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13
jul
10

TARDOU, MAS CHEGOU

TARDOU, MAS CHEGOU

Ontem, enquanto preparava a Aula da Saudade da querida turma concluinte 2010.1, recebi vários emails comunicando que a Justiça Federal havia invalidado o resultado das últimas eleições do CRO/PB.

Confesso que a notícia me causou muito mais preocupação do que satisfação. Alguns que acompanharam o processo têm consciência de vários textos escritos e ainda disponibilizados neste blog – relativos à sufocante tentativa de sensibilizar a categoria sobre uma prática caduca, desigual e antidemocrática no disciplinamento da citada consulta eleitoral.

Sobre a sentença impetrada, parece-me que a mesma fundamentou-se na “errônea interpretação” dos números finais. Os requerentes da ação judicial argumentam que a contagem dos votos foi tendenciosamente trabalhada para alcançar o patamar de “metade mais um voto”, para eliminar a possibilidade de haver segundo turno.

A minha preocupação é que o foco principal da questão traduz apenas UM entre vários fatores mutiladores da liberdade, e do estado democrático de direito. Como exemplos:

• ocultação de informações (somente a “chapa oficial” teve acesso a listagem dos associados com direito ao voto);

• uso do poder – apenas os decanos do cargo (e candidatos) definiam quem tinha (ou não) direito ao voto; inclusive ao voto por correspondência (credo!);

• uso da máquina – não é à toa que a Dilma, o Serra e a Marina Silva deixam os seus cargos para não serem “tentados” ao uso de equipamentos (telefones, por exemplo) e funcionários.

Para mim, o fatídico dia da eleição (07/05/10) foi inesquecível. Por que será que o cenário estava mais para guerra tribal, do que para uma salutar consulta/festa/democrática para escolha de nomes, entre pessoas que freqüentaram as mesmas disciplinas universitárias?!

Respondo: pelo distanciamento com a prática (e convivência) democrática; confirmado pela ausência de debates entre candidatos e/ou propostas. É deprimente que a contenda eleitoral sequer permita um simples e respeitoso cumprimento entre colegas portadores de idéias antagônicas, e propósitos talvez semelhantes.

Tenho certeza que um dia faremos igual à eleição do CRO/RN, acontecida uma semana antes da nossa. Lá, várias reuniões foram feitas com as chapas concorrentes. Todas as idéias foram analisadas e acatadas, quando vistas como edificantes ao pleito. Por ocasião da “festa da votação”, todos se freqüentavam mutuamente entre suas barracas, dividindo lanches e – pasmem – sorrisos! Não sei qual foi o resultado, mas certamente a Odontologia/RN saiu engrandecida.

Para mim, o despacho judicial apenas confirma uma vitória já alcançada pelos que fazem e têm compromisso com a Odontologia paraibana: o estabelecimento de uma nova ordem e condutas práticas nos processos eleitorais do CRO/PB, e nas demais representatividades da classe. Parece tratar-se do início de saneadoras manifestações do “movimento ACORDA-ODONTO/Pb”. Sigamos juntos!

Neste sentido, fico feliz de estar contribuindo (assim espero) com a formulação desses textos. São apenas palavras agrupadas no sentido de manifestar o posicionamento de um simples eleitor; atento e participativo.

Agora voltarei a trabalhar na minha Aula da Saudade! Confesso que com mais ânimo, pois parece que os meus queridos formandos muito em breve vivenciarão outra realidade democrática.

Palavra de Tio Lombardinho!

CD Ricardo Lombardi de Farias

07
jul
10

FUTEBOL E EDUCAÇÃO

FUTEBOL E EDUCAÇÃO

O caso do goleiro Bruno é bastante emblemático de acontecimentos que, lamentável e ocasionalmente, surgem no universo dos famosos; apesar de não ser prerrogativa exclusiva do mesmo.

Entendo que alguns desvios de comportamento adquirem mais condições de acontecer em pessoas (algumas) que, muitíssimo rapidamente, passam do anonimato ao estrelismo da fama. Dependendo da rapidez desta metamorfose e de outros aspectos predisponentes, o processo poderá se transformar, não em um ideal de vida, mas em um fardo insustentável.

Aqui no Brasil, como em boa parte do mundo, o esporte – notadamente o futebol – é uma porta de entrada ao hall da fama – pretendido por milhares de candidatos. Todos nós ficamos emocionados com os exemplos de superação de vários fenômenos que; saindo de condições humildes de vida, ingressam no patamar das celebridades.

Claro que descer de um transporte coletivo urbano (busão), e entrar num Porsche Boxster S particular é algo maravilhosamente desejado por todos. O problema (?!) está na abrupta velocidade com que este sonho é materializado; podendo, muitas das vezes, ocasionar perda de identidade (ainda em formação), e outros valores referenciais de vida.

