BIPOLARIDADE NOSSA DE CADA DIA
Longe de mim, pretender dar uma de Freud e tentar explicar que vejo esse tal de transtorno bipolar – muitíssimo verificado em nossos dias – como ‘coisa do Bem’.
Peço logo aos experts no assunto, pelos quais nutro o maior respeito, a devida vênia pelas incursões [nada científicas] sobre o assunto. Apenas vou me ater ao relato de algumas observações do cotidiano de pessoas que convivem na maioria das cidades brasileiras (a exemplo de minha querida João Pessoa) que se propõem ao crescimento; não obstante a asfixia trazida pela poeira do progresso.
Começo, com uma velha e conhecida piada(?!): dois motoristas, em seus veículos, estavam em um cruzamento de trânsito, disputando a preferência do acesso. Enquanto parados, o mais agitado deles, com um indefectível ’sorriso Mona Lisa’, mirou o inimigo com o seu olhar tiro de morteiro, enquanto pensava/falava baixinho: – filho da puta, não tá vendo que a vez é minha, pô! Assim que o outro motorista, de forma gentil, fez sinal com a mão permitindo-lhe a passagem, o não mais agitado motorista, agora com um ’sorriso Louis Armstrong’, gesticulou com o polegar para cima, e bradou: – Valeu, amigão!!
O sempre caótico trânsito urbano é, de fato, o principal laboratório para a prática deste nosso mais moderno exercício sadomasoquista: a oscilação abrupta do humor, mais conhecida como ‘distúrbio bipolar’. Apesar de categorizado pelo DSM-IV (a 4ª revisão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), e pelo CID-10 (10ª versão do Código Internacional de Doenças), o quadro NÃO é considerado como loucura – portanto não dá status de alienação mental. Felizmente, não é?!
No exemplo da piada, ainda bem que a oscilação de humor se deu no sentido favorável; isto é, do mal, para o bem. Infelizmente, quando acontece em sentido desfavorável (do bem, para o mal), aí o bicho pega! E, quando isso acontece, temos como ato contínuo o aumento das estatísticas de acidentes de morte por ‘estúpidas discussões’: no trânsito; nos bares; nas ruas; nos colégios; nas passeatas pela paz, etc…
De modo empírico, inclino-me a acreditar que a excitação ao comportamento bipolar começa pela ‘TV nossa de cada dia’. Ou melhor, pelo conteúdo da sua programação (salvo exceções). Basta imaginarmos como trabalha o nosso cérebro quando, logo cedo, em programas matinais, somos despertados (p/ exemplo) com reportagem sobre ‘estupro seguido de morte’ para, logo em seguida e numa velocidade estonteante, sermos apresentados a uma suculenta ‘receita de rocambole ao molho de tomate’.
Pois é! Os nossos neurônios (em mim, aqueles dois que ainda funcionam) são terrivelmente chacoalhados em conexões sinápticas que vão de um extremo (estupro) a outro (molho de tomate). Fica inevitável o clima de bipolaridade dentro da cachola, não?!
E o bombardeio não fica só nisso! Na novela do ‘horário nobre’ somos apresentados a uma protagonista louca (esta sim, catalogada pelos DSM-IV e CID-10, como ‘caso perdido’) que nos ensina a sequestrar e matar, enquanto o seu mordomo (o fantástico e ingênuo Crô), com o seu alto astral, ajuda a diluir a patologia da rainha do Nilo. E tome mexida em nosso cérebro!
Por último, temos as aulas de moral, de ética, e de civilidade, proferidas pelo magnífico filósofo da nave BBB (um deles é de bosta, tenho certeza!), com cenas explícitas que fazem tremer as Saturdays Night Fevers de Sodoma e Gomorra! Ao vivo, a cores, e em widescreen!
Com toda essa ‘artilharia’, é natural que, mesmo involuntariamente, nos tornemos praticantes da bipolaridade. Tornou-se vital! Afinal, nossos cérebros já estão acostumados a irem de zero a cem, num piscar de olhos. Ou numa mudança de canal, caso prefiram!
Tem cura?! Claro que sim! Basta largar o controle remoto e pegar um livro, ué! Tenho certeza que a permuta será no sentido: do mal, para o bem!
CD Ricardo Lombardi
- Bônus: BALADA DO LOUCO/ MUTANTES: http://www.youtube.com/watch?v=fWDineqNKiA&feature=fvsr