- Nota prévia: o FIM DE SEMANA CARIOCA foi escrito em setembro de 2009, inspirado em uma viagem (aventura?!) de dois casais amigos ao RJ. Recentemente, em encontro com os protagonistas e outros amigos, voltamos a dar risadas com a lembrança do texto; ficando eu com a incumbência de localiza-lo e enviar para àqueles que ainda não tinham me dado o prazer da leitura. Ao busca-lo, foi então que constatei a não postagem do mesmo no blog. O faço agora. Na esperança de promover mais risadas!
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FIM DE SEMANA CARIOCA
O grupo de amigos que se reunia semanalmente no restaurante “Camarão Total” estava vivendo momentos de grande preocupação, com a proximidade da viagem do Barata e do Carlão ao Rio de Janeiro. Os dois, acompanhados de suas respectivas esposas, vinham planejando o passeio há quatro meses.
Aos integrantes da confraria, não pairava dúvida quanto ao prazer de se desfrutar um final de semana na cidade maravilhosa. Entretanto, existia um forte e consensual motivo gerador de apreensão: a desigualdade entre os propósitos da viagem por parte dos seus principais personagens. O Carlão, proprietário do Camarão Total, incorporou a ideia como um passeio terapêutico. Estava finalizando um período de absoluta abstinência etílica, incluindo uma rigorosa dieta alimentar com fins de equilibrar seu peso e suas taxas de colesterol e triglicerídeos. Gostava do dia e de acordar bem cedo. Sua ideia era caminhar bastante e visitar os tradicionais pontos turísticos, principalmente o Maracanã, o Pão de Açúcar, e a igreja da Penha.
O Barata, por sua vez, representava a antítese do Carlão. Gostava da noite. Possuía mesa cativa no Camarão Total, justificando ser ali o seu escritório central para fins de: juntar amigos, atualizar as conversas, dar risadas, eliminar o stress, comer e principalmente, beber. Os mais chegados consideravam-no representante vivo do deus Baco. Sua descomunal condição hepática era merecedora de estudos, segundo o parecer científico de amigos médicos. Bastante eclético, demonstrava igual prazer ao rum, ao whisky, e ao vinho. Qualquer ameaça de ressaca, além de infrutífera, era prontamente dizimada com uma cerveja bem gelada. Sua unidade de volume não era mais a ‘dose’, mas sim o ‘litro’. Fazia questão de proclamar aos amigos sua adoração pelo Chophytol, fitoterápico à base de alcachofra que, segundo ele, era o responsável direto pela sua aptidão e resistência etílica. Seus amigos mais próximos entendiam que o seu incomensurável prazer por uma boa mesa e um bom copo, justificava, em parte, o seu elevado grau de transpirar, de urinar, e de expelir gases. O moço era mesmo um fenômeno nos três elementos da natureza: sólido, líquido e gasoso!
A condição de conhecedor e eterno apaixonado pelo Rio de Janeiro, naturalmente concedeu ao Barata a incumbência de organizar a viagem. Sempre com entusiasmo anotava em uma agenda todos os detalhes da mesma. Somente ele conseguia decifrar aquela infinidade de rabiscos que tinham por objetivo único aproveitar cada minuto do período compreendido entre a quinta-feira da partida e o domingo do regresso. Cada anotação feita gerava, no Carlão, um arregalar de olhos e levada das duas mãos à cabeça. E também ao bolso.
Já no aeroporto e após o check-in, o Barata observou que o Carlão não largava mão de uma pasta, estilo 007. – Ô amigo, pelo visto essa é a mala do dinheiro, acertei? – Que nada, Barata! Foi presenteada pelos nossos amigos. Preocupados com a nossa viagem, fizeram uma reunião e impuseram-me a condição de somente viajar prometendo jamais desgrudar-me desta mala. Abrindo a valise, foi possível ver: seis vidros de Chophytol, quatro de Luftal, inúmeros tubos de Epocler, cartelas de Engov, um pouco de Lexotan, Plasil, Sonrisal, pastilhas de vitamina C, Aspirina, Band-Aid, colírio, xarope, dois frascos de Água Rabelo, duas bisnagas de Hipoglós, e muitos outros fármacos. O grupo ficou emocionado com tamanha (e preventiva) prova de amizade.
Chegaram ao hotel Rio Othon, em Copacabana, por volta das sete horas da noite. O Carlão, já em seu apartamento, havia solicitado ao serviço de quarto um copo de leite, pois queria – inaugurando a farmácia ambulante – tomar um remédio contra a enxaqueca adquirida durante o voo, e descansar um pouco. Toca a campainha. O Carlão abre a porta: – Como é que ééé, moçada! Estamos atrasados para a Estudantina Musical. Já calcei meu pisante de duas cores para dançar ‘aquela’ gafieira. O Barata já havia tomado banho, se perfumado, vestido seu terno de linho bege, gravata e lenço vermelhos, chapéu de palha, e segurando sua primeira dose de whisky. De fato, estava um autêntico malandro carioca frequentador da Lapa dos anos cinquenta. À sua frente, estava o Carlão: pálido, de meias e chinelo, vestindo ceroula, segurando um analgésico, e frustrado, pois pensava que era a camareira trazendo seu copo de leite.
Na Estudantina Musical a noite foi muito boa. A única ressalva ficou por conta da dificuldade na entrada, quando a segurança do local, por mais de uma vez, quis saber do Carlão (ainda com enxaqueca) sobre o conteúdo e procedência dos produtos de sua maleta. Enquanto ele explicava, o Barata e sua esposa rodopiavam no salão dando um show de gafieira, forró… e flatulência!
