- Nota prévia: encontrei-me, depois de décadas, com o mestre e acadêmico Otávio Sitônio, na missa de 7° dia de Jóia (Giovanni Feitosa). Todo de branco, inclusive barba, sentado, não o reconheci. Mas, bastou ouvir o seu timbre de voz que imediatamente as lamparinas do posto 6 iluminaram a memória.
- O texto abaixo dele recebi por e-mail, antes de ser publicado em sua coluna n’A UNIÃO. Tal e qual o recebi, o publico em Coisasdolombardi – inclusive sem o devido cuidado de pedir a sua autorização. Acho que não haverá problemas, pois se trata de assuntos pertinentes à geração ‘Posto 6’, e escrito por um dos seus ilustres sobrevivente. E de conteúdo joia, bom lembrar.
- Em tempo: Posto 6 era o local na orla de Tambaú, onde ficava o primeiro posto de salva-vidas, à esquerda da Epitácio Pessoa. Um pouco depois de Gilvan Cabeleireiros. Foi lá onde aprendemos que a vida é uma grande onda/
DE VOLTA AO POSTO SEIS
Otávio Sitônio Pinto
“Eu escapei fedendo das cavalgadas de motocicletas; motos são mortais”
Encontro o dentista Ricardo Lombardi na missa de Giovani Sorrentino Feitosa, o popular Joia. Fazia tempo que não via Ricardo, companheiro do pedaço de areia do Posto Seis. Ainda bem que nos vemos pouco: as missas de sétimo dia devem ter lugar bem longe uma das outras. Ricardo é um sobrevivente do Posto Seis: pegou uma carona de moto e escapou por pouco. Eu escapei fedendo das cavalgadas de motocicletas. Motos são mortais.
Ricardo disse que é sobrevivente também de uma cirurgia que fez, há cinco anos. E eu de quatro “stents” que botei, digo, o médico botou no meu coração: o doutor Helman Martins; na primeira vez, assistido pelo doutor Queiroga. “Stent” é a molinha que reabre a artéria cardíaca obstruída e fica lá até o revascularizado morrer. Meus “stents” vão completar 20 anos. Esse engenho foi copiado da mola que impede o mangote do radiador de fechar na dobra. Se você ainda não viu, olhe que verá aquela mola lá dentro, no cotovelo do mangote, evitando que ele feche.
“Você teve um enfarte” – disse o doutor Queiroga em pleno procedimento do cateterismo. Mas eu decidi viver até hoje. Posso surpreender os amigos e os leitores com uma ausência súbita, mas posso surpreender também os inimigos com uma longa vida – feito aqueles leites sem enzimas, pasteurizados, que se encontram nas prateleiras das grandes bodegas. Aqueles leites são submetidos a medonho choque térmico, fervidos e jogados numa câmara frigorífica para matar todos os micro-organismos. Assim mortos, têm longa vida.
Na igreja, no banco em frente, os irmãos Dinho e Duda Aranha. Recordamos o tempo ensolarado, o tempo claro do Posto Seis, no pedaço de areia assinalado pelo posto salva-vidas da beira-mar de Tambaú, a poucos metros do monumento a Tamandaré, no rumo norte. Olho o santinho da missa de Joia e vejo que sou oito anos mais velho que ele. Devo dizer “que eles”, os jovens com quem eu compartilhava a praia há 42 anos. Essa defasagem se dava ao fato de eu namorar uma garota do pedaço, hoje provavelmente madame Marilza.
Joia nasceu a 21 de janeiro e se encantou a 27 de fevereiro, como na estatística que diz que a maioria das pessoas morre perto do seu aniversário, antes ou depois. Pode conferir nas lápides dos túmulos. Um dos Aranhas comentou: “Joia e Xexéu tiveram morte semelhante”. Xexéu foi outro passageiro do Posto Seis. Eles foram encontrados dias depois do óbito, tombados dentro das casas em que viviam e morreram sós, enfartados. Ambos sofriam do coração e de solidão. Essas duas patologias são fatais, se somadas.
“Solitários do mundo todo, uni-vos”. Marx deveria ter conclamado os solitários à união; eles são mais disponíveis que os proletários, estes de poucas posses e grande prole. Os solitários já viveram muito, podem arriscar suas vidas em gestos temerários. Os proletários têm a prole para cuidar, com a mágica de um salário mínimo carcomido pela mais valia. Os jovens não deviam ser convocados para as guerras. Eles não têm culpa. Os velhos, mais ainda os solitários, é que deviam ser mandados para as trincheiras de Verdun. Os meninos do Posto Seis fiquem onde estão. Os sobreviventes, como eu, Ricardo Lombardi, os Aranhas, é que temos de ir para a frente leste, ou para a segunda frente a fim de libertar Bayeux.
Vejo os irmãos de Joia no proscênio do altar após a missa. Momento difícil esse dos cumprimentos. De certa forma, aquece as almas. Mesmo com lágrimas o momento da partilha do luto vale a pena. Meus cabelos ficaram mais brancos que os dos irmãos Feitosa. Jefferson me diz que seus joelhos não lhe deixam andar; iguais aos meus, que não me suportam em pé nem nos momentos mágicos da missa. O padre deu-nos a bênção e recomendou que fôssemos em paz, com Deus Nosso Senhor. Lembrei-me do bêbado que pisou em falso no batente da igreja: “Se quiser vir comigo, venha, mas sem empurrar!”
Eu queria que o deus dos bêbados me empurrasse de volta ao Posto Seis.
Ainda bem que você existe Ricardo,transcrever o texto foi uma ótima ideia,Dinho estava louco para lê-lo.Obrigada….bjo!!!