14
set
11

rural versus urbano

Nota prévia: ‘Rural versus Urbano’ é outro texto resgatado do findável baú. Seu conteúdo possui 85% de veracidade, e o restante veio pela bondosa (e sempre bem-vinda) fada da imaginação. Esclareço que em alguns trechos sobre o Zeca, optei por escrever algumas palavras com absoluta ‘fidelidade auditiva’. Agradeço a todos pela leitura. Espero que gostem! Com carinho, RL.

===================

Rural x Urbano 

O telefonema recebido do Zeca me causou surpresa e satisfação. Nossa amizade teve início há muito tempo, mais precisamente na época do cursinho pré-vestibular. Ele e o Fred, ambos do interior, dividiam um quarto em uma pensão vizinha à minha casa.

Ingressamos na Universidade em cursos diferentes. O Fred optou pela área de Letras & Artes (assim penso); eu pela área de Saúde; e o Zeca, por vocação genética, seguiu Agronomia. Os diferentes rumos fizeram com que a nossa convivência, antes intensa, fosse bruscamente interrompida.

Até aquele telefonema…

Olá, meu véi! É o Zeca! Tá lembrado d’eu?! O estilo e a sonoridade da pergunta já atestavam que o tempo não havia lhe tirado duas audíveis características: GRITAR ao invés de falar, e o seu eterno linguajar caipira.

Diga aí, meu irmão Zeca! Há quanto tempo! A que devo a honra de sua ligação?! Respondi mantendo o aparelho distante da orelha.

– Tô indo praí! Quero encontrá tu, pragente ir pegar minha filha no eroporto daí. Ela ta chegando das Europa! Êta nóis! A safra do abacaxi foi boa, viu! Manifestou mais outra característica rica em decibéis: sua ensurdecedora gargalhada!

 Tudo bem, Zeca! Assim que você chegar me ligue que vou pega-lo onde estiver. Faço questão que você fique em minha casa!

Encerrada a ligação, voltei a brincar com as recordações daquele tempo. Lembrei-me que o Zeca era dez anos mais  velho que nós. Sendo o primogênito de uma família de agricultores, teve que interromper os estudos por algum tempo em razão de não poder se ausentar da sua propriedade. Sempre demonstrou inclinações para trabalhar e viver no campo.

O Fred era o oposto. Introspectivo, de fala mansa e atitudes discretas. Estava sempre envolvido com a leitura de um livro que o deixava ainda mais “impenetrável”. Apreciador de música clássica, fazendo concessão apenas a dois famosos grupos: Beatles e Rolling Stones. De nós três, era o único que ainda não havia definido qual carreira seguir, mas que, certamente, não seria nenhuma da área de saúde, ou tecnológica.

Outra forte característica do ‘moço das letras’ era o seu voraz apetite sexual, naturalmente confirmado pela alta frequência com que trocava de namoradas. Quando sozinho, estava sempre lendo. Enquanto uma das mãos segurava o livro, a outra, por hábito (do ofício?!) estava sempre, e literalmente… coçando o saco(!!). Para desespero do seu companheiro de quarto, zombávamos entre risos.

O Zeca preferiu ficar em um hotel justificando não querer causar incômodo e preservar a privacidade; dele e nossa. Conforme havíamos combinado, fui buscá-lo às seis horas da manhã para irmos tomar café no Mangai – restaurante de cozinha regional que ele somente conhecia por nome, e fama.

Encontrei-o na recepção, já pronto para sairmos. Vestia uma indefectível calça jeans; camisa estampada; chapéu à moda texana; botas; um largo cinturão de couro e, sobre este, uma bolsa capanga. Também concordo; era páreo duro com o Agostinho da ‘Grande Família’.

Seu andar continuava o mesmo: rápido, de pisada firme e com maior tração nos calcâneos, dando-lhe a impressão que suas pernas chegavam antes do resto de seu corpo. Além disso, existia a particularidade de possuir pernas ligeiramente arqueadas na altura dos joelhos, semelhante a alguém que acabara de descer de uma montaria.

Êita, meu amigo! Dê cá um abraço! Segurou-me com os dois braços com a mesma sutileza de um peão que derruba um garrote na vaquejada, aplicando-me ainda duas tapinhas nas costas. O conjunto dos agrados me deixou assustado com a real possibilidade de despertar (em mim) uma velha e crônica lombalgia. Quase sem poder respirar, apelei: – Aaaiii, porra!! Peraí, Zeca! Devagar com os carinhos!  A sonora gargalhada demonstrou que ele havia deferido o meu pedido de salvação. Ufa!

Fomos os primeiros a chegar ao restaurante. O sistema self-service e a minha dieta matinal (eternamente light), permitiram-me maior rapidez na feitura do prato. Sentei-me à mesa e fiquei aguardando o homem de chapéu que já estava circulando com desenvoltura pelo ambiente.

Passado alguns minutos, chega o Zeca. Feliz como uma criança. Vinha carregando uma travessa com as duas mãos e ainda sendo ajudado por uma funcionária do local. Ao sentar-se e depositar sobre a mesa suas opções gastronômicas me foi possível constatar a primeira grande diferença entre a vida rural, e a urbana.

