Acho que tomei conhecimento do comentário, via Millôr Fernandes.
O fato se deu em plena ditadura militar, quando, após o fechamento de mais uma edição d’o Pasquim, estavam, ele e Jaguar, tomando uma cerveja em um botequim de Ipanema, já no amanhecer de uma segunda-feira qualquer. Lá pras tantas, viram entrar um trabalhador – humilde e candidamente vestido – com a sua marmita sob o braço, se dirigir ao balcão e pedir… ‘uma média com pão e manteiga’.
E foi aí que veio o comentário, não importando a sua autoria: -“eles são limpos e pedem tão pouco, não é?”. Pagaram a conta e saíram… deixando seus copos ainda cheios.
A lembrança deste fato me veio por conta de, nesta semana, eu ter participado no Costão do Santinho, Florianópolis, de um importante congresso da minha área profissional. Não fiquei hospedado no Costão, mas em uma pousada: simples, e distante a menos de dois quilômetros do imponente resort.
Praia dos Ingleses e mar do Santinho, em época de baixa estação e com tempo chuvoso, é deserto absoluto. Nem táxi circula por ali – situação por demais conhecida de todos que, como eu, estão acostumados com o cheiro de maresia e sopros de ventos alísios.
Por conta disso, e com tempo sobrando, durante todos os dias e bem cedo, fui ao Costão de ônibus de linha, regular, nada de especial. Em nenhum dia, esperei mais do que cinco minutos. Em todos os dias, o motorista me recebeu com um ‘bom dia’, e mais um sincero sorriso. Conheço do assunto.
Talvez por conta do horário, a oferta de assentos disponíveis foi sempre verificada; apesar de eu preferir ficar em pé, pois o trajeto era de apenas cinco paradas de ônibus. Junto comigo, muitas crianças e adolescentes indo para as suas aulas. E mães… em sua grande maioria funcionárias do resort Costão; facilmente identificadas pelo uniforme.
Foi numa dessas viagens que conheci Marta e suas duas filhas. Batemos um papo rápido. Tempo suficiente para eu admirar aquela mulher trabalhadora; suas filhas; seu otimismo com a vida; seus trajes: humildes e cândidos; etc…
Marta foi pra mim, o que o trabalhador da ‘média com pão e manteiga’ representou para Millôr e Jaguar. Apenas, para fechamento do presente texto, pego carona no comentário inicial fazendo uma pequena complementação: -“eles continuam limpos e pedindo muito pouco, e nós… continuamos a oferecer-lhes quase nada”.
Viva a Vida!
CD Ricardo Lombardi

Bom dia Ricardo! Bela crônica ! Uma experiência do cotidiano alhures! que nos faz pensar em tanta coisa! Obrigada por lembrar de mim nesses relatos. Fico muito feliz! Também já estive num Congresso da minha área na Praia dos Ingleses, hospedada à beira mar, e vivi tudo isso. Pegava ônibus de linha para ir à Floripa , voltando tarde à noite…., com amigas e cruzávamos com as pessoas comuns que trabalhavam, estudavam e pediam pouco!!! abraços!