O vertiginoso aumento do saldo-médio bancário traz consigo um batalhão de empresários voltados para cuidar da imagem e dos negócios do novo ídolo. Aos poucos vai ficando cada vez mais difícil deixar sua nova cobertura duplex, localizada em área nobre, para circular na área pobre de sua antiga comunidade; servida pelo busão.

Torna-se imediato o assédio das marias-chuteiras; espécime humano facilmente identificado por características bem definidas: são bem vistosas; possuidoras de exuberantes dotes físicos (muitas vezes de indecifrável DNA); e ávidas para circularem dentro de um Porsche Boxster S – fato que também as transformam em marias-gasolinas.

À medida que os gols (ou as defesas) vão consagrando os nossos heróis; também aumentam as suas cotações na bolsa de valores de todo o mundo. Suas agendas já não lhes pertencem mais; nem eles, tampouco. Muito logo, se transformam em griffe e, se brincarem, viram suco.

A fama não permite descanso! Ela gosta é de badalações e festas; muitas festas. Não faltam amigos e assessores nos lautos banquetes, regados a bebidas finas e sexo grosso; nunca a sorvetes como pretendido pelo profeta Dunga. A isto, o Ricardo Amaral, em seus áureos tempos de rei da noite, batizou como sendo os “prazeres da mucosa”.

Este é o ponto crucial! Saber conviver e administrar o novo estilo de vida irá exigir do novo deus uma sólida estrutura interior, até agora somente determinada por dois fundamentais pilares de sustentação: família e educação.

Olhando assim, e retornando ao lamentável caso Bruno, somos todos responsáveis no sentido de encontrarmos mecanismos que evitem o surgimento de novos (e trágicos) desvios de rota. Sobre o tema, achei muito feliz a leitura feita pelo senador e professor Cristovam Buarque quando cita em seu Twitterhttp://twitter.com/Sen_Cristovam: “Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo no futebol e ficou triste! É o 85º em educação e não há tristeza”.

No capítulo família, o goleiro Bruno parece que já entrou em campo um pouco derrotado. As manchetes dizem que foi abandonado pela mãe aos dois anos de idade. No quesito educação, desconheço o seu grau de escolaridade; ou melhor, desconheço o conteúdo assimilado.

Como cidadão, sinto-me desconfortável e em débito com o fato de ainda não havermos encontrado mecanismos sociais eficientes que minimizem alguns fatores de risco aqui comentados. Tomara que os nossos candidatos, quando eleitos, implementem ações neste sentido.

Sendo o esporte sinônimo de saúde, acredito que um bom caminho seria fazer com que os clubes investissem mais na sanidade de seus atletas, incluindo aí um fortíssimo e competente acompanhamento psicológico.

Somente pela via da educação é que poderemos – jogadores e torcedores – recuperar o título de melhor futebol do mundo. Até lá, ficaremos sem entender qual o tipo de oração que o Bruno faz (fazia?!), de joelhos e braços abertos, antes do início de cada partida.

Palavra de torcedor/eleitor!

CD Ricardo Lombardi de Farias

30
jun
10

COPA E CHUVA

COPA E CHUVA

Lá longe, a Copa rola; aqui perto, a chuva cai!

São dois eventos muito esperados por brasileiros, principalmente pelos nordestinos. Melhor ainda quando o primeiro acontece com força total, e o segundo vem com a complacência divina de uma generosa mãe que busca transformar o solo árido, em fértil.

Hoje, assistindo as notícias pela televisão, fiquei dividido entre dois fatos assustadores: o edema ósseo do meia Elano; e o sofrimento de dona Maria das Dores – uma das inúmeras contempladas com o sumiço de seu único bem; uma minúscula casa localizada nas proximidades de um dos rios que banham pobres cidades do interior de Alagoas e Pernambuco.

Na coletiva à imprensa, o Dr. José Luís Runco assegurou a nação que o incômodo da lesão apenas se manifestava quando o Elano fazia movimentos de desaceleração. Pena que a dona Maria das Dores não pôde acompanhar a entrevista, pois sua televisão foi tsunamicamente levada pela correnteza. Mas, se tivesse assistido, certamente a nossa heroína desejaria que o vetor desaceleração (maléfico ao atleta), viesse se manifestar no abrandamento da força dos rios.

Durante o noticiário, o assunto lesão/Elano consumiu cinco vezes mais tempo que o assunto sofrimento/dona Maria. Até entendo, porque no momento a fome do Brasil é de jabulani na rede; não importa o preço. Inclusive para dona Maria que, entre choros e soluços, e à espera de donativos, também torce pela conquista do hexa.

