Desde que o gênero Homo deixou as cavernas, vem sendo aprimorado o conceito de que toda sociedade somente respira aquilo que ela cultiva sob a forma de valores culturais, éticos e morais. Até hoje é assim; não importando a opção político-ideológica da aldeia onde se vive, ou tenta-se viver.
Nossa história está repleta de exemplos que confirmam como somos imbatíveis quando, em nome de uma boa causa, unimos a sabedoria do deus Cronos, com a força do “yes, we can!” . Somos capazes até de mudarmos conceitos éticos, como visto há 126 anos, onde deixou de ser “normal” a comercialização e o açoite de escravos – em praça pública e à luz do dia. Credo!!
Infelizmente, este ritmo de avanços e conquistas é intermitente – apesar de estarmos no século XXI de um (quase) admirável mundo novo; de contarmos com amplos conhecimentos científicos; de termos às mãos fantásticos recursos de máquinas e redes de comunicação.
Toda vez que o momento é de retrocesso, só resta uma explicação: perdemos o foco!
E perdemos feio, quando vemos que o tronco voltou à praça pública com um ser vivo nu e acorrentado, sendo fotografado pelos smartphones de quem trafega e não se abate mais com nenhuma cena de barbárie; que vira capa de revista, fazendo reviver a semelhança estética das obras de Debret.
Na reportagem de capa, debate-se sobre o mérito de se adotar (ou não) uma ‘força tarefa de justiceiros’ que protejam o quarteirão contra tudo e todos que sejam considerados nocivos ao ambiente. Os adeptos da ideia alegam que a mesma se faz necessária pela ‘incapacidade do aparato policial’. Cabe a pergunta: não seria o caso de trazermos policiais de Cuba?! [risos]
Ainda bem que o desenhista Debret, não teve o mesmo fim trágico do seu colega Santiago Andrade. Adianto que não estou comparando as obras; seria profano talvez. Apenas estabeleço uma equivalência entre os ofícios de ambos: documentar os acontecimentos sociais em praças públicas – não obstante os dois séculos e as duas realidades que os separavam.
Outra prova da ‘perda de foco’ é vista nas redes sociais. Basta que a mídia escancare os escândalos nossos de cada dia – uma morte por bala perdida; um sequestro; um linchamento em praça pública; uma bomba estourando; um desvio de remédios da rede pública de saúde; uma obra atrasada e superfaturada; etc… – para que os analistas das redes sociais passem a comentar NÃO O FATO, mas a maneira como o mesmo foi abordado com o intuito claro (ou não) de desestabilizar o establishment.
Este embalo das redes vem sempre recheado com a troca ridícula e interminável de provocações entre dois grupos. De um lado, os defensores do sistema. Do outro, os que acham que o mesmo já entrou em colapso. Qualquer coisa – dita ou escrita – é superdimensionada (e assim compartilhada) de acordo com o interesse de quem o faz.
Como possuo boas amizades dos dois lados, faço uma sugestão: será que não podemos simplesmente aplaudir o que vem dando certo e repudiar o que está errado, independente da origem?! A perda do foco me faz pensar que a resposta é NÃO!
Paciência! Começo a pensar que é uma boa hora para deixar o Face!
CD Ricardo Lombardi

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