Arquivo para fevereiro \21\America/Recife 2014

21
fev
14

padre zé: sempre

ONTEM///do carmo
quando pré-adolescente, nas cercanias da Rua Nova, tive o prazer de conhecer algumas figuras que ficaram indelevelmente marcadas como ‘pessoas iluminadas’. Uma delas, claro, foi o padre José Coutinho. Ou simplesmente ‘Padizé’; o padre dos pobres, desabrigados e desassistidos.

Ainda vive na memória, uma visita feita aos porões do anexo à Igreja de Santa Teresa de Jesus da Ordem Terceira do Carmo. O local era bem protegido [piso e paredes] por pedras: úmidas e grandes. Uma escadaria de madeira e a pouca luz do ambiente, perfaziam o cenário lúgubre ideal para atrair a curiosidade da molecada que habitava o centro histórico. Lá dentro, distribuídos em toscas redes, colchões de palha, camas de lona, dezenas de pessoas carentes recebiam atenção e comida. Sim, o cenário lembrava filmes bíblicos, como o épico Ben-Hur como exemplo.

HOJE///
esta semana fiz uma visita a uma pessoa minha internada no Hospital Padre Zé. Enquanto me dirigia ao leito e enfermaria indicados, veio comigo, de forma muito viva, toda a lembrança histórica acima descrita. Era como se, a cada passo, eu voltasse a percorrer corredores em silêncio. Os olhares dos desassistidos eram os mesmos. A fome, maior.

A emoção veio junto, como que me cutucando e dizendo:  “ei, cidadão, por onde você andou esse tempo todo?!”. De fato, a visita ao local provoca em cada um, amargo sabor de conivência com o débito social. Também estimula em cada um, uma revolta com o eterno descaso com a saúde dos menos assistidos. Com a roubalheira de dinheiro público. Com a impunidade…

Não, não é “bolsa pra isso ou aquilo” que esses irmãos necessitam; mas sim dignidade e calor humano.

AMANHÃ///
em 2012, foi aberto pela Arquidiocese da Paraíba, o processo de beatificação e canonização do Padizé Coutinho. Com certeza, o papa Chico vai gostar. Nós também. Vamos correr com isso, não é pessoal?!

CD Ricardo Lombardi

Padre José Coutinho (1897 – 1973)

Padre José Coutinho (1897 – 1973)

12
fev
14

sem foco

SEM FOCOdebret

Desde que o gênero Homo deixou as cavernas, vem sendo aprimorado o conceito de que toda sociedade somente respira aquilo que ela cultiva sob a forma de valores culturais, éticos e morais. Até hoje é assim; não importando a opção político-ideológica da aldeia onde se vive, ou tenta-se viver.

Nossa história está repleta de exemplos que confirmam como somos imbatíveis quando, em nome de uma boa causa, unimos a sabedoria do deus Cronos, com a força do yes, we can! . Somos capazes até de mudarmos conceitos éticos, como visto há 126 anos, onde deixou de ser normal a comercialização e o açoite de escravos – em praça pública e à luz do dia. Credo!!

Infelizmente, este ritmo de avanços e conquistas é intermitente – apesar de estarmos no século XXI de um (quase) admirável mundo novo; de contarmos com amplos conhecimentos científicos; de termos às mãos fantásticos recursos de máquinas e redes de comunicação.

Toda vez que o momento é de retrocesso, só resta uma explicação: perdemos o foco!

E perdemos feio, quando vemos que o tronco voltou à praça pública com um ser vivo nu e acorrentado, sendo fotografado pelos smartphones de quem trafega e não se abate mais com nenhuma cena de barbárie; que vira capa de revista, fazendo reviver a semelhança estética das obras de Debret.

Na reportagem de capa, debate-se sobre o mérito de se adotar (ou não) uma força tarefa de justiceiros que protejam o quarteirão contra tudo e todos que sejam considerados nocivos ao ambiente. Os adeptos da ideia alegam que a mesma se faz necessária pela incapacidade do aparato policial. Cabe a pergunta: não seria o caso de trazermos policiais de Cuba?! [risos]

Ainda bem que o desenhista Debret, não teve o mesmo fim trágico do seu colega Santiago Andrade. Adianto que não estou comparando as obras; seria profano talvez. Apenas estabeleço uma equivalência entre os ofícios de ambos: documentar os acontecimentos sociais em praças públicas – não obstante os dois séculos e as duas realidades que os separavam.

Outra prova da perda de foco é vista nas redes sociais. Basta que a mídia escancare os escândalos nossos de cada dia – uma morte por bala perdida; um sequestro; um linchamento em praça pública; uma bomba estourando; um desvio de remédios da rede pública de saúde; uma obra atrasada e superfaturada; etc… – para que os analistas das redes sociais passem a comentar NÃO O FATO, mas a maneira como o mesmo foi abordado com o intuito claro (ou não) de desestabilizar o establishment.

Este embalo das redes vem sempre recheado com a troca ridícula e interminável de provocações entre dois grupos. De um lado, os defensores do sistema. Do outro, os que acham que o mesmo já entrou em colapso. Qualquer coisa – dita ou escrita – é superdimensionada (e assim compartilhada) de acordo com o interesse de quem o faz.

Como possuo boas amizades dos dois lados, faço uma sugestão: será que não podemos simplesmente aplaudir o que vem dando certo e repudiar o que está errado, independente da origem?! A perda do foco me faz pensar que a resposta é NÃO!

Paciência! Começo a pensar que é uma boa hora para deixar o Face!

CD Ricardo Lombardi