Dona Maria é (ou era?!) moradora de Catende. Certamente o município pernambucano está bem mais próximo de Brasília que Port-au-Prince, capital do Haiti. Incrivelmente, naquele país irmão, a participação brasileira na ajuda às vítimas dos terremotos, chegou com urgência máxima – tanto por terra, ar, ou mar. Ainda bem que os abalos sísmicos aconteceram anteriormente ao período da Copa; assim como o Haiti não possui Elano, nem conseguiu classificação ao torneio.

Tenho certeza que antes do final da Copa, o jovem Elano estará totalmente curado e dona Maria receberá assistência relativa à recuperação do seu patrimônio. Ao primeiro, não faltarão rápidos recursos terapêuticos reabilitadores.

Quanto à sem-teto, tenho certeza que, para aliviar seu sofrimento, os nossos representantes em Brasília logo encontrarão mecanismos compensatórios; uma vez que estão trabalhando – em plena Copa, vale frisar – com a mesma abnegação demonstrada ao aprovarem mais um justo aumento salarial aos servidores da Câmara Federal, concedido em 15/6/2010.

Enquanto esperamos, convido a dona Maria para – juntos – ouvirmos um grupo de jovens nordestinos que, em 1975, colheram um bonito fruto desta terra, outrora seca, agora encharcada de lama: http://www.youtube.com/watch?v=rnc84s-i3ew   (botão direito – open link).

Detalhe final: várias vuvuzelas foram encontradas nos entulhos deixados pela força das águas. Viva a globalização!

CD Ricardo Lombardi de Farias

19
jun
10

TAMBÉM QUERO VUVUZELAR

TAMBÉM QUERO VUVUZELAR

Em qualquer parte do mundo, o brasileiro é facilmente identificado pelo seu maior patrimônio: a alegria. Não importando o ambiente ou condição em que se encontre, sempre será notado pelo sorriso espontâneo e franco; e pela capacidade comunicativa, confirmada pela assiduidade de gestos e abraços.

São características autênticas, resultantes de quinhentos e dez anos de miscigenação com o mais puro tempero latino, acontecida em terras quentes e férteis situadas abaixo da linha do equador, aonde, segundo Caetano Veloso, inexiste pecado.

Não restam dúvidas que este maravilhoso legado nos credencia, em âmbito universal, como agentes proliferadores da alegria – produto lamentavelmente ameaçado de extinção.

Por outro lado, quando existe alguma forma de cerceamento desta natural e intrínseca condição, perdemos a luz própria do encanto e passamos a trafegar no escuro da incerteza – como parece acontecer agora, com nossos vinte e três heróis na África do Sul.

Sobre este fato, não adianta querermos colocar a culpa na linda jabulani, muito menos nas estressantes vuvuzelas. Igualmente impossível atribuir esta dura responsabilidade aos simpáticos anfitriões; até porque deles cabe-nos somente agradecer pela fortíssima herança filogenética e cultural.

Também não seria justo creditar exclusivamente ao professor Dunga – e sua eterna birra com os meios de comunicação – a responsabilidade pela mudança de comportamento da seleção. Nesse capítulo, o seu colega Maradona vem dando show em termos de relacionamento com a mídia, e também com a demonstração de um belo e vistoso futebol – independente de resultados. É isto que nos faz falta!

Mesmo tratando-se de duas personalidades distintas, os dois possuem pontos em comum: residem em terras situadas abaixo da linha do equador; são consagrados ex-jogadores de futebol; foram campeões mundiais; e possuem um plantel que os habilitam à conquista de qualquer Copa do Mundo.

Entre as muitas diferenças, prefiro destacar apenas uma; o estilo de trabalho: enquanto o baixinho olha pra cima e distribui beijos e afagos; o outro, mais alto, olha pra baixo enquanto morde (literalmente) a língua. Rezo muito para que este TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) se converta em bola na rede.

Claro que numa competição, o que importa são os resultados. Acontece que os mesmos só são conhecidos após os noventa minutos de cada jogo. Sendo assim, não parece justo sofrermos por antecipação com a pseudo-obrigatoriedade de sempre conquistarmos a vitória. Historicamente, sabemos que ela só vem quando conseguimos conciliar três coisas: competência, arte, e alegria.

Como cidadão brasileiro e apaixonado por futebol, orgulho-me de ter sido citado na brilhante frase estampada no “meu” ônibus verde-amarelo: LOTADO! O BRASIL INTEIRO ESTÁ AQUI DENTRO! De fora, continuo torcendo para que seus principais passageiros, a cada abertura de porta, desçam os degraus com semblantes mais descontraídos. Próprios daqueles que, mesmo desconhecendo o resultado do próximo jogo, possuem brilho próprio de todos que conhecem e convivem com a alegria de um GOL.

