto de brincar com as palavras. Para mim, vocês são reais. Igual a fantasia da nossa imaginação. Uma honra tê-los como following e  followers.

Beijos do @lombardric

RLombardi-abr/2010/b

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HORA DO PESADELO

O amigo Barata, decididamente, é uma criatura que merece ser analisada sob a luz de profundos estudos científicos. Pelo menos em duas áreas do conhecimento humano: saúde e tecnologia.

Na primeira, é desafiador para qualquer compêndio de medicina tentar justificar como um glutão sedentário, semi-obeso, representante vivo do deus Baco, consiga manter suas taxas de exames laboratoriais semelhantes às de um jovial atleta. Como pode?! Todos, incrédulos, perguntam.

É o próprio Barata que chama para si a explicação do grande enigma científico: – Vocês parem de me secar, seus filhos da puta! Todos sabem que eu pratico esporte. Estou sempre “cavalgando” sobre um (litro de) White Horse! A resposta, acompanhada de uma sonora gargalhada, foi dada perante o grupo de amigos participantes da confraria do “Camarão Total”. Para o colegiado, crescia a desconfiança de que o Barata; ou era acionista majoritário e benemérito, ou estava subornando algum bioquímico analista do laboratório onde fazia os exames.

Já com relação ao campo da tecnologia, enquanto o mundo inteiro navega na internet, o Barata vive remando em sentido contrário, como se pretendesse chegar a um ancoradouro da idade média. Até pouco tempo sua grande dúvida era saber quem vinha primeiro: @ arroba ou pontocom (!?). Em plena era dos iPhones, iPods, emails, Twitters; o moço, embora reconhecendo a importância dos avanços, mantêm-se fiel ao estilo jurássico de se comunicar.

A única concessão feita, após uma dura batalha doméstica, foi conseguir que ele se convertesse em usuário da telefonia celular. Essa metamorfose não foi fácil. Houve forte relutância, para convencê-lo a desativar uma fogueira mantida por ele em sua cobertura, cujo propósito era permitir uma boa comunicação através da emissão de sinais de fumaça. Felizmente dobrou-se aos apelos ecológicos do planeta.

Ainda pertinente ao tema, o usufruto do Barata aos quase infinitos recursos do seu telefone celular, é ínfimo. Reside na casa dos 0,0005% de utilização. Só usa para receber ligações, e raramente para fazê-las. Quando as recebe, o papo não tem hora para terminar: – Oi, Carlão! Estava mesmo querendo falar com você! Que saudade, cara! Quais são as novidades? Outro dia encontrei com o Silvio Furtado… e por aí vai, sem nenhuma chance dele mesmo encerrar a ligação. Já o contrário, ato raro, quando é ele próprio o ligador, a conversa é bem lacônica: – Diz! Fala logo! Minha bateria tá no fim! Tô no trânsito! De fato, parece mais um diálogo(?!) oriundo de quando se comunicava via sinais de fumaça.

Outro dia me surpreendi ao perguntar se ele conhecia algum pescador. Eu havia recebido dois enormes peixes: um xaréu e uma bicuda. Queria saber se eram “carregados”; pois, caso fossem, evitaria degustá-los: – Conheço, sim! É João de Tonha! O cara é bom! Pode confiar! Espere, enquanto vejo se ainda tenho o telefone dele! 

Quando pensei que o Barata ia consultar na agenda de números do seu próprio telefone celular (operação que talvez elevasse o usufruto do aparelho para 0,1%) o moço, bastante solícito, mete a mão no bolso; retira uma carteira velha, surrada e torta; e saca uma tira minúscula de papel; sanfonada; cheia de remendos; e densamente escrita com letras e garranchos indecifráveis aos mortais.

Sem nenhum critério alfa-numérico de ordenação; remove os óculos; aproxima a fragilizada tira dos olhos; e põe-se a procurar, em frenético sobe-e-desce de leitura, por… João de Tonha. – Tá aqui! Achei! O mais incrível é que a “tripa” funciona.

Sei que o Barata é um bom, e solidário amigo. Estou sabendo por fontes seguras que o mesmo anda entristecido com a minha ausência aos encontros etílicos/gastronômicos, apesar de entender que a mesma é temporária e condicionada a uma fase de tratamento de saúde. Igualmente com saudade desses encontros, recentemente abri uma concessão e fui jantar com ele, na agradável companhia das nossas esposas.

Chegamos um pouco atrasados, haja vista que o Barata já tinha “cavalgado” meio litro de White Horse. Como sempre, demos boas risadas enquanto botávamos a conversa em dia. Voltei a sentir o incômodo de ficar sendo tocado no ombro pelos dedos do Barata, todas as vezes que ele queria falar alguma coisa. Como não parava de falar, voltei para casa com alguns hematomas na região. Além de discretos; toleráveis, pelo prazer da companhia.

Naquela agradável noite, acho que respondi a mesma pergunta dezenas de vezes: – Puta merda, bicho! Diga a verdade; quando é que você vai voltar a beber? Não seria interessante ouvir outra opinião médica? Era grande o seu desconforto em não ter a minha companhia naquela “cavalgada”, que já se aproximava de um litro. Conversamos sobre tudo: que xaréu era peixe “carregado”; que o salmão de águas profundas estava em extinção; que o Carlão estava em dieta para poder operar a sua hérnia abdominal antes que a mesma completasse dez anos; que devíamos nos encontrar pelo menos uma vez por mês; que Chico Xavier foi um grande médium e que o filme de sua vida estava para entrar em cartaz; que mantém rigorosa dieta para manter seus cento e trinta quilos; que as suas taxas mantinham-se equilibradas (e que não admitia qualquer insinuação para mudar de laboratório); que o Carlão tinha disponibilizado uma almofada exclusiva para ele sentar como forma de prevenção acústica frente à sonoridade dos seus peidos; etc…

Foi de fato um feliz reencontro. Pena que a partir daquela noite comecei a ter um pesadelo recorrente: sonhava que o Barata aparecia sob a forma de um enorme xaréu, montado em um cavalo branco, com um olhar ensandecido, me segurava com uma força brutal, empurrava na minha boca um litro de uísque (bocão) enquanto uivava – Beba! Você tem que beber, porra!

Eu, hein?! Vade retro satana! Acordei suado, ofegante e com medo. Será que foi o salmão de águas rasas que comi?!

RLombardi-abr/2010/a


3 Respostas to “crônicas”


  1. Avatar de Marisa 1 Marisa
    03/04/2010 às 20:34

    Simplesmente fantástica a narrativa!

  2. Avatar de Aline Cunha 2 Aline Cunha
    03/07/2011 às 16:26

    Oi professor Ricardo, gosto muito de ler seus textos. Eles são criativos e inteligentes… Você demonstra ter sensibilidade e dom nessa área!!!!!!!!!! Parabéns. Sempre que posso dou uma olhadinha no seu Blog
    Continue escrevendo-os…
    Fui sua Aluna em Fonoaudiologia UFPB.
    Um abraço e saudades,
    Aline Cunha

    • 03/07/2011 às 18:44

      Oi, ALINE: Sinto-me agraciado com a generosidade do seu comentário. Apesar de curto, o meu contato com vocês /Fono/ foi muito agradável para mim; pois estava retomando as minhas atividades docentes, após um período de licença para tratamento de saúde. A turma foi muito receptiva, além de participativa. Gostei, mesmo!! Será um prazer vê-la frequentar este blog. Ele é SEU TAMBÉM! Bj, RL


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