Arquivo para março \21\America/Recife 2020

21
mar
20

passado e futuro é com ela, dona Gegê

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Falei há pouco com a Dona Gertrudes, 92 anos. Como a fase é de quarentena, o papo foi no #hitechmode… por chamada de vídeo!!

Apesar da idade, ela sempre foi aberta para as novas tecnologias de comunicação.

“-Meu filho, não tem coisa melhor do que ter na mão um aparelho conectado com o mundo!”. Está certíssima ela.

Não bastasse isso, minha amiga idosa também fuma [moderadamente] o seu cachimbinho de fumo de rolo, e gosta de tomar um pequeno trago antes do almoço… “-agora descobri a cachaça do nosso Brejo, pois o vinho do Porto está salgado para o bolso, ó pá!”… arremata Dona Gegê entre risos.

Dona Gertrudes é amiga da família desde os tempos da Rua Nova, na virada dos anos 50. Tempo de pouquíssimos carros nas ruas, e de carroças que vendiam mel de engenho… barato e rico em ferro que ajudava no crescimento, meu e de todo o coletivo pré-púbere da redondeza.

Pela tarde, passava o cuscuz Bondade. À sua chegada, a pelada no calçadão do Mosteiro de São Bento era interrompida para que saboreássemos a iguaria, também rica em ferro. Meu Deus… parecia que tudo era rico em ferro naquele tempo.

Eu comprava o meu cuscuz com a gorjeta que recebia da Dona Gertrudes, que, todo dia, me pedia para levar os seus palpites no jogo de bicho, cuja banca de anotações ficava próxima à Catedral. Era uma rua de muita fé. Em Deus, claro. E nos bichos também.

Voltemos para a vídeo-chamada do início do texto.

“-Que bom que você ligou, meu filho! Estou enclausurada e sem poder receber visitas por conta da peste, e de pertencer ao grupo de risco”.

“-Pois é, Dona Gegê… apesar da senhora ter me visto nascer, eu também estou nessa mesma situação por conta do COVID-19”.

 “-Falando agora com você, fiquei com uma vontade danada que você levasse a minha aposta no Pavão… por conta do ‘19’ dessa coisa ruim. Mas já se foi esse tempo…”.

 “-Que maravilha!! Levaria com maior prazer, Dona Gegê! Pena que tudo mudou… nem mesmo sei do amanhã… se estaremos por aqui pra receber o prêmio!”

“-Claro que sim, meu filho! Tudo que está acontecendo já era previsto. O planeta vem sofrendo há bastante tempo, com o ser humano deixando de ser criatura e se vendo como Criador… cortando árvores, queimando florestas, desviando rios, envenenando plantações, etc… O lado positivo de uma pandemia como esta é trazido pelo MEDO que nos faz refletir sobre a nossa exata dimensão no planeta, sobre o repensar em Deus, sobre o SER valer mais que o TER. Fique tranquilo… tudo passará e continuaremos na sobrevida”.

Agradeci a Dona Gertrudes e me despedi. Fui tomado pela emoção de ouvir esta lição por uma senhora de quase um século de vida e lucidez. Vou ver se consigo, durante a quarentena, jogar no 19.

Melhor não… já fui premiado com esse tesouro chamado Dona Gertrudes.

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*Nota: o nome Gertrudes, é fictício… somente o nome.

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19
mar
20

março 2020: mês da clausura geral

mule-gas-mask-650x427Pelo visto, a coisa vai longe!

Refiro-me à quarentena doméstica de sabe-se lá quantos dias. Isso, sem falar no upgrade de pertencer – compulsória e cronologicamente – ao universo de risco maior; idoso!

Bem que eu poderia, neste ponto, sacar o Estatuto do Idoso, e exigir mais complacência e melhor proteção… para mim, e para toda a minha coorte. Imensa!

Melhor abdicar da ideia, pois, em nome da saúde pública e coletiva, viriam argumentos que facilmente me venceriam de capote.

Quanto ao confinamento, este também não dá garantias de que eu deixe de contaminar um pequeno universo de amigos, quiçá alguns leitores.