CD Ricardo Lombardi de Farias

Em tempo: o presente texto foi concluído às 19:30 horas do sábado que precede ao jogo Brasil x Costa do Marfim. Espero que o resultado não possibilite nenhum tipo de rima, mas que traga alegria com demonstração explícita de competência e arte.

09
jun
10

MÍDIA E COPA

MÍDIA E COPA

Será que estou me preocupando à toa?! Vamos ver…

Outro dia escrevi sobre a preocupação brasileira (e mundial) com as coxas do Kaká, e do Luis Fabiano. Foram os primeiros a chegarem na “funilaria” do Centro de Treinamento do Atlético/PR, logo após a descontraída coletiva do metódico Dunga, para anunciar e justificar a sua lista de convocados.

Conforme esperado, o acontecimento serviu como sinal de largada para que todos os meios de comunicação do país acionassem máquinas & profissionais em busca de oferecer a melhor cobertura do maior evento esportivo do planeta.

Tudo é registrado e cronometrado: a lista de convocados foi divulgada faltando um mês para o início do torneio; enquanto a missão para recuperação das coxas disporia apenas de três semanas para ser efetivada.

O poder da mídia é realmente extraordinário. Dia após dia, qualquer bola dividida que resulte em expressão facial de dor ou desagrado, vira preocupação nacional; mesmo que o gravíssimo acidente tenha acontecido em treinos coletivos, ou em inócuos amistosos. Nada escapa, e tudo é notícia: até mesmo a principal personagem – a bola – foi motivo de reportagens sobre a sua “indômita personalidade”. Eu, hein?!

O assédio jornalístico parece estar diretamente atrelado a cotação da seleção candidata ao título, e a importância do atleta dentro do grupo. Assim eu acreditava! Agora, parece-me lícito acrescentar dois outros fatores: função do jogador, e parte anatômica lesionada.

Para justificar tal preocupação, recorro à lembrança dos meus tempos de peladeiro – de praia, e de várzea. Frente à falta absoluta de patrocínio financeiro, e ao pleno abandono de cobertura da mídia, não dava outra: quem mandava era o dono da bola! A este cabia o legítimo direito de escolher o time, e o lado a jogar; geralmente àquele favorecido pelo vento. Também estava no seu direito: apitar o jogo, e determinar o seu final.

Outro relevante personagem, facilmente identificado pela sua (permitam-me) irrelevante demonstração de intimidade com a pelota, era o goleiro! O titular desta posição jamais seria o dono da bola; não possuía concorrência, e era sempre o último a ser anunciado.

Tomara que a preocupação manifestada no presente texto inexista, e seja apenas fruto de lampejos saudosistas. Mesmo assim, declaro-me apreensivo com alguns fatos que podem ser traduzidos sob a forma de perguntas:

• Por que as costas do Júlio César merecem menos tempo de mídia do que as coxas do Kaká, ou o tornozelo do Michael Bastos?!  • Será que o ritmo de jogo da “função goleiro” é diferente da “função atacante”?!  • Será que a falha de um goleiro é tão perdoável quanto a de um atacante?! (vide a copa de ’50)  • É justo dizer que um goleiro só é destaque do jogo quando o seu time joga mal?!  • Alguém duvida que os coreanos do norte (e outros adversários) não estejam treinando “pra caramba” seus chutes à distância?!

Mais do que nunca torço pela recuperação do grande, competente, e simpático Júlio César; personagem número 001 do nosso time. Independentemente de resultados, jamais consentiremos que se repitam injustiças como esta: – “no Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. Eu já cumpri mais de 40 anos de punição, por um erro que não cometi” – BARBOSA (goleiro de ’50), ao ser proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira para fazer uma visita de cortesia aos jogadores que disputariam a Copa de 1994: diziam que ele dava azar! (http://fotolog.terra.com.br/filosofiadofutebol:284)

Xô, urucubaca! – Sou brasileiro, sou vitorioso, e sei morder: quero o hexa contra los hermanos argentinos!

– Alguém viu a minha vuvuzela?!

CD Ricardo Lombardi de Farias

07
jun
10

QUERO O MEU LOGOFF

QUERO O MEU LOGOFFtempos modernos A

 

É sabido que a evolução da humanidade não aconteceu em um ritmo linear, mas sim aos “saltos”; impostos pelo instinto de sobrevivência, e por turbulências geofísicas, ou mesmo culturais. Tais surtos espasmódicos foram rotulados como períodos ou eras, estabelecidos para, didaticamente, justificarem o esgotamento criativo de uma fase e/ou o surgimento fértil de outra.

Parece arriscado tentar determinar nesta sequencia evolutiva qual tenha sido o “principal salto”. Primeiro, porque a fração mínima de tempo utilizada nesta abordagem chama-se século; cuja densidade cronológica sempre dificultou a linha de corte, determinada pelo fato histórico que referendava a alternância de período.

