Sou daqueles que facilmente preservo na memória alguns utensílios domésticos; principalmente se os mesmos fizeram parte da minha infância. Muitas vezes chego ao extremo de considera-los elementos integrantes da família, como se vida possuíssem. É meio coisa de louco, eu sei!
Acontece que, até hoje, lembro-me do primeiro choque elétrico recebido quando fui abrir a porta da ‘moderníssima’ geladeira Kelvinator. Passado o susto, assimilei o fato como se ela (sim, a geladeira) tivesse me ensinado: –‘menino, não me toque quando estiver molhado e com os pés descalços’. Lição aprendida para sempre – na pele e nos nervos, diga-se.
De todos os equipamentos, era o fogão, aquele que eu mais respeitava. Até porque, para que pudesse funcionar, tornava-se imprescindível a presença de alguma pessoa no comando – preferencialmente que soubesse ‘dialogar’ com as suas bocas.
Esta relação ‘pessoa/fogão’ era, para mim, prova maior de que os utensílios domésticos faziam parte da família. Quando os ‘pratos & sabores’ eram servidos e (bem melhor) aprovados – como aqueles feitos por tia Terezinha – eu sempre achava que um pouco do saboroso mérito, deveria ser atribuído /também/ ao fogão!
Uma prova desta verdade é trazida pelo oposto; isto é, quando algo ‘dá errado’ e atribui-se o infortúnio ao fogão – que não funcionou a contento, etc… Equivale ao famoso ‘tirar da seringa’ e deixar o facilmente esquentável culpado ainda mais esquentado. Pura injustiça! Ou sacanagem gratinada, caso prefiram.
Recentemente, foi possível assimilar outra evidência de que alguns utensílios domésticos são mesmo dotados de ‘reações sobrenaturais’ – optei por este rótulo por julgá-lo pertinente a ‘paranormalidade’ do texto. Buuu!
O fato aconteceu com o amigo @PetronioSouto. Figura ímpar e querida, que fez opção de se isolar em uma das células do Marques de Almeida, cultivando em seu modus vivendi o sólido conceito de NÃO estabelecer nenhuma intimidade com… o fogão (!?).
Diferente do seu computador, o’quatro-bocas’ do nosso amigo é o utensílio mais apagado do planeta Terra. Nem água, o ermitão sabe esquentar. Fritar um ovo?! Só se for de algum anquilossauro que deixe as areias do Cabo Branco, e suba até a varanda do seu apê. Putz!
– “Rapaz, amanhã não poderei participar da nossa SWALK *, porque fui – apressadamente e sem óculos – à cozinha, e dei uma topada (!) com o meu terceiro pododáctilo do pé esquerdo, que fez o prédio balançar e eu quase morrer de dor!” (tradução: nosso herói quase arrancou um dedo do seu pé esquerdo, fruto de um tropeço doméstico em seu esquecido e desaquecido fogão).
Fui visita-lo! Encontrei a vítima (entenda-se: o pé esquerdo), dentro de um balde, submerso em água gelada e salgada, enquanto o seu proprietário continuava praticando o seu esporte preferido: consertar o Universo em apenas 140 caracteres, via Twitter!
Fui até o cenário da tragédia; a cozinha. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um ‘velho e simpático fogão’, visivelmente fora do lugar e confidenciando para a sua colega geladeira: …pois é, querida, cansei de ser bobo, de não ser reconhecido. Meti-lhe a rasteira! Quero ver se agora ele não nota a minha presença!
Parece que surtiu efeito. Felizmente! Hoje, o @PetronioSouto participou da SWALK; calçando havaianas®, óbvio! Disse-me que está seguindo alguns sites de culinária, pegando dicas com @GERMANOROMERO, e que muito em breve irá convidar o nosso grupo para saborear um prato de sua autoria: canelone dopo il passo falso!
Deus é Pai. E capocuoco!
- Nota final: É claro que a topada existiu. Mas o texto é fruto da imaginação trazida pelo prazer da amizade e convívio com este dileto amigo, Petronio Souto. Caminhar ao seu lado, junto com os demais parceiros, transforma os sábados em dias muito agradáveis. Andemos pois!
CD Ricardo Lombardi
- SWALK significa ‘Saturday Walkaminhada’ – nome fantasia concebido por um grupo de amigos, adeptos de caminhadas sabáticas pela orla da praia do Cabo Branco, João Pessoa/PB.
- Após o trajeto de 13 km/em média, é costume a reposição das energias em um café da manhã no Tambaú Flat.
- Integrantes: Marcos Souto, Mucio Souto, Petrônio Souto (o acidentado), Petrônio Cavalcante, Carlos Batinga, Roberto Tannous, Lula Queiróz, Glauco Montenegro, Herbert ‘Betinho’, Julio Rafael (assiduidade zero), Rosemildo Jacinto, Rodolfo Athaide, Ricardo Lombardi, e quem mais vier…



Incrível que uma prosáica topada no “pé” do fogão, tenha sido fonte para o bem escrito e bem humorado texto.
Gostei!
Abraço,
Marcos Souto.
Kkkkk
Quanta criatividade. Esse menino é um talento!!!
E só em imaginar a topada no fogão até bateu um calafrio.
Ricardo vc é 100. Um grande abraço. Nadja
Tio Lombardinho
uma topadinha no fogão e sai um texto desses?! Vc eh d+!
Abraço
Adorei o texto, apesar o dolorido contexto..hehehe
E nota 10 para o SWALK…
Beijão
Caro Ricardo.
Observando sua recente foto (15 de setembro) concluo, com alegria, que você está novinho em folha. Receba meu fraternal abraço. Já registrei alhures sua capacidade/criatividdade de construir um texto cativante a partir do nada ou de muito pouco. Acho que já está chegando o momento de reunirmos suas crônicas em uma coletânea para fins de publicação. Você sabe que poderá contar com meu irrestrito apoio nessa jornada. Até a vista.
Amigo, parabéns pelo texto e pelos colegas de SWALK!
Caríssimo Ricardo!
Depois de ler seu belo e criativo texto, queria sugerir a Petronio que adote o velho micro ondas. Pelo menos, estará livre de uma rasteira inesperada!!!
Parabéns
RT
Grande Ricardo.
Li seu texto e não percebi a sua extensão.
Na verdade, não li, saboreei esta leitura!
Isso! Damos vida à vida, conforme nossos olhos.
Abraço,
Roberto Franca.
swalk = clube do bolinha ????
Prezado amigo Ricardo,
Somente pessoas com um caráter bem formado e de um espírito solidário conseguem dar vida a utensílios domésticos.
Amizade, Topada e Fogão: Guardarei esse texto como prova da minha admiração e amizade.
Um grande abraço.
Tadeu