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jan
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um dia inesquecível

UM  DIA  INESQUECÍVEL

Foi assim que tudo começou: –”Pronto! O seu equipamento já está instalado! São quatro eletrodos, e mais esta caixinha preta que, de vez em quando, basta verificar se a luzinha verde continua piscando. Fique sem tomar banho por hoje. Durma de costas, ou virado para a direita. Por último, preencha nesta ficha o horário e o tipo das principais ocorrências do dia”.

Após as explicações (ouvidas, e sem nenhum direito a réplica), vesti a camisa e saí, com andar macio de homem-bomba, carregando no abdômen o meu ‘monitor Holter’ [dispositivo portátil que monitora continuamente a atividade elétrica cardíaca por 24 horas ou mais].

Para mim, não era novidade passar mais um dia incorporando um Cyborg. Faz anos (desde que ingressei nos enta) que levo a sério a importância de me submeter aos periódicos checkups preventivos. Graças aos mesmos, ainda é possível continuar vislumbrando e sentindo as emoções advindas de cada novo dia. E que assim perdure, é bom frisar!

A cada ‘acontecimento de relevância’(?!), eu olhava para o relógio e registrava, na ficha, a hora, e o tipo de ocorrência: 9:40 – subi escadas; 9:58 – pequeno prolapso; 10:31 – desci escadas; 10:33 – tropecei na porra do último degrau; 11:17 – comendo pipoca; 11:20 – engasgado: cóf! cóf!… e assim por diante.

O primeiro grande teste foi resolver com a Gol (via telefone), uma pendência de duas passagens aéreas compradas, e não utilizadas, desde o final de 2009. Estava na boa companhia de minha esposa que, sabendo como eu sempre saio mutilado nos embates com os serviços de tele-atendimentos, pôs-se a controlar o piscar da luzinha verde.

Consciente do monitoramento [agora duplo], concentrei-me e coloquei pra fora todos os meus pendores diplomáticos naquela difícil negociação. Após uma hora e quarenta minutos de entendimentos; pela primeira vez, eu saí contemplado nas minhas solicitações. Incrível, mas eu havia vencido!

Frente ao inusitado acontecimento, minha esposa começou a considerar os ‘poderes milagrosos’ do Holter. Para ela, a caixinha preta com a luzinha verde, foram os responsáveis, diretos e absolutos, pela minha performance ‘paz e amor’ – impossível de ser verificada quando o assunto era interagir com qualquer forma de tele-atendimento. A partir daí, a Irene começou a defender a idéia de ‘Holter permanente’. Eu, hein?!

Mas o colossal desafio, estava por vir. Consistia em encarar naquela tarde – e ainda monitorado – o meu sonhado ‘exame de próstata’; marcado há dias e não verificada a coincidência de agenda. A família unida cobrou: – ‘Vai mesmo encarar?! Vou!’

E fui! No caminho para a clínica do urologista, fiquei a pensar: …e se na hora H, o aparelho queimar!? Ou, BEM PIOR, se o aparelho não acusar nenhuma alteração!!!?? Pensei em remarcar a consulta, mas, ao mesmo tempo, me seduzia o ineditismo de ser [talvez] o único paciente do mundo a ser submetido ao exame de toque an(u)al, portando um ‘dispositivo portátil que monitora continuamente a atividade elétrica cardíaca’.

Pressentia que a minha atitude (bastante esdrúxula, estou convicto) poderia fornecer uma grande contribuição científica à medicina. Pensar nisso era agradável e revigorante. Parecia gerar uma força adicional em todo o meu sistema orgânico; incluindo até (e felizmente) todos os tipos de mucosas.

Dr. Ricardo, o senhor será o próximo a ser atendido! Exclamou a recepcionista na sala de espera quase lotada. Incrível como, naquele ambiente, todos os homens se olham – mútua e serenamente. Espécie de cumplicidade solidária. Pus-me a sorrir; fazer o quê?!

Durante a anamnese, o urologista também ficou surpreso com a presença do Holter. Argumentou que, se eu assim desejasse, poderíamos deixar para outra ocasião o exame de toque. Disse-lhe que não; justificando (com risada semi-histérica) que os países baixos já estavam prontos para serem ‘invadidos’.

Precisamente às 15:37 horas (eu olhei bem para o relógio) a invasão; digo, o exame foi feito. No momento crucial, olhei para a luzinha verde e… nada! NADA?! Continuava piscando serenamente, como se nenhum porta-aviões estivesse adentrando em mares pouco navegáveis.

Pelo médico, fui muito elogiado pelo meu elevado grau de cooperação ao exame. Estou convicto que isto aconteceu (aconteceu?!) pelo fato de eu haver desviado a minha atenção para o Holter. Luzinha filha da puta; pensei!

Ainda bem que foi rápido. Se demorasse mais um pouco, talvez eu começasse a admirar a cor dos olhos do urologista, ou – delírio maior – vê-lo trazer, na ponta do dedo, uma miniatura do Stephen Fry. Isto acontecendo, faria com que os meus amigos, liderados pelo @linaldoguedes, ficassem desmotivados em fundar um bloco carnavalesco. Evoé!

  • Como despedida, um lembrete: A PIOR DOENÇA É A TRAZIDA PELO PRECONCEITO OU PELA IGNORÂNCIA.

CD Ricardo Lombardi


4 Respostas to “um dia inesquecível”


  1. Avatar de Helguinha 1 Helguinha
    13/01/2011 às 19:30

    Só vc mesmo Lombardinhooooooo, para ter tamanha criatividade e transformar suas experiências diárias em textos maravilhosos…adoooooroooooooooo

    • Avatar de Vanessa Jovito 2 Vanessa Jovito
      14/01/2011 às 19:00

      Prof. Parabéns pela coragem e incentivo que dá a todos os Homens principalmente, que não encaram um simples exame por preconceito.
      Muito obrigada por sempre escrever coisas tão reflexivas que de alguma forma nos enriquece.

      Bjssss

  2. Avatar de lizarruda 3 lizarruda
    15/01/2011 às 21:46

    Brother,

    Pior seria se o holter estivesse entrando e o dedo piscando kkkkkkkkkkkkkkkk !

    Beijim

  3. Avatar de Felix de Carvalho 4 Felix de Carvalho
    17/01/2011 às 21:49

    Caro Ricardo. Já tive a oportunidade de dizer-lhe que você tem a capacidade de transformar fatos triviais (no caso, uso de aparelho para monitoramento de funções orgânicas e exame de toque retal) em um grande enredo. É justamente essa capacidade que identifica os bons cronistas e contistas. Por isso – e mais uma vez – estimulo-o a publicar seus textos em um livro. Comece a pensar nisso como um projeto futuro (próximo). A frase que fecha o texto é, por demais, oportuna, sobretudo para os homens, que costumam descuidar nos exames preventivos, mais especialmlente ainda quando se trata de visitar o urologista. Por fim, quero pedir-lhe que não xingue a luzinha verde, que foi sua fiel companheira em todos os momentos. E se, naquele momento fatídico, a luz apagasse? Com a consideração de sempre.
    Felix


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