Outra justificativa é que fazer esta análise hoje, na comodidade dos tempos modernos, parece dispensável. Principalmente considerando que todo o processo, indiscutivelmente evolutivo e sempre condicionado a uma seleção natural, invariavelmente nos consagrou como seres vitoriosos (?!); fazendo-nos acreditar que a janela do hoje está somente virada para o amanhã, sem muito interesse em rever o ontem. Será mesmo?!

Apesar disso, e sem fugir ao desafio, comungo com aqueles que consideram que o “grande salto” aconteceu quando deixamos a Pré-História e ingressamos na Idade Antiga; plenamente evidenciada com a origem da escrita (4.000 a.C.).

Junto com ela (e por meio dela) também chegaram: as primeiras formas de governar com a criação do Estado; o estabelecimento de leis e regras visando um melhor bem-estar às populações; e o surgimento de um fenômeno que, além de perpetuado, deve ser cada vez mais aprimorado – a comunicação.

Hoje, após 6.010 anos de existência, e contando com os fantásticos recursos da tecnologia, parece-me que o grande desafio da comunicação escrita não reside em assimilar e saber usar o seu poder multiplicador, mas de reverter a perda do controle seletivo de informações, devido à velocidade (e proliferação) com que as mesmas trafegam no planeta.

Sem nenhuma dúvida, cabe à informática, mais precisamente ao PC* (computador pessoal), ser consagrado como o grande instrumento de transformação social, determinante do estabelecimento de uma nova ordem mundial. Hoje, já não parece possível haver inclusão social, sem a cumplicidade de inclusão digital.

Estou consciente do meu atrevimento em escrever sobre um equipamento que, quando conectado a qualquer www (world wide web: rede de alcance mundial), faz-me compreender que a minha participação nesta relação homem/máquina gira (se muito) em torno de irrisórios, mas não desprezíveis, 5%. Isso mesmo; sinto-me um ser jurássico contemporâneo!

Confesso que esta minha nova condição de cyber-viciado tem me deixado preocupado. De um lado, deixo-me seduzir por uma fantástica (e veloz) máquina, imbatível quando o assunto é arquivamento e consulta de dados – condições que facilitam minha vida de professor e blogueiro casual.

Por outro lado, fico apreensivo com as redes sociais/net sendo utilizadas em detrimento de outros canais de socialização; reais, e não virtuais. Sobre o assunto, tento enxergar melhor o amanhã, abrindo a janela do ontem, deixando-me levar pela lembrança de uma única, saudosa, e descartada cena:

  • Após o jantar, sentávamos na calçada para conversarmos sobre amenidades enquanto o cafezinho, moído em casa e feito em coador de pano, era servido em bule e xícaras de louça.  

Rapidamente, fecho a janela! Ainda não estou pronto para analisar as conseqüências da chegada à cena de um certo senhor Google; sempre acompanhado do seu agitado sobrinho Orkut, de olhar muito sinistro. Ave credo!

CD Ricardo Lombardi de Farias

 * Aos interessados, recomendo o filme “Pirates of Silicon Valley” (baseado no livro Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer, de Paul Freiberger e Michael Swaine) que mostra uma versão próxima da realidade sobre a época, o local, e as principais personalidades envolvidas na criação dos PC’s.

29
maio
10

ENSINANDO COM PRAZER

ENSINANDO COM PRAZER

A função de docente em instituição de ensino superior é vista por mim como uma espécie de sacerdócio. Claro que não estou considerando o salário, pois aí teríamos que acrescentar que o nobre ofício estaria vinculado à ordem franciscana; ou a qualquer outra que identifique que o ser, importa mais que o ter.

De fato, vivenciar a docência em sua total plenitude pede uma cota adicional de abnegação, haja vista que a matéria prima a ser trabalhada é o ser humano. Como educadores, cabe-nos contribuir para que o produto final apresente-se não apenas apto ao exercício da profissão escolhida; mas principalmente otimizado, enquanto cidadão ou cidadã.

Na área de Saúde esta premissa agrega um valor extra; que não apenas confirma sua veracidade, mas impõe que jamais abdiquemos de exercitá-la (e eternizá-la) na prática diária: humanização.

É bastante fácil de entender este diferencial: estamos formando seres humanos que trabalharão diretamente em (e com) seres humanos. Sendo assim, parece legítimo que durante o breve período de graduação, a relação professor/aluno já passe a funcionar como um laboratório de convivência, cujo único objetivo seja aproximar e transformar docentes e discentes, em humildes aprendizes de uma duradoura lição chamada VIDA.

