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comunicar é o que importa

comunicar é o que importa

 

PARTE I: Gosto muito do eclético Nelsinho Mota. Compositor,escritor, crítico musical,   agitador cultural, descobridor de talentos, são algumas de suas atividades comprovadamente   exitosas. Exatamente por considerá-lo acima da média, fiquei surpreso quando, em uma entrevista, ele disse que rock’n’roll era coisa pra juventude. Só não manifestei minha discórdia por entender que a reportagem foi gravada ao vivo, em pleno epicentro do Rock in Rio. Entendi também que ele estava considerando apenas o quesito “evolução e alegoria”, ou seja, a performance sobre o palco. Ainda bem que Mick Jagger, Keith Richards e outras longevas exceções não lhe deram atenção.

Tratando-se de música como arte, não se pode associar o estilo da obra com a idade cronológica das pessoas. Já com relação à coreografia cênica, de fato, olhos e neurônios pedem mais brandura. Já imaginaram alguém, com mais de 35 anos (estou concedendo um ótimo desvio padrão), dançando ao som de peças musicais, tais como boquinha da garrafa? Tô fora! Não se trata de preconceitos, mas sim de proteção e seletividade à estética visual.

Conviver com a juventude é um privilégio que desejo eternizar. Seguramente, faço essa declaração no gozo pleno de minhas faculdades mentais e sem estar acometido da síndrome de Peter Pan ou mal semelhante. Sendo professor universitário, entendo que, para a boa e salutar execução do meu ofício, torna-se fundamental “aprender” com os alunos. Fácil! Basta ouvi-los e observá-los melhor, dentro ou fora das salas de aula.

A comunicação oral usualmente praticada entre os jovens faz parte desse aprendizado. Admito que sinto grande prazer com as oportunidades de presenciar e tentar, dentro do possível, incorporar seu estilo. Para mim, isso é uma forma de manter-me “comunicativamente apto”. Primeira lição é constatar a fundamental existência daquilo a que denomino de “duplo G”: gíria e gestos.

A gíria já pode ser considerada patrimônio cultural universal. Aceitá-la ou não, é outra questão. Acrescida de uma expressão gestual, o ato comunicador adquire, além de nova dimensão, uma velocidade astronômica. Pode, inclusive, configurar uma atitude “ecologicamente correta”, haja vista a redução de gás carbônico expelido, fruto da economia na emissão de fonemas. O planeta agradece!

Confesso ser difícil escrever sobre esta temática. É grande o desafio de encontrar, na forma escrita, mecanismos que substituam aqueles recursos facilmente (e até exclusivamente) identificados, apenas, quando se faz presente o “duplo G”. Mesmo assim, vou tentar. Antes, porém, peço licença para utilizar uma forma atípica de escrever. O intuito é melhor traduzir a entonação e o ritmo de um fictício diálogo, já prevendo que o resultado, certamente, deixará o meu guru gramatical, professor Felix, de cabelos em pé.

Imaginemos que o encontro tenha acontecido na manhã de uma segunda-feira qualquer, em nossa querida Faculdade de Odontologia:

– E aííííí? Como é que foi a balada? (O mesmo que dizer: olá, como foi a festa?). Coreografia 1: executada simultaneamente pelos dois interlocutores envolvidos, com visibilidade plena (mão direita com o polegar e dedo mínimo levantados e os demais retraídos, oscilação rápida na altura do pulso, em movimentos curtos, giratórios e horizontais – gesto conhecido universalmente como hang loose).

– Manêra! Por que tunumfoi? (O mesmo que dizer: ótima! Por que você não compareceu?).

– Fiquei em casa, terminando o TCC. Coreografia 2: dedos da mão esquerda fechados, sem muita pressão, permitindo uma certa abertura, voltada para cima, entre o polegar, o indicador e o médio. Mão direita espalmada indo de encontro à esquerda, que também migra contra a direita, gerando um som tipo: top-top!

– Encontrei a Bel, disse que te acha mó demais! (O mesmo que  dizer: te acha muito legal).

– Eu também sôafim dela, táligada? (O mesmo que dizer: eu também gosto dela, compreende?).

– Demorô… (O mesmo que dizer: então, ótimo!).

