19
jan
12

RINAH em dose dupla

RINAH em dose dupla 

Devo ao Twitter a oportunidade de ter me reaproximado do pai da moça. Ou melhor, do pai da cantora! Refiro-me ao Petronio Souto: pai (e fã número um) de RINAH!

Embora o nosso dileto ’Sancho Pança do Cabo Branco’ seja alguns quilômetros mais rodado do que eu; foi fácil alcançá-lo graças a uma das suas principais características: caminhar pra frente; sem pressa, e sem esquecer-se de olhar para trás.

E foi caminhando nas famosas ‘Saturdays walkaminhadas’ que ele (uma vez mais, e sempre discreto) nos falou de sua filha cantora: para mim, e para nossos parceiros dos 15 km de andada que antecede a boa e divertida mesa do Café do Victory.

Virtualmente, graças aos YouTubes e aos Googles da vida, muitos de nós já havíamos constatado que a RINAH era dotada de uma bela voz, e um estilo musical ‘impróprio’ para a sua idade. Felizmente! Nada que pedisse restart; nem lembrasse boquinha de garrafa, ou mesmo chiclete. Nada de ai, ai se eu te pego; nem palavras de ordem do tipo: vamu tirá os pé do chão, galéééééraaaa! Que bom! Sua opção melódica está mais para acompanhar a maré cheia bater na janela da Januária. Ótimo, não é mestre Buarque?!

“A RINAH vai fazer a sua estréia na próxima sexta-feira, abrindo o projeto Estação do Som, no Ponto de Cem Réis, antecedendo o ‘pérola negra’ Luis Melodia”. Foi desta maneira, e com a face bem corada (misto de caminhada e emoção), que o pai da cantora soltou a novidade aos presentes à mesa do Victory. Todo o grupo saboreou a notícia como a grande oportunidade de conhecer, finalmente, a ‘RINAH real’.

Petrus/pai no ‘gargarejo’, na fase pré-show, durante cobertura da TV.

Chegamos cedo no ‘Cem Réis’. Eu estava orgulhoso, já me sentindo engajado no staff da cantora, haja vista que me fazia acompanhar do ‘pai da artista’. Conosco, ia também a minha filha #Biaqueestavaemjoãopessoa, bem como o amigão Marcos Souto.

Enquanto aguardávamos a montagem do palco, a Rinah/filha veio cumprimentar o Petrus/pai. Fomos apresentados. Deu pra perceber tratar-se de uma jovem simpática e atenciosa. Simples, e sem vislumbres. Do tipo: ‘pés no chão’ – exatamente o que esperamos encontrar em nossas filhas e filhos, sempre, e principalmente quando estão na faixa dos seus vinte e poucos anos. Gostei!

Mas, será mesmo que aquela criatura ‘tão normal’, possuiria uma arte, um dom, que justificasse a presença de tanta gente na praça?!

Declaro que sim! Bastou ela ser anunciada e subir ao palco! Cantou e encantou tal qual uma ave afinada. Talvez uma ANU, muito bem lembrado por um dos seus amigos, o jornalista baiano Victor Uchoa – a quem agradeço o texto (abaixo), e o consentimento de divulgá-lo no ‘Coisasdolombardi’.

CD Ricardo Lombardi

O BICO DE ANU

Por Victor Uchoa*

A primeira vez que ouvi Rinah cantar, a música que a acompanhava era de um videokê. Ainda assim, foi encantador. A voz repercutia nas pedras de uma torre medieval do norte português, seus cabelos balançavam com a brisa e ela sorria enquanto cantava, porque cantava para se divertir.

Lembro de ouvi-la cantando Marley e levar consigo até aqueles para quem Bob não significava muita coisa. Uma senhora portuguesa – bem velha – levanta, puxa a barra da saia e cai no reggae. Tirante tudo que o tempo me tomou da memória, disso lembro bem. Aconteceu num videokê do norte português.

Depois, ouvi Rinah cantar em bares com som mal equalizado, em espaços onde era proibido fazer música, acompanhar um violeiro solitário, interpretar Cartola com sinceridade e Luiz Gonzaga com emoção.

Tenho sorte: ouvi Rinah cantar na Paraíba, sem o tom da saudade. Na Bahia, cantou “Saudade da Bahia” para ser aplaudida de pé. Disso lembro bem. Aconteceu no Garcia, de onde os músicos saem aos enxames.