À medida que o tempo passa, venho percebendo como isso é simples e fácil de ser obtido. Pena que não possua fórmula ou receita pronta; pois senão já teria sido publicada em algum periódico internacional qualis A.

Cabe aqui um direito a réplica: – se estamos analisando o relacionamento entre pessoas que circulam em um universo acadêmico, temos obrigação de contextualizar e divulgar a metodologia aplicada, e de como os possíveis benefícios encontrados alcançarão condições de reprodutibilidade e repetibilidade.

Concordo plenamente com esta inquietude científica. Acontece que, para buscarmos previsibilidade de resultados em questões ligadas ao sentimento e relacionamento humano, devemos primeiro consultar a literatura científica localizada dentro de nós mesmos.

Podemos iniciar este mergulho interior, indexando papers (validados cientificamente) que enalteçam a primazia do ouvir, sobre o falar; do presente, sobre o ausente; do chegar, sobre o partir; e do altruísmo, sobre o egoísmo. É um bom começo!

Nesta Revisão da Literatura, sejamos simples, objetivos, e sempre focados no propósito de ser feliz. Busquemos trabalhos que identifiquem no sorriso e no abraço, evidências naturais de que nenhum sacrifício acontece em vão. Em Proposições, destaquemos apenas uma: confirmar que o amor é o principal meio de atingir a felicidade. Já em Material e Métodos, devemos usar instrumentos e questionários simples e sensíveis na identificação da prevalência do bem sobre o mal. Chegando a Resultados, podemos vibrar com a constatação da saúde vencendo a doença.

O capítulo Discussão pode ser suprimido uma vez que não haverá discordância frente à utilização do carinho, como antivírus do ódio; e da verdade como antídoto da mentira. Por fim, Conclusão confirma a nossa vocação para a felicidade, desde que sigamos amando ao próximo como a nós mesmos.

Finalizando, devo confessar haver escrito esse texto inspirado no convívio com meus alunos do curso de Odontologia da UFPB; especialmente com a querida turma de formandos 2010-1.

Não os menciono como forma de retribuir a honraria recebida em batizar a turma com o meu nome; mas sim pelo fato de ter aprendido com eles que posso, além de professor, também incorporar o meu alter-ego tio Lombardinho. Em dupla, fica bem mais fácil absorver as manifestações de amor, carinho, respeito e confiança sempre recebidas.

Também com eles voltei a respirar Fernando Pessoa quando profetizou: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Amo vocês! Sem esquecer, claro, de Alaíde e Rosa!

CD Ricardo Lombardi de Farias – tio Lombardinho

 

um tio e muitos sobrinhos - Odonto/UFPB 2010-1

 

 

25
maio
10

projeto ficha limpa e troca do tempo verbal

com o amigo prof. Felix

Olá gente!

É  com satisfação que apresento o professor Felix de Carvalho. O mesmo leciona na área do Direito e, como bom conhecedor do nosso idioma, tornou-se para mim, além de amigo, uma profícua fonte de consultas sobre como melhor trabalhar as palavras na formulação de textos. Dele, acabo de receber sua análise sobre o projeto ficha limpa, bem como o seu consentimento para exposição neste blog. Espero que gostem! 

O PROJETO FICHA LIMPA E A TROCA DO TEMPO VERBAL

Como é do conhecimento daqueles que acompanham os fatos políticos do país, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei Complementar n.º 168, mais conhecido como o “Projeto Ficha Limpa”, por unanimidade e com juras de amor ao povo brasileiro. Porém, usando da tradicional esperteza do mundo político, nossos senadores, com suas fichas impecáveis, trocaram o tempo verbal de um dos principais dispositivos do projeto. E, com isso, mais uma vez, afrontaram a vontade do povo que dizem representar.

Com efeito, o art. 1º, inciso I, alínea j, do projeto original, aprovado pela Câmara dos Deputados, dispunha da seguinte forma: “São inelegíveis, para qualquer cargo: “os que tenham sido condenados, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado…”. E o que fez o Senado? Acompanhando uma proposta do senador Francisco Dorneles, do Rio de Janeiro, trocou a expressão “tenham sido” por “forem”. A alteração não foi considerada pelos nossos ilustres representantes como uma emenda, mas como um simples e insignificante ajuste de ordem gramatical. Daí por que o projeto não retornou à Câmara dos Deputados, como determina a Constituição Federal (art. 65, parágrafo único).

Mas essa “pequenina alteração” (na ótica dos senadores) não se resumiu à esfera gramatical. Muito pelo contrário, no nosso entendimento, causou um grande estrago na essência do projeto. Senão, vejamos: A expressão “os que tenham sido” (pretérito perfeito composto) indica tempo passado. Exprime, portanto, uma ação plenamente realizada antes do momento em que falamos ou escrevemos (no caso em análise, antes da publicação da lei). Por sua vez, a expressão “forem” (futuro do subjuntivo) indica tempo no futuro. Exprime, portanto, uma ação a ser realizada a partir do momento em que falamos ou escrevemos (no caso em análise, a partir da publicação da lei). Além disso, configura-se como uma hipótese, um fato incerto.

