Guardo simpatia gratuita pela ‘riqueza social’ de cidades portuárias.
Acredito que a natural atração se deva ao fato do mar ter sido um parceiro sempre presente… do meu nascimento até os dias atuais.
Ainda bem, pois, para viver, navegar se faz preciso.
Estou convicto de que tamanha afetividade não foi trazida apenas pelas águas dos oceanos.
Veio também navegando pelas leituras do amado Jorge Amado; do Ernest Hemingway; do Victor Hugo; do Amyr Klink; pelas músicas do Caymmi; pelo cais do Milton; pelas coxas da Ana de Amsterdam, do Buarque; e por muitos outros ventos soprados…
Nesse contexto, e pela proximidade geográfica, é natural que eu aporte em Cabedelo. Onde me encontro neste carnaval, 2020.
Fui apresentado às riquezas (e folclore) de Cabedelo pelo saudoso amigo-irmão @robertotanouss. Nada melhor, pois o querido parceiro era filho de Seu Tom, cabedelense da gema e grande referência na cidade.
Fácil entender que, em plena adolescência e vivenciando os belos veraneios de Camboinha, corremos o risco de nos transformar, juntamente com outros amigos*, em personagens jorgeamadianos.
E tome conhecer a noite de Cabedelo! E tome Lloyd Bar, e tome Sumé, e tome Palhoça Verde, e tome encontros e desencontros com figuras incríveis… como Báu, e o seu pandeiro.
Báu, à época, perambulava pela noite. Chegava sempre batucando o seu instrumento. Sentava junto e ficava… principalmente se tinha bebida à mesa. Sempre tinha.
Tudo isso, hoje, está nas gavetas da memória.
Recentemente, tive o prazer de reabrir uma delas, quando, fazendo compras no Mercado Municipal de Cabedelo, enquanto examinava os peixes, ouvi as batidas de um pandeiro chegar perto de mim, com uma calejada voz: “♫ nunca vi fazer tanta exigência…♪”. Era Báu, claro!
Olho no olho, ficou a impressão de que ele havia também me reconhecido.
Graças à minha assiduidade no Mercado de Peixes, esses sonoros encontros com Báu e seu pandeiro se tornaram frequentes.
Ele encosta e só sai de perto quando recebe algum trocado. Também auxilia na escolha do peixe. Com ele aprendi a jamais comprar o que ele indica. Tenho acertado.
O papo com ele também é bom!
– Báu, tem visto Tom?! – Nunca mais, rapaz. Depois que ele se aposentou… sumiu!
– Báu, lembra de Seu Zequinha Peregrino, Dona Alba, Roberto Lyra, Celinho?! – Todos morreram! Estão lá no céu… tocando, cantando, sorrindo e nos esperando!
– Tens visto @valeriaperegrino?! – Essa eu vejo de vez em quando. Está só curtindo as netas lindas!!
É isso aí, velho Báu!
Ontem, deixei Lala esperando os camarões serem descascados e fui cuidar de outras compras. Ao regressar, vejo Báu tocando e cantando para a minha esposa: “♫ de noite, eu rondo a cidade a lhe procurar …♪”.
Oxente, velho Báu!!
* Para: Juca, Fábio Peixe, Toinho… e muitos outros capitães de areia.


José Mário Espínola: “Ricardo, por coincidência, conheci Báu no dia seguinte à sua crônica. Uma figura!”