– Sábado fiz 10, e tu? (O mesmo que dizer: sábado corri 10 quilômetros).

– Num deu, fiquei baixando música na net (O mesmo que dizer: não foi possível. Estive ocupada obtendo músicas pela internet).

– Qualé agora? (O mesmo que dizer: você vai ter aula agora de quê?).

– Clinf, e tu? (O mesmo que dizer: clínica integrada infantil, e você?).

– Lab total! (O mesmo que dizer: laboratório de prótese total).

– Inté! Gensivê! (O mesmo que dizer: até logo, depois a gente se encontra). Coreografia 3: mão direita fechada em posição de esmurrar, batendo uma só vez (suave e rapidamente) contra a mão da outra pessoa que se posiciona da mesma forma. Em seguida, cada um abre a palma de sua mão e, numa mesma escala rítmica, voltam a se tocar (de raspão) uma única vez e suavemente.

– Fallouw! (O mesmo que dizer: certamente que sim!).

Fico extasiado ao perceber como, utilizando-se de tão poucas palavras, a comunicação é feita e assimilada mutuamente. Seria falso de minha parte dizer que não aprecio, com algumas ressalvas, essa tendência universal. Graças ao “duplo G”, o diálogo entre os dois jovens não levou mais do que cinquenta segundos para ser desenvolvido. Entretanto, a tentativa  de traduzi-lo na forma escrita me consumiu algo em torno de meia hora diante do teclado. Apesar desse esforço, restou a frustrante sensação de não haver logrado êxito na fidelidade da transcrição.

PARTE II: Mesmo convicto de que cada geração possui sua forma de expressão, fico apreensivo com a possibilidade de uma visita-surpresa de algum ser de outro planeta, minúsculo ou invisível. Ainda mais se ela acontecer no início de determinados “eventos culturais”. Dependendo do show, nosso simpático ETzinho não vai entender absolutamente nada, ao ouvir, vindo do palco esfumaçado, o famoso grito de guerra:

– UHHHHUUUUUUU!!! E aííí galéééééééra?? Vamutirá o pé du chããããoooo! Incrível como todos atendem. Menos eu, que tenho um problema na rótula direita, o saci-pererê e o nosso extraterreste, que vai se mandar – para nunca mais voltar! Por favor, não ria! A coisa é séria! Poderia ter havido uma guerra interplanetária!

Cada “tribo” possui seu próprio linguajar, o qual é plenamente identificado entre seus membros. Porém, quando a interlocução acontece entre diferentes grupos, o risco de não haver entendimento é imenso. Nos dois sentidos, convém destacar. A situação se agrava ainda mais se essas tribos permitirem, erroneamente, a existência de uma abissal distância entre elas. Fazendo-se uma analogia com o texto  bíblico, parece herança da torre de Babel. Querem uma prova?

Certo dia, chego em casa e encontro, o querido Jonga, meu sobrinho, baiano, 20 anos, surfista, que viera passar férias conosco.  Ele estava assistindo, na TV Justiça (?!!), à transmissão ao vivo de uma sessão plenária da corte suprema do país. Após nos cumprimentarmos – de forma visual direta, usando apenas um dos G’s (gestos) – fui me trocar e, na volta, sentei ao seu lado. (Em tempo: havendo dificuldade na compreensão de alguns termos, não entre em pânico! Um glossário encontra-se disponibilizado ao final do texto ©).

– Aloha, meu truta! Qué qui tá rolando? (percebam que eu, naturalmente, procuro seguir o dialeto próprio do grupo a que meu sobrinho pertence).

– Mó kaô, tio! Ó paí ó! (apontando com o pé para a TV). Tô aqui já faz uma chuva… muito cabuloso. Os cara tão só no lero: Vossa excelência prá cá… vossa excelência prá lá. De vez em quando falam uns treco tipo: data venia, exordial, aditamento (incrível! ele pronunciou corretamente!). Até parece qui os cara são mano… qui nada! Daqui a pouco, o cacete vai rolar. Tá vendo aquele ali de óculos e capa preta? Quase mandou aquele outro pra*ਆ#Å! E ainda dizem que meus mano é que não tem a manha da conversa!!