E qual a repercussão que essa ingênua (para os senadores) troca do tempo verbal provocará na seara jurídica? Se partirmos de uma interpretação gramatical do texto da lei (e é isto que estamos fazendo), é muito grave. Duas, pelo menos, são as consequências: a) a lei a ser promulgada e publicada não terá eficácia nas eleições deste ano, na medida em que a alteração no tempo verbal provocará o efeito ex nunc ou proativo; b) com base na interpretação gramatical – e apenas nesta -, a troca do tempo verbal, num passe de mágica (leia-se de esperteza), “anistiou” todos os políticos que pretendam candidatar-se a algum cargo eletivo nas eleições deste ano, embora já condenados por algum tribunal do país.

Em síntese, a decisão do Senado Federal teve o condão de deixar as fichas dos políticos corruptos tão imaculadas quanto as vestais romanas. Foi assim que os senadores entenderam o significado da expressão “candidato ficha limpa” usada pelo eleitorado brasileiro em seu projeto de lei. Se o objetivo era limpar a ficha, a missão foi cumprida.

Alguns haverão de alegar que o ponto de vista aqui desenvolvido é estreito e que a Justiça Eleitoral saberá dar a interpretação adequada (genética, sistemática, teleológica) ao texto da lei. Outros acrescentarão que os operadores do direito irão captar o espírito da lei ou a mens legislatoris (a vontade do legislador), resgatando o desejo do eleitorado brasileiro que subscreveu o projeto de lei. Esperamos, sinceramente, que isto aconteça e que o arrazoado desenvolvido neste texto não tenha o menor fundamento, pois também queremos ver punidos os políticos delinquentes. Só o futuro dirá, já que o tempo verbal do projeto foi jogado para o futuro (uma distração do Senado).

Repetimos, ao final, que nossa análise limitou-se apenas aos campos da gramática e da semântica, áreas em que atuamos há muito tempo. Deixaremos a avaliação jurídica para os juristas. Entretanto, uma pergunta se impõe: Caso a Justiça Eleitoral pretenda, de fato, fazer uma interpretação extensiva do texto legal, resgatando a gênese do projeto, estaria em sintonia com a vontade do legislador? É preciso não perder de vista que a lei foi criada pelo Parlamento e não pelo povo.

Felix de Carvalho

Professor da Universidade Federal da Paraíba – UFPB

Professor da Escola Superior da Magistratura

21
maio
10

CUIDADO COM AS COXAS

CUIDADO COM AS COXAS

O Brasil é conhecido como país do futebol, da música, e de mulheres bonitas possuidoras de belos bumbuns (artificiais ou não). Isso lá fora! Internamente, e pelos próximos dias certamente essa última referência sofrerá uma guinada; tanto de gênero, quanto de localização anatômica: a preocupação nacional agora é com as coxas do Kaká, e do Luis Fabiano.

A torcida é gigantesca para que nossos dois consagrados heróis se recuperem dentro dos vinte e um dias que antecedem o início do torneio. Inclusive, bem maior do que aquela que vibrou com a aprovação do ”Ficha Limpa” – projeto que atende ao clamor popular de colocar mais Ética na política.

Coincidência ou não, desde o governo Itamar Franco as copas do mundo de futebol vem sendo realizadas nos mesmos anos onde se verificam as eleições para os mais importantes cargos que comandam os destinos do país. Ainda bem; porque o evento esportivo de certa maneira nos alivia da assiduidade de convivermos com uma avalanche de “se eleito(a) eu prometo”, bem como o turbilhão de escândalos nossos de cada dia.

Temos obrigação de fazer bonito na África do Sul! Tomara que o Dunga também pense assim. Afinal, ocupamos o primeiro lugar no ranking da FIFA, e seremos os próximos anfitriões do evento. Sobre isso, devemos ir correndo ter aulas com os irmãos africanos que deram lições ao mundo de como se deve trabalhar na estruturação de condições físicas e funcionais, ao mesmo tempo em que superavam múltiplos desafios – inclusive de ordem cultural e preconceituosa. Esse troféu de superação ninguém tira deles, garanto!

Por aqui, ainda estamos “nas coxas” – perdoem-me o trocadilho. Sabemos que fomos eleitos para sediar 2014, em parte por conta de um critério da FIFA de estabelecer rodízio entre os continentes – condição (felizmente) já excluída pelo seu alto risco. Outra preocupação reside no elevado custo financeiro. O orçamento da África do Sul está ao redor de US$ 1,5 bilhão; enquanto que a previsão da versão brasileira encontra-se, hoje, 120% superior aos gastos africanos (!?).