Após o café da manhã, o grupo foi caminhar na orla de Copacabana. Antes de completarem os primeiros dois quilômetros, o Barata, sempre bastante suado, gritou: – Carlããooo! Eu não acredito no que estou vendo! É o boteco Belmonte, e fica bem perto do nosso hotel. Foram os primeiros fregueses da manhã e, após duas horas de permanência, consumiram: trinta e dois chopps, doze coxinhas, quinze empadas, e dez pastéis. Óbvio que 70% dos pedidos foram feitos (e consumidos) pelo Barata – para novo espanto do Carlão, quando soube que a ‘rede Belmonte’ praticamente possuía um boteco em cada esquina do Rio de Janeiro.
A tarde foi proveitosa para todos. Principalmente para o Carlão que realizou seu desejo de conhecer o Pão de Açúcar. Lá do alto, todo o grupo pôde testemunhar que o Rio de Janeiro continua lindo! E saboroso, pois o Barata não parava de tomar chopp com fritas. Segundo ele, estava se concentrando para a noite que prometia ser maravilhosa.
Chegaram ao Bar do Tom (Plataforma), às oito horas da noite e foram os primeiros a ocuparem a mesa previamente reservada para doze pessoas. Pediram um litro de whisky ‘fitado’ e outros acessórios que possibilitassem ao grupo beber e comer apreciando o show/tributo à Bossa-Nova. Quando Pery Ribeiro e Billy Blanc subiram ao palco, a fita da garrafa já sinalizava que 85% do Cavalo Branco havia partido à galope. Na quarta música – samba do avião – o segundo litro foi inaugurado pelo Barata. Ele estava plenamente feliz. Pudera: boa mesa com amigos, música de primeira qualidade e, suprema alegria, o barulho do local e a climatização do ambiente lhe permitiam absoluta liberdade na liberação de gases. Foi uma noite memorável.
No sábado pela manhã, o Barata acordou com o ótimo humor de sempre. Seu café da manhã foi surpreendentemente light, para surpresa de todos. Ao perceber que haviam notado, tratou logo de esclarecer o motivo: sua flatulência estava gigantesca. O Carlão, prestimoso, foi logo abrindo sua inseparável valise lhe oferecendo uma dose dupla de Luftal. – Só se for ‘on the rocks’ e em copo longo. Respondeu sorrindo o Barata, para espanto de todos.
Conforme combinado, deixaram o hotel rumo à igreja da Penha. O Carlão era devoto da santa e sempre alimentou a esperança de, voltando ao Rio, visitar o santuário. Ao descerem do táxi, o grupo contemplou a existência dos trezentos e oitenta e dois degraus que permitiam o acesso à capela. – Deve ter um teleférico! Disse o Barata. – De jeito nenhum! Minha promessa foi subir pela escadaria. Tudo pela fé! – respondeu de maneira incisiva o devoto Carlão. – Tudo pela amizade! Emendou o Barata, iniciando a hercúlea subida. O calor estava infernal, ou melhor, celestial, considerando o propósito da empreitada, e a vizinhança.
No trajeto de subida, o Barata, esbaforido, levava nítida desvantagem. Não era pra menos. Possuía total aversão ao esforço físico, denunciada exemplarmente por sua massa corpórea de cento e dez quilos, distribuídos em um metro e noventa de altura. De vez em quando dava uma parada, passava um lenço no rosto, e aproveitava a vista panorâmica para ver, discretamente, se localizava alguma filial do boteco Belmonte!!
Quando atingiram o topo da colina, estranharam a ausência de fiéis, assim como a igreja com as portas fechadas. Foi quando iniciou um grande tiroteio. Bala pra tudo que era lado. Logo entenderam tratar-se de uma batalha entre traficantes do Complexo do Alemão, contra seus concorrentes do Complexo da Maré, que disputavam o ponto comercial para venda de drogas. Os quatro amigos se abaixaram e partiram em frenética corrida escadaria abaixo. O Barata, ajudado pela turbina adicional da sua flatulência, passou voando pelo grupo de uma maneira que certamente faria inveja ao jamaicano Usain Bolt. – Sai da frente que estou me cagannndoo! Gritava o foguete humano.
Já no hotel, e recuperados do grande susto, o Carlão comunicou que, no desespero, largou a maleta 007 no adro da igreja. Todos ‘fuzilaram’ o companheiro com olhares que o fizeram cancelar a pretensão de voltar ao local para recuperar a farmácia portátil.
No último dia, foram bater pernas (ainda trêmulas) em Ipanema. Circularam pela feira hippie da Praça General Osório e, ali perto, na confeitaria Chaika, compraram cento e vinte empadinhas de palmito, feitas com ‘massa podre’, atendendo encomenda de um dos amigos da confraria.
Finalmente, no aeroporto, enquanto aguardavam a chamada do voo, lanchavam e davam risadas da proveitosa viagem. Perto do grupo, um aparelho de TV transmitia uma matéria do Fantástico sobre o tiroteio da Penha. O repórter dizia que a polícia havia prendido traficantes das duas falanges, mas que o líder havia fugido e deixado uma valise com vários produtos que haviam sido encaminhados à perícia técnica. Acredita-se na possibilidade de uma conexão nordestina. A reportagem terminava com uma tomada de imagem em zoom na pasta 007. Os quatro amigos se levantaram, saíram assoviando, cada um para um lado diferente, como se nunca tivessem se conhecido.
Já estão em casa, descansando. Ainda não deram notícias aos seus amigos da confraria do Camarão Total. Todo o grupo está programando uma grande confraternização pela chegada dos quatro queridos companheiros.
- Dinho, Marisa, Carlos Alberto e Mércia: dedico esta crônica a vocês. Foi um prazer “viajarmos” juntos.
CD Ricardo Lombardi
- Bônus: Samba do Avião – Tom Jobim / https://www.youtube.com/watch?v=PHXYKtCugL4
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