Enquanto o meu desjejum compreendia um pouco de cereais, iogurte, duas fatias de mamão, chá verde, pão integral e queijo ricota; meu convidado contra-atacou com um prato que parecia a maquete de um vulcão em plena erupção.

A base da montanha era uma combinação de inhame com macaxeira, volumetricamente compactados. Do topo, descia uma generosíssima porção de bode guisado, distribuída com absoluto esmero ao redor do mini-Vesúvio, lembrando suas lavas incandescentes.

E não parava por aí… Sobre a nossa mesa a garçonete também depositou: uma coalhada (das grandes); cuscuz; três ovos de capoeira; tapioca; queijo de coalho, e de manteiga; uma cartola, e um bule de café. Este último, sendo assim justificado: – É pra ajudar na descida dessas coisinhas! Gelei!

Ôhh Zeca! São sete horas da manhã e você já está almoçando? Brinquei com o meu fastioso amigo.

– Que nada! Lá na roça eu como esse tantim às cinco hora, depois que vórto da ordenha das vaca. Acho que estou anoréxico, pensei!

No aeroporto, ficamos em um café conversando sobre a Ritinha, filha do Zeca. Deduzi, sem muita convicção, que a moça estava fazendo pós-graduação em Paris, na área de moda. A minha incerteza estava fundamentada na forma como ouvi o seguinte comentário: – A menina terminou um curso de fazer roupa pro povo, mas quis estudar mais naquela cidade que tem uma torre de ferro bem alta e onde se toma vinho quinem água.

Estávamos perto da área de desembarque. Notamos que, pela quantidade de repórteres e emissoras de televisão, alguma personalidade estava sendo aguardada. Ao avistar sua filha, o Zeca acionou seus calcâneos e zarpou em direção ao abraço. Juntei-me aos dois, e fui apresentado à bonita moça com as honras de um verdadeiro amigo-irmão.

– Papai, eu tenho uma grande novidade para contar-lhe! Há dois meses conheci o famoso coreógrafo do Bejart Ballet Lausanne e ficamos apaixonadíssimos! Ele também veio comigo, resolveu aceitar um convite para se apresentar no Brasil. Está retirando nossas bagagens, mas eu fiz questão de me adiantar para contar que estou flutuando nas nuvens de tanta felicidade.

Presenciar o bonito encontro entre pai e filha, me deixou emocionado. Ainda mais com o bônus da oportunidade de poder testemunhar uma bela confidência, além da expectativa de conhecer o futuro (e internacionalmente famoso) genro do Zeca.

Com a Rita entre nós, ficamos perfilados e de braços dados, esperando chegar o príncipe. O alvoroço dos repórteres aumentou e uma chuva de flashes, microfones, e câmeras, incidiu sobre um homem alto, magro e elegantemente vestido.

– Pronto pai! Aquele lá é o grande amor de minha vida!

Ao virar-se, e focar o seu futuro genro, o Zeca emitiu um dilacerante grito que não somente fez disparar o sistema eletrônico de segurança do aeroporto, como também desviou a atenção da mídia presente:

FFRRRÉÉÉDDDD! Seu filho de uma putaaaaaa…

Uh la la! Vivre l’amour!!

CD Ricardo Lombardi


4 Respostas to “rural versus urbano”


  1. Avatar de Fátima Bringhenti Daudt 1 Fátima Bringhenti Daudt
    14/09/2011 às 14:10

    Adorei mais esta texto caro amigo Lombardi. Que Deus te conserve com esta maravilhoso dom! Abraços,
    Fátima Daudt

  2. Avatar de Felix de Carvalho 2 Felix de Carvalho
    15/09/2011 às 22:09

    Caro Ricardo. Meu professor de teoria da literatura no curso de Letras (1970 – 1973) Virginius da Gama e Melo, já falecido, mas ainda muito lembrado em terras paraibanas, costumava dizer que o bom escritor é aquele que consegue prender a atenção do leitor. E ele tinha razão. Com base nesse conceito, você pode e deve ser considerado um bom escritor. Desenvolva esse dom que Deus lhe deu. Aproveito para fazer um comentário paralelo: somando este texto a outros já publicados neste espaço, vejo que você tem verdadeira predileção por amigos exóticos. Mas, afinal, o que foi mesmo fazer Ritinha em Paris? Você ouviu alguma coisa? Conte para nós. Abraços. Felix

    • Avatar de Diego Magão 3 Diego Magão
      18/09/2011 às 11:28

      kkkkkkkkkkk!
      Rapaz, estou rindo até agora!
      Parabéns meu querido amigo, mais uma vez fiquei impressionado com sua capacidade de escrever bem.
      Esse seu bom humor cura qualquer estresse. Abraço tio Lombardinho!

  3. Avatar de Ivanilde Moureira- Fonoaudiologia 4 Ivanilde Moureira- Fonoaudiologia
    19/09/2011 às 16:51

    Adorei Prof.!
    rsrsrsrsrs


Deixar mensagem para Fátima Bringhenti Daudt Cancelar resposta