Arquivo para 6 de setembro de 2011

06
set
11

breve mergulho na violência

BREVE MERGULHO NA VIOLÊNCIA

Penso que a imensa maioria de brasileiros vem sofrendo de uma APATIA CÍVICA derivada de um bombardeio diário de ‘MÁS NOTÍCIAS’, que são veiculadas de forma crescente e ininterrupta, em todos os meios de comunicação.

A impressão é de que a frenética recorrência de tristes acontecimentos não mexe mais com o nosso emocional, pois já virou rotina. Antropologicamente faz sentido! Equivaleria a dizer: ‘o meio faz o homem’.

Pena que, ao admitirmos o estado atual de barbárie como meio, a conclusão óbvia é que estamos (faz tempo) na contramão da sonhada evolução da espécie.

– Onde foi que erramos?!

É essa a pergunta que incomoda. Até porque ela traz em sua estruturação a inequívoca premissa de que, ao proferi-la, assumimos cumplicidade no erro. E isso dói!

– Como que eu posso ter errado?!

Sempre ensinei aos meus filhos a lição que melhor aprendi: ‘o meu direito termina, onde começa o do outro’. Em outros momentos fui até mais ousado, acreditando que: ’há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura’.

Tudo errado, cara pálida! Em se tratando do tema violência, melhor assumirmos que amolecemos e perdemos a noção de ternura. Ou então nos vestirmos de um moderno Diógenes; acendermos uma lanterna, e sairmos perguntando: –‘alguém sabe onde posso encontrar os meus direitos?!’

Não fiquem imaginando que eu esteja me reportando apenas às manifestações de violência, do tipo: estupros, assaltos, assassinatos, sequestros, balas perdidas, drogas, pedofilias, acidentes de trânsito por embriaguez, explosões de caixas-eletrônicos, e outros… Sim, elas são danosas. E muito! Suas vítimas são escolhidas ao acaso, meio que no estilo ‘roleta-russa’. Pouw!!

O modelo de violência que mais me preocupa atualmente, fonte inspiradora do presente texto, é o que emana dos nossos poderes públicos; daqueles constituídos exatamente para dar bons exemplos e elevar as nossas autoestimas.

Entretanto, quando abandonam os seus atributos constitucionais, fato que acontece com a mesma assiduidade dos estupros, aí então… o dragão da maldade avança sobre o santo guerreiro.

Nesta vertente, os malefícios logo acontecem; e não surgem ao acaso. Eles são pensados, analisados, articulados, votados, e implantados.  Atingem a todos; ou melhor, quase todos. Conheçamos alguns deles; pelo menos os mais recentes:

  • Parlamentares definem e aprovam aumento de seus próprios salários (61,83%);
  • Com os salários devidamente em dia, movem-se em dezenas de plenárias que se destinam (algumas delas) a explicar aos contribuintes – fonte pagadora – acidentes de percurso conhecidos como: mensalões, cuecões, valeriodutos, operação Satiagraha, etc…
  • Câmara Federal, no mais alto espírito corporativista, absolve (em votação secreta) sua colega Jaqueline Roriz, aquela que foi flagrada… bem, vocês sabem como…
  • STF solicita uma releitura no orçamento/2012 da União. Houve esquecimento de um aporte financeiro destinado a atender o pleito de aumento salarial na ordem de 56% para os servidores daquele colegiado. O Supremo calcula que o impacto do aumento dos servidores nas contas públicas seja de R$ 6,36 bilhões;
  • Vem aí a CPMF/2011 para atender ‘exclusivamente a Saúde’. Parece que não entrou ainda porque existe uma cláusula que determina ‘voto aberto’ – procedimento difícil de ser aplicado em vésperas de ano eleitoral, etc e tal…
  • Obras ‘estruturantes’ para a Copa do Mundo ocupam topo de prioridades, mas encontram-se atrasadas, e superfaturadas /parece que vamos ter a ‘farra da jabulani’;
  • Posterga-se a definição de políticas voltadas para a taxação de impostos das grandes fortunas;
  • Reforma política e eleitoral no Brasil vem sendo conduzida no casco de um cágado idoso;
  • A sonhada ‘faxina política’ foi estancada em nome da governabilidade;
  • Chega! (mas, se vocês quiserem, podem enviar mais exemplos. Devo ter esquecido de alguns!)

Uma última pergunta: “É impressão minha, ou somos mesmo co-responsáveis por esse tipo de violência?!”

Peço desculpas a alguns amigos, articulistas políticos, pelo atrevimento no presente ensaio. Nesta ‘praia’ sei pouco nadar, e sempre fico no raso. Admiro o trabalho de vocês, e gosto muito quando os percebo mergulhados em águas profundas e, ao emergirem, nos trazerem – com absoluta autonomia de fôlego – pérolas preciosas.

Eu, aprendiz, agradeço! Até porque fico menos apático!

Tchibum…

CD Ricardo Lombardi