Arquivo para 23 de fevereiro de 2012

23
fev
12

ecos de um carnaval

ECOS DE UM CARNAVAL

 

Faz tempo que, em época de carnaval, me pego relembrando os memoráveis acontecimentos daquela versão de 1969. Eu, e os meus quatro parceiros [Duda e Dinho Aranha, Paulinho Costa, e Marconi Simões], todos residentes nesta amada João Pessoa. Ainda não tínhamos atingido os 18 anos – idade em que poderíamos obter a sonhada CNH (carteira nacional de habilitação).

Como adolescentes, vivíamos aquele momento onde a força dos hormônios só era menor que o desejo de circular motorizado, sem restrições legais. E sem aquelas irritantes acnes denunciadoras da faixa etária, claro!

Mesmo assim, havíamos decidido que participaríamos do famoso corso (desfile de carros alegóricos com direito a mela-mela), não mais como anônimos espectadores; mas inseridos no circuito ‘Duque de Caxias – Visconde de Pelotas’, como cinco belos pierrôs: púberes e… MOTORIZADOS!

Uau! Desse jeito, até as meninas do Manaíra iriam olhar para nós!

O projeto grupal foi logo materializado com a compra daquele (outrora) possante Ford 48; modelo Custom Deluxe; verde clorofila. O mais novo objeto do nosso desejo foi logo batizado de ‘Ford forty eight’! (pronunciávamos: fófórtêite).

  • UHUUU, o Fordão era nosso! (mal sabíamos que os nossos problemas estavam apenas começando).

Dentre os inúmeros custos agregados à compra do fófórtêite, um deles foi destinado à contratação do Tonho Volante. O nosso motorista ‘habilitado’, estava longe de ser a versão do Morgan Freeman em ‘conduzindo Miss Daisy’. Era um moreno baixinho, gordinho, simpático, e que andava sempre com uma flanela no pescoço, pois transpirava mais do que tampa de bule em casa de chá na fria Londres.

Ente nós, Duda Aranha era quem melhor conhecia sobre os detalhes mecânicos oriundos da revolucionária Detroit. Por ele, ficamos sabendo que o veículo era ‘modelo vaca-magra’ – assim chamado porque o seu distribuidor ficava embaixo, e não na parte superior do motor. Esse pequeno detalhe foi duramente constatado por todos: o Fordão não podia passar por uma poça d’água que… pluft; apagava! E para fazê-lo voltar a funcionar, somente na base do empurrão. O veículo desconhecia por completo um mecanismo de nome ignição.

Ao volante, a performance de Duda (desabilitado) era fabulosa. Era pelo seu intermédio que Tonho (habilitado) aprendia as manhas do fófortêite. Uma das primeiras lições exigia perfeita coordenação motora e sincronismo de ações dos membros inferiores: frear o carro sem deixar que o mesmo morresse.

A manobra (vital) poderia ser executada de duas maneiras: a) usar o calcanhar direito para acionar o pedal do freio, mantendo o resto do pé no pedal de aceleração; ou, b) antes de frear, colocar o carro em ponto morto, e transferir o pé esquerdo para o pedal do freio, enquanto o direito permaneceria agindo no acelerador. Durante este aprendizado, a flanela do Tonho atingia a cota máxima de molhamento.

Mas o grau de dificuldade no item frenagem, não ficava só nisso. Era necessário pisar (com força) sete vezes consecutivas no pedal do meio para que o óleo de freio fosse injetado no mecanismo de amarração das rodas. Havia um vazamento generalizado que exigia um consumo diário de, pelo menos, quatro litros do líquido viscoso – e salvador.

Dependendo de como a necessidade surgisse, as sete pisadas variavam como os movimentos de uma peça sinfônica: na calma, surgia o estilo moderato; no sufoco, ante o prenuncio de alguma colisão; o estilo era allegro, ou presto. E tudo isso sob a batuta do maestro Tonho Volante.

No dia mais importante do corso, o fófórtêite estava lindo. Fez parte da sua caracterização: remoção das quatro portas e da tampa da mala; polimento reluzente da parte que restou para fazer colagem de adereços (confetes, serpentinas, máscaras) alusivos à ocasião; cano de escape alterado com a finalidade de ‘ouvirmos’ o ronco do velho motor de explosão; latas amarradas ao pára-choque traseiro; pneus pintados de branco, entre outros…

Dentre as memoráveis situações, algumas pareciam cenas de desenhos animados. Uma delas foi quando enchemos totalmente o tanque de gasolina e, no primeiro solavanco o mesmo, pelo peso, desabou ao chão. Outra vez, para encurtarmos caminho, estávamos subindo a íngreme ladeira do Colégio das Neves, quando as rodas dianteiras do carro se desgrudaram do chão, devido ao peso de três de nós, que gostavam de ficar em pé na mala traseira. Para equilibrar a subida, pulávamos todos para frente do carro.

Acreditem! Houve uma ocasião em que, em um único circuito, o mesmo pneu furou três vezes. Mas o pior, até porque mais rotineiro, era quando tínhamos que chupar a gasolina do tanque com uma mangueirinha, e transferir o conteúdo para dentro do carburador.

Foi tudo maravilhoso, pois ninguém explodiu!

Pena que, à noite, por mais que tomássemos banho, sempre chegávamos no famoso baile do Clube Cabo Branco fedendo a gasolina, e com olheiras profundas do cansaço de darmos sobrevida ao nosso querido fófórtêite.

Para tristeza geral, logo percebemos que – naquele iminente risco de combustão humana – nenhuma menina do Manaíra seria capaz de aproximar-se de nós.

Quanto ao Fordão, seu destino final foi o retorno a um ferro-velho, para desmanche. Por sinal, neste último percurso foi a única vez que funcionou a sua ignição. Por essas e muitas outras, tenho certeza de que aquele fófórtêite permanece inteiro, lindo e reluzente, na memória daqueles cinco amigos.

Com relação ao Tonho Volante, ninguém sabe do seu paradeiro. Tempos atrás, ouvi dizer que havia se tornado comerciante: estava alugando camelos e vendendo óleo de freio no circuito do rally Paris-Dakar.

Evoé! Colofé!

CD Ricardo Lombardi