O mar pode até ser o mesmo, mas as ondas de comunicação agora são outras.
Gosto muito de peixe e tenho em Melquisedeks um dos meus peixeiros prediletos. Calma, ele também atende por Melki.
Sou seu cliente desde o tempo da telefonia fixa.
Suas chamadas telefônicas eram sempre bem cedo… e sem nenhuma obediência ao dia da semana.
Aliás, parecia haver uma maior predileção pelos domingos… principalmente àqueles que traziam; do mar, os barcos; e de mim, as ressacas dos embalos dos sábados à noite.
“- Doutor, acabei de receber um Galo do Alto, do jeito que o senhor gosta”! A boa notícia era sempre dada por volta das 5:15 da manhã. Um ‘privilégio’ para poucos, concordo.
Ótimo! Recado recebido, sono perdido, lençóis ao mar, pois estava deflagrada a missão “trazer o peixe dominical”.
Bons tempos e ótimas lembranças que, hoje, me trouxeram a vontade de descamar esse tema.
Durmo e acordo cedo… até porque os embalos dos sábados à noite ficaram nas ondas da juventude com John Travolta, Olivia Newton–John, Bee Gees, os Diplomatas, e muitos outros…
Também ao lado da cama, já não existe mais nenhum aparelho de telefonia fixa. Tudo faz crer que Graham Bell já cumpriu o seu papel.
Dou o meu testemunho de que a ausência deste aparelho me garantiu (e ainda o faz) uma boa sobrevida, pelo fato de não mais me fazer despertar com os olhos esbugalhados e o coração saindo pela boca, toda vez que aquele estridente e desesperador TRIMMMMMMM era ouvido. Ufa!!
Atualmente, na cabeceira, além dos remédios e de uma garrafa d’água para o refluxo, apenas uma pequena caixa de som JBL – bluetoothizada ao meu iPhone – ambos sintonizados ao piano de George Winston, ou equivalente.
Toda essa moderna tecnologia me encanta. Embora não dominando 100% os equipamentos, perco o sono quando percebo como é fácil, rápido, e silencioso, negociar com Melki a compra e recebimento dos produtos.
Tudo via WhatsApp, PIX e Motoboy (perdoe-me, meu bom Ariano Suassuna!).
“Bom dia, Melki! E aí… tem coisa boa pra mim”?!
“Tenho sim, doutor. Estou com: Robalo, Garoupa, Cioba, Dentão, e Caranha”.
- [neste ponto, cabe a explicação de como a nomenclatura de peixes é variada. Muitas vezes está na dependência da região onde é mais comumente encontrado. Em outras, é caracterizado por sinais estéticos assimilados por pescadores da região. Sem dúvida, trata-se de um grande aprendizado].
“Como eu consigo um Linguado, amigo”?!
“Doutor, por aqui é muito difícil. É peixe de outras águas. Se aparecer eu ligo para o senhor”.
“NÃOOOO! (teclei em caixa alta e negrito, talvez ainda resquício da telefonia fixa!), melhor você mandar um Zap. Hoje vou querer a Garoupa… pode fazer o filé. Mande separado a cabeça e a espinha dorsal… para o pirão”.
Pronto! Negociação feita com sucesso e pagamento realizado via PIX.
Melhor que isso, somente o silêncio matinal, a confiança no amigo peixeiro, e a moqueca de logo mais.
Bon appétit!



Nossa … eu tive a impressão que eu deixei de viver um tempão da minha vida.
kkkkk/ que nada, querida RI… sempre é tempo para uma boa peixada!