Arquivo para abril \06\America/Recife 2013

06
abr
13

coisas do sopro da idade

COISAS DO SOPRO DA IDADE

 

O primeiro filho de mamma Penha nasceu na década de ’50 e, nesta semana, estará completando mais uma primavera. Esse cara sou eu!

Entre os jovens sessentões, parece consensual a ideia de ‘já termos nascido no lucro’; isto porque, à época, o próprio nascer era tido como uma manobra de alto risco.

Principalmente se fosse com a participação, mais empírica que científica, da famosa cesariana. O moderno e salvador recurso era tão estigmatizado que, quando empregado, criava na comunidade envolvida um clima de frustração, do tipo: “pena que NÃO foi normal, não é minha filha?!”.

-‘Buáááá!!’ – gritavam mãe e rebento.

-‘Glorioso São Raimundo, ninguém melhor que vós…’ – respondia o coro das comadres que puxavam a novena para São Raimundo Nonato (padroeiro das parturientes).

Aos préstimos trazidos por São Raimundo, muitos outros foram incorporados no sentido de garantir a benção maior: estarmos [até hoje] caminhando na estrada da vida. Inclusive, é bom frisar, contribuindo de forma inequívoca na elevação dos índices estatísticos relativos à idade média do brasileiro.

Por mais difícil que tenha sido esse caminho, devemos ter em mente que também foi igualmente generoso; principalmente se considerarmos o período onde era comum o consumo de alimentos com baixas taxas de conservantes e agrotóxicos – fator possivelmente responsável pelo acúmulo na milhagem da sobrevida.

Logo aprendemos a transformar a aridez do terreno em poesia: vi tanta areia, andei / da lua cheia, eu sei / uma saudade imensa… Havendo sede, bastava fecharmos os olhos e bebermos na lembrança da primeira Coca-Cola (que) foi, me lembro bem agora, nas asas da Panair – onde também descobrimos que as coisas mudam e que tudo é pequeno.

Apesar das turbulências, sempre que pintava medo ou cansaço, continuávamos caminhando e cantando, e seguindo a canção. Pouco importava se estávamos contra o vento, sem lenço e sem documento; ou mesmo parados, no cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João.

Durante um bom tempo, o caminho se fez suave. Havia um Glauber, lotado de ideias e com uma câmera na mão; um Jobim, ocupado em lapidar uma nova canção; um Henfil, com o seu traço sutil; e o encanto no canto de uma Elis.

Houve dias em que as tardes caíam feito viaduto, não obstante o arquiteto Chico ter demonstrado ser possível levantar tijolo com tijolo, num desenho lógico. Nessa construção, foi providencial ter contado com a régua e compasso do mestre Gil.

Por tudo isso, e muito, muito mais, sinto-me feliz e agradecido ao generoso DEUS, por estar (quase?)inteiro, carregado de boas lembranças, caminhando em família, recebendo netos, cultivando amigos, e com fôlego para apagar um monte de velinhas e acender novos horizontes. Pfuuuu!

Quer uma fatia?!

CD Ricardo Lombardi

fradim