E a farra já começou! Enquanto a bola, na África, ainda não rolou; por aqui abnegados empresários se dedicam a elaborar planilhas de custos financeiros de dezenas de estádios. Causa-me espanto verificar que alguns orçamentos de reforma saem mais elevados que outros de construção. Melhor nem imaginarmos como estão sendo elaboradas as projeções de gastos com: segurança, hospedagem, transportes, e outros itens correlacionados ao tema.

Acho melhor voltar ao meu analista para controlar essa mania de me antecipar aos fatos. Tenho mais é que vestir a camisa amarela, e torcer para que as coxas e panturrilhas dos nossos heróis permitam-lhes apresentar ao mundo em 11/07/2010, o primeiro (e único) hexa-campeão de futebol.

Pensar assim é bem melhor. Até porque, logo em seguida à copa virão as eleições brasileiras e, seja quem for o eleito (ou eleita) certamente saberá conduzir um belo trabalho que nos possibilite a “vingança de ’50”; convertendo-nos em hepta-campeões! Segura essa, Maradona!

Por último: recomendo um belo filme para ilustrar o presente texto – O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006).

CD Ricardo Lombardi de Farias

19
maio
10

saudosismo e modernidade

SAUDOSISMO e MODERNIDADE

Vou continuar acreditando que as gerações nascidas nas décadas de ’50 / ‘60 ( dentro da amostra) foram imensamente agraciadas com a oportunidade de vivenciarem, mais que as outras, grandes avanços científicos e tecnológicos que impuseram marcantes transformações culturais e sociais. Parece que nos famosos anos dourados as forças do universo, todas juntas, combinaram suas ações para modificar o ritmo e o grau da sua entropia.

Talvez o início de todo esse ”boom” tenha acontecido com o surgimento da televisão (’50). Além de provocar grandes mudanças nos meios de comunicação, a telinha também fez surgir novos hábitos e palavras; como televizinho, por exemplo. O que vem a ser?! Fácil de explicar, pois fui um deles: na casa que possuía televisão, na hora da novela mexicana ou do programa “balança… mas não cai!” (humorístico de muito sucesso) TODA a rua invadia a residência que tivesse o aparelho ligado. Várias vezes, como televizinho assumido, assisti a programas pelo lado de fora da casa exibidora pendurado na janela, junto com outros moleques. Guardo boas lembranças!

Também sobre o tema, cabe explicar: vizinho era uma condição de sadia amizade determinada pela proximidade física de moradia e boa freqüência de convivência. Hoje, produto em extinção – pena!

Tenho consciência do risco assumido ao escrever sobre um tempo já finito, atribuindo ao mesmo uma condição de destacada relevância no processo evolutivo. Até meus filhos me dariam um atestado de caduquice (será?!) caso eu tentasse convencê-los da importância da válvula e do transistor, tendo eles nascido na era dos chips.

Óbvio que não é minha intenção medir forças com os incontestes avanços da modernidade que; fascinado, busco acompanhar. O que defendo é o fato das décadas de ’50 / ‘60 terem possibilitado “descobertas e transformações” que, a partir delas, o inimaginável deu lugar ao imaginável.

Também não faço essa defesa deixando de reconhecer a importância dos anos que antecederam àquelas duas décadas. Afinal, uma das obras literárias mais prestigiadas naquele período (e até hoje), foi publicada em 1932 pelo visionário Aldous Huxley, autor do consagrado Admirável Mundo Novo.

O que importa destacar é o necessário cuidado preventivo com a aceleração dos batimentos cardíacos de pessoas que – como eu –  ouviram  a copa de ’66 pelo rádio (no módulo de ondas curtas) e, horas após, já conhecendo os resultados,  viram  os jogos por meio do moderno vídeo-tape;  a de ’70 já pôde contar com transmissão  ao vivo e em cores; e agora na África do Sul teremos a oportunidade de acompanhar os jogos em tempo real com Transmissão Digital 3D/HD. É a glória, Senhor!

Espero que meus filhos entendam a importância das válvulas e transistores em suas vidas. Graças a eles, seus avós se conheceram enquanto dançavam boleros, ao som de long-plays, gravados em vinil, e executados em radiolas Hi-Fi. Claro que foi nesse “embalo” que nascemos nós; seus pais.

Feliz de quem, como eu, agora parado dentro de um carro em um trânsito sempre engarrafado, sente saudades do velho bonde que, mesmo com seus trinta quilômetros por hora, jamais deixou de nos conduzir ao sonho de um admirável mundo novo. E melhor, espero!

CD Ricardo Lombardi de Farias