Sou amigo do galego Galeno desde a vida inteira.
Por uma questão de economia silábica, eu, e toda a molecada da Rua Nova, logo cedo, abreviamos o seu nome para Gal. Ou Ferrugem… devido às pigmentações avermelhadas na sua face.
Querido por todos, o pequeno Gal sempre possuiu um diferencial nos quesitos ‘elegância & proteção’.
Enquanto o nosso uniforme para as brincadeiras de rua, era composto de calção, camiseta e alpargatas, Galzinho chegava sempre impecável: meias, sapatos Vulcabrás, calça comprida (com suspensórios), camisa manga longa, boné, lenço, sacolinha de pano, e o seu indefectível guarda-chuva.
O estilo Bonnie e Clyde era igualmente adotado pelo seu pai, Dr. Fontoura, reconhecido farmacêutico da região.
Ficávamos hipnotizados toda vez que o garoto dos suspensórios abria a sua sacolinha e, tal qual um mágico, começava a sacar: pílulas, pastilhas, unguentos, e outros tipos de fármacos.
E não ficava por aí… discorria sobre as indicações e propriedades de cura de cada produto com absoluta destreza.
Tudo levava a crer que a sua paixão por remédios possuía respaldo hereditário… incluindo no pacote, até o seu nome – Galeno – escolha feita pelo seu pai, como forma de homenagear o Pai da Farmácia.
Sendo assim, estava tudo explicado… o legado hereditário e outros fatores epigenéticos, transformaram nosso ruivo-amigo como a nossa referência maior de pessoa hipocondríaca.
Ou melhor, vou retificar o tempo do verbo bem como o grau da patologia, haja vista que, após muitos anos sem ver o Galeno, eis que recente e subitamente o encontro, claro, na porta de uma farmácia… e em plena pandemia!!
-“É o Lombardi da Rua Nova?!”
Virei-me em direção à pergunta e, no meio de tantos mascarados, logo percebi alguém com indumentária bastante diferenciada… mais parecendo um escafandrista. Ou melhor, um manequim ambulante vestido com todos os tipos de EPI’s existentes no planeta contaminado.
-“É o grande Ferrugem?!”
Apesar da dúvida, formulei a pergunta com base em alguns itens ainda visíveis…apesar de protegidos com papel filme: o guarda-chuva e a sacola, agora na versão XXL.
Ao correr para o abraço, fui impedido pelo cabo do guarda-chuva. Pediu-me para esperar um pouco, enquanto tirava da sacola uma enorme bomba de álcool gel, uma caixa de luvas descartáveis, e outra de máscaras.
-“Sim, sou eu. Você não me conhece mais não?!”
Depois de borrifar-me com dois tipos de álcool gel, pediu-me para calçar as luvas e, somente então, com o punho fechado, permitiu-nos um pequeno toque murro a murro… depois de ter medido com uma trena, o distanciamento de 1,50 metros entre nós.
Dada às circunstâncias do #momentopandemia, o nosso papo foi muito breve. Apenas o suficiente para trocarmos os números dos telefones e dele ouvir, como forma de despedida, que estava com muita pressa, pois tinha ido ali apenas para saber do amigo farmacêutico, as novidades do mês.
Era o Gal! Tive a certeza!!
Com a sacola cheia, o ruivo do guarda-chuva, portador do maior PIB de EPI´s do planeta, pôs-se a caminhar de forma ritmada e elegante, tal qual um Carlitos moderno.
Ao vê-lo partir, senti que pisava feliz em seus encapados Vulcabrás.
Quanto a mim… restou-me cantarolar ‘UM HOMEM COM SUA DOR’, e agradecer a Itamar Assumpção e Paulo Leminsky pelo presente que, a partir de agora será, para mim, a trilha sonora do querido Ferrugem.
Vida longa e sacola cheia, Galeno!
- Nota: os nomes são fictícios. Apenas os nomes.
- Bônus: DOR ELEGANTE – com Zélia Duncan: https://youtu.be/ucQ5UkDFOIw

Coisas inusitáveis,interessantes e cheias de humor que esse amigo escreve muito bem. Parabéns!Um abraço fraterno.
Querida Fafá/ a sua constante presença por aqui, me agrada sobremaneira. Você é amiga-irmã. Obrigado pelos comentários. Beijo//
Que reencontro maravilhoso, meu compadre! Um tipo inesquecível esse Gal! Beijo carinhoso pra você!
Minha doce comadre/amiga: muito bom ter você por perto e sempre trazendo incentivos às minhas “provocações literárias”/ Beijo no coração.
Ricardo infelizmente esta pandemia nos engessou em nosso convívio social parecemos astronautas, que saudades dos cumprimentos, abraços e beijos, fazem parte e falta em nossas vidas restam-nos orar para voltarmos ao normal
Querido “turco”/ mesmo separados geograficamente, você sempre está presente nas leituras e comentários… esses últimos sempre generosos, qualidade que você possui com sobras. Obrigado, sempre. Beijo e saudade.
Meu amigo, que coisa boa de ler!
Já gostei de Galeno!
E você deixa a gente “no ambiente”. Amarcord de Fellinni.
Abraço grande