A explicação é trazida pelo fato de – quase diariamente – e na clausura, eu ficar enviando textos sem muita preocupação com a sintaxe… buscando apenas brincar com as palavras dando vazão às ideias que permitam reflexões, se possível com mais sorrisos que lágrimas.

A culpa é toda do coronavírus… e dos veículos midiáticos, que, no afã de garantir plateia, ou dar o furo (mais atual), adulteram as verdades dos fatos e, rotineiramente, esquecem a Ética do bom jornalismo.

Enquanto perdemos tempo nos fakes nossos de cada dia, o vírus segue atacando.

Enquanto perdemos tempo em busca de um panelômetro, os supermercados vão ficando sem produtos para colocarmos nas panelas amassadas.

Enquanto as máscaras e álcool em gel somem e/ou atingem preços estratosféricos, perdemos horas debatendo sobre como usar o que não existe.

Enquanto o mundo inteiro busca a convergência de ações e esforços, tem deputado brasileiro achincalhando outros povos de forma irresponsável e criminosa.

FECHA TUDO e FICA EM CASA são comandos fortes… normalmente emitidos em época de guerra.

Se já está declarada a guerra contra o vírus, parece que ele está ganhando; pois, até agora, nenhum plano estratégico de combate nos foi passado de forma convincente.

Por enquanto, apenas as estatísticas da tragédia e a certeza do despreparo da linha de frente… se alguém souber em qual palanque ela se encontra neste momento.

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17
mar
20

amor de avô em tempos de cólera

Faz tempo que passei dos 60’.size_960_16_9_avo-neto1-678x381

Felizmente, bicho!… Dirão os jurássicos sobreviventes da minha geração.

Essa tribo maravilhosa, nascida no pós-guerra, viu chegar o rádio transistor, o controle remoto, o contraceptivo oral, o cartão de crédito, a meia de náilon, o biquíni, o jeans, e até o estilo beatnik… precursor do movimento hippie. E haja rock and roll! E haja peace and love!

Natural, portanto, que muitos dos velhinhos de hoje sintam-se ’em dia’ com essa atual modernidade e tentem acompanhar a louca velocidade dos avanços tecnológicos deste admirável mundo novo.

Tentem, apenas!

Teimosamente, e por influências de filhos e netos, seguimos dedilhando os nossos Smartphones e nos encantando quando chamamos o Uber que nos leva, via Waze, por caminhos nunca d´antes percorridos.

Igual espanto é sobre a didática empregada pelos jovens nas ‘aulas’ sobre como usar os equipamentos: tudo é transmitido em velocidade estonteante, vocabulário específico, e sem a utilização de nenhum livreto do tipo “manual de instruções”.

“-Vô, vai teclando que no fim dá tudo certo!”.

“-Mas… e se não der?!”

“-Vai no Google, ué!?”

Sorte que sempre dá certo!

Pelo visto, tudo indica que teclar ficou mais preciso que viver.

Infelizmente, com todo este avanço, o mundo vem ficando muito sem graça. Adianto que não são palavras senis… de quem está mais próximo da porta de saída. Sou otimista, sou brasileiro, sou avô!

Quero um mundo com falésias preservadas e muito melhor para os meus netos. Mas parece que não é este o panorama que se descortina.

A onda do coronavírus é assustadora… tanto quanto a sua onda preventiva. Quem tem mais de 60’, ou tem os olhinhos puxados, atualmente é visto como alguém que exala enxofre. E se espirrar ou tossir, melhor correr… pois pode ser linchado por agentes da saúde.

Na falta de leitos em hospitais, alardeia-se para que ninguém saia de casa… por hora, nem para orar!

Muito triste verificar que estados como São Paulo vão fechar escolas e creches públicas dentro de poucos dias. O intervalo entre a pretensão e ação, é para que as mães se organizem com quem vão deixar as suas crianças, mas faz um alerta: não poderão ser deixadas com os avós!

Essa notícia foi lida para mim pelo meu neto, em seu smartphone. Com os olhos umedecidos, respondi-lhe: “-Acho melhor consultar o Google, né não?!!”

Penso que é hora de refazer meus planos de chegar aos 80’.

O último a sair, favor apagar a luz.