Toda vez que perguntam por que ela não se dedica inteiramente à música, Rinah desconversa. Aposta ainda na diversão. Entrega-se à literatura e ao garimpo do novo. Apega-se à morna africana ou arrisca o ragga. Sossega e grava sambas com o tom da saudade. Um dia há de responder: Quem mostra’ bo ess caminho longe?

A voz de Rinah é um inquebrantável elo entre poema e melodia para dar liga à canção popular. E por mais que ela não queira, entrega o que todos esperam de uma canção: emoção. Desperta um sentimento (qual?) naqueles que se deixam envolver pela equação de música e literatura, sem ser uma ou outra.

Talvez o encantamento que toma quem a ouve seja reflexo da simplicidade com que Rinah canta. Nos grandes palcos ou entre amigos, canta porque se diverte. Entoa reggae e baião sem vacilo. Interpreta sobre o jazz ou a bossa com desenvoltura. Deixa-se envolver na brisa e não para de sorrir. Tirante tudo que o tempo me tomou da memória, disso lembro bem. É que acontece o tempo todo.

*Jornalista baiano que estudou com Rinah em Portugal.


4 Respostas to “RINAH em dose dupla”


  1. Avatar de Felix de Carvalho 1 Felix de Carvalho
    20/01/2012 às 18:29

    Caro Ricardo. Li, com atenção, seu texto sobre a performance da jovem Rinah. Excelente a sua iniciativa. Por uma questão de justiça e também para preservar nossa cultura, devemos estimular esses jovens que fogem à mesmice e que não se enquadram ma música do deboche ou na música que se esgota em uma temporada. Engajo-me nesse grupo que aplaude Rinah. Também sou colega de caminhada de Petrônio Souto, às tardes, no calçadão do Cabo Branco a quem quero igualmente cumprimentar. Abraços.

  2. 21/01/2012 às 06:24

    Prezado Ricardo, Ao entrar mais uma vez no seu prazeroso site, conheci essa joia rara, polida pelo nosso amigo Petronio. Ainda não tive a oportunidade de escutá-la, algum CD? Alguma gravação na internet? Parabéns pelo seu texto!

  3. Avatar de Petrônio Souto 3 Petrônio Souto
    21/01/2012 às 12:00

    Meus amigos Félix e Damião:

    No seu primeiro show em carreira-solo, Rinah foi totalmente intuitiva na direção. Presença de palco, movimentação, tudo foi muito natural. Prova do talento e carisma da cantora. O companheiro de banda, músico Nido Fernandes (violão e guitarra), também cuidou da produção, simples e despojada, bem dentro do espírito do grupo. Tudo foi feito para valorizar a música e a criatividade dos compositores paraibanos.

    Mas, colocando a modéstia do papai de lado, Rinah tem 26 anos, alguma trajetória, voz, ritmo, afinação, estampa, repertório, bons parceiros de trabalho, bons músicos. Sem frescura, é perfeita. Daqui pra frente, só precisa de alguém com razão, sensibilidade e experiência para orientar sua carreira. O problema é o seguinte: ela tem um imenso prazer de cantar, percebi isso desde os seus primeiros passos na vida, mas desenvolve trabalho acadêmico e tem me revelado que não quer se profissionalizar.

    Finalmente, Damião, Rinah ainda não gravou um CD, mas o blog indica pelo menos três ‘links’ onde você pode escutá-la, mesmo em situações improvisadas, “ao vivo”, sem aqueles cuidados técnicos das gravações em estúdio.

    Agradeço a palavra dos dois queridos amigos, pessoas cultas e de rara sensibilidade.

    Petrônio Souto

  4. 21/01/2012 às 12:37

    Meus caros Felix, Damião, e Petrus/pai: está provado que o ‘tema’ RINAH é naturalmente promissor. Se água fosse, seria fonte que abranda a sede de quem aprecia uma bela VOZ, encaixada em um ESTILO musical que traduz ARTE. Tudo isso dentro de uma jovem (26) com DNA dos melhores que conhecemos, e possuidora de um DOM que não se aprende na escola, sabemos. Sendo ‘água de fonte’ deixemos que corra solta. Ela, e os seus parceiros/as, já nos sinalizam que de sede não morreremos. Abraço geral!
    [Agradeço aos três ilustres amigos, pela visita ao blog, e pela generosidade dos comentários. O espaço é coletivo].


Deixar mensagem para Damião Ramos Cavalcanti Cancelar resposta