Fiquei surpreso com tamanha riqueza de síntese e, numa manobra equivalente a um 360, emendei: – Vamos pro rango, brô! É mais negócio que ficarmos vendo isso.

Conviver em sociedade exige absorver regras e critérios que permitem o bom e fraterno relacionamento entre as pessoas. A comunicação oral é o canal mais simples, prático e direto para o entendimento. Ela é rápida e efêmera. A forma escrita, não! É eterna, como nossa mãe. Somente ela permite que um filho se atreva a brincar de escrever – como estou fazendo agora.

Beijos no coração, e Boas Festas para todos.

CD Ricardo Lombardi

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©

-Aloha – Bem-vindo, traduzido de dialeto havaiano; saudação positiva.

-Brother (Brô) – Maneira como um surfista chama outro, amigavelmente.

-Cabuloso – Estranho, esquisito.

-Kaô – Papo furado.

-Lero – Conversa mole.

-Mano – Irmão.

-Rango – Comida.

-Truta – Amigo, camarada, brother.

-360 – Manobra dificílima em que o surfista executa, com a prancha, uma volta completa em torno de si mesmo (3600) e continua surfando na mesma direção.

-*ਆ#Å – Isso mesmo que você pensou!

FONTES: http://www.tanaonda.com/colunas.php?id_coluna=2908

http://360graus.terra.com.br/surf/default.asp?did=382&action=reportagem

http://www.reidacocadapreta.com.br/2008/05/03/dicionarioegiriasdesurfistasdeaaz/


4 Respostas to “comunicar é o que importa”


  1. Avatar de Yuri 1 Yuri
    14/12/2010 às 21:19

    Como sempre divertidas “estórias”!
    Hoje mesmo estava lembrando que havia algum tempo desde que “o mano da orto” tinha mandado textos… Ainda bem que sobrou uma laminha em 2010.
    Quanto a linguagem e comunicação, faço minhas as suas palavras!
    A coisa mais fácil é explicar trabalho científico na comunicação oral…
    Escrever sobre é que é difícil. Tem sempre alguém que não entende.

    Enquanto isso volto para os trabalhos com a mente arejada!
    Forte abraço Profº!
    Boas Festas,

    Yuri

  2. Avatar de Maria do Socorro 2 Maria do Socorro
    15/12/2010 às 15:14

    Querido Ricardo,
    Como sempre,demais! Impressionante como você está craque
    nas formas de expressões de “todas as tribos”!
    Desejo que em 2011 você continue assim, bastante inspirado,
    para que possamos desfrutar destes deliciosos textos!
    Boas festas e que o próximo ano seja muito feliz!!!
    Beijos!
    Maria do Socorro

  3. Avatar de Gustavo Bisneto 3 Gustavo Bisneto
    18/12/2010 às 08:48

    Ah, tio! Adorei o texto, a parada é sinistra!kkkk
    Realmente, a proximidade com as tribos é necessária para a boa convivência mesmo, não podemos ser fundamentalistas e nos isolar-mos em nossas. Para isso, respeito para com o próximo é necessário.

    Grande abraço

  4. Avatar de Plínio Assis 4 Plínio Assis
    29/04/2014 às 18:53

    Realmente esse comentário de Nelson Mota foi infeliz, o grande público de bandas de rock progressivo, a exemplo Pink Floyd, e até de outras bandas de rock sem ser progressivo, são pessoas com idade cronológica, e mental também, mais elevada. Essa questão de estereotipar é realmente complicada, isso serve para tudo! Eu por exemplo, tenho 24 anos de idade física e sou apaixonado por tangos e boleros:Carlos Gardel, Sara Montiel, dentre outros; inclusive adoro dançar esses estilos musicais, coisa que muita gente diz ser da “terceira idade”.
    Quanto às gírias elas são uma ótima forma de expressão, pois podemos nos comunicar de forma simples e rápida, só não podemos adotar essa forma de expressão para nos comunicarmos em todas as situações. Há situações que temos que ser o minimamente formal possível. Já pensou conversar com o paciente na clínica: -Ei bixo, tu ta com um rombo ai no teu dente ta ligado?( Olá, você tem uma cavitação em um de seus dentes, sabia?) Vamo ter que tampar isso morô? de rocha?(Vamos ter que restaurar o seu dente ok?).
    Abraços.


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