Arquivo para setembro \20\America/Recife 2011

20
set
11

avô e primavera

AVÔ e PRIMAVERA

Tem uma pergunta que, vira e mexe, sempre volta a exigir de minha ‘nada meteorológica’ pessoa, uma tentativa de resposta: – De que maneira as quatro estações do ano influenciam a nossa vida?!

Certamente pela proximidade com a linha do equador, o fato é que na minha bela e amada João Pessoa [07° 05′ 00″ S 34° 50′ 00″ O], as estações do ano sempre foram recebidas mais por uma determinação do calendário gregoriano, do que pelas suas evidências climáticas.

Por aqui, e não é de hoje, inverno pode dar praia; assim como o guarda-chuva pode ser acessório de verão. Cada novo dia surge com identidade própria, meio que descompromissado com os parâmetros da estação na qual está inserido. Tudo normal, claro! Afinal, estamos habitando a zona ‘intertropical’.

Até o majestoso espetáculo da floração dos ipês amarelos na Lagoa, com início previsto para fins de agosto, tolera variações em função de fenômenos climatológicos – cada vez menos compreendidos.

Pq. Solon de Lucena (Lagoa)/JPA: floração dos ipês -sábado/25.12.2010/hora:‏‎16:19:46.

Talvez por conta de particularidades intrínsecas a cada região, fique mais fácil entendermos porque a China adota cinco estações/ano; a Índia, somente três; ou, ainda mais econômica, a Angola, que convive com apenas duas. Faz sentido, sim!

Nossa maior identificação é com o verão: sol exuberante, mar azul, e calor tropical. Fora isso, as outras três estações parecem compactuar para a oferta ‘em conjunto’ de: ventos fortes, chuvas intermitentes, e mar amarronzado. Frio intenso e neve, nem pensar! Pelo menos enquanto a entropia do Universo assim permitir.

Tem outra coisa que há anos me intriga, e somente mutila minha frágil capacidade de compreender as estações. É o fato de estarmos povoando o hemisfério sul e, em pleno dezembro [transpire-se, verão], vermos em toda esquina um velhinho obeso (origem emocional?!); friorento (hipotireoidismo?!), pois está sempre vestido com uma abafadíssima e pesada roupa de lã vermelha; com um cajado na mão (artrite reumatoide?!), e gritando de aflição (não confundam com risos de satisfação): houw, houw, houw!  É demais!!

Nossas ‘previsões do tempo’ são feitas no paralelo. De maneira empírica, porém infalível! Quando dona Inês (moradora do 102) sente um calor abafado, é batata: vai chover! Quando o joanete do seu Oscar (do 301) começa a latejar, não dá outra: o calor vai ser intenso! E, quando o Zé Pescador diz que o mar está endrupiado e indo pra esquerda, é porque não vai ter peixe! Ponto. (Esclarecimento: nem o mestre Aurélio sabe o que é ‘endrupiado’. Mas, se for no mar, e para a esquerda, acreditem: não tem peixe, MESMO!)

 

  • Nota final: fiquei tocado por este assunto, por ocasião de recente caminhada matinal na praia – com chuva forte, e vento intenso. Sim, eu ia sem lenço, nem documento. Percebi a importância das estações, pois algo me dizia que esta PRIMAVERA que bate à porta, não será igual às outras tantas já vividas. Ela trará o LUCAS, meu primeiro neto. Por isso continuo caminhando, sorrindo, sem me preocupar se o mundo vai (outra vez) se acabar em 2012!

CD Ricardo Lombardi

14
set
11

rural versus urbano

Nota prévia: ‘Rural versus Urbano’ é outro texto resgatado do findável baú. Seu conteúdo possui 85% de veracidade, e o restante veio pela bondosa (e sempre bem-vinda) fada da imaginação. Esclareço que em alguns trechos sobre o Zeca, optei por escrever algumas palavras com absoluta ‘fidelidade auditiva’. Agradeço a todos pela leitura. Espero que gostem! Com carinho, RL.

===================

Rural x Urbano 

O telefonema recebido do Zeca me causou surpresa e satisfação. Nossa amizade teve início há muito tempo, mais precisamente na época do cursinho pré-vestibular. Ele e o Fred, ambos do interior, dividiam um quarto em uma pensão vizinha à minha casa.

Ingressamos na Universidade em cursos diferentes. O Fred optou pela área de Letras & Artes (assim penso); eu pela área de Saúde; e o Zeca, por vocação genética, seguiu Agronomia. Os diferentes rumos fizeram com que a nossa convivência, antes intensa, fosse bruscamente interrompida.

Até aquele telefonema…

Olá, meu véi! É o Zeca! Tá lembrado d’eu?! O estilo e a sonoridade da pergunta já atestavam que o tempo não havia lhe tirado duas audíveis características: GRITAR ao invés de falar, e o seu eterno linguajar caipira.

Diga aí, meu irmão Zeca! Há quanto tempo! A que devo a honra de sua ligação?! Respondi mantendo o aparelho distante da orelha.

– Tô indo praí! Quero encontrá tu, pragente ir pegar minha filha no eroporto daí. Ela ta chegando das Europa! Êta nóis! A safra do abacaxi foi boa, viu! Manifestou mais outra característica rica em decibéis: sua ensurdecedora gargalhada!

 Tudo bem, Zeca! Assim que você chegar me ligue que vou pega-lo onde estiver. Faço questão que você fique em minha casa!

Encerrada a ligação, voltei a brincar com as recordações daquele tempo. Lembrei-me que o Zeca era dez anos mais  velho que nós. Sendo o primogênito de uma família de agricultores, teve que interromper os estudos por algum tempo em razão de não poder se ausentar da sua propriedade. Sempre demonstrou inclinações para trabalhar e viver no campo.

O Fred era o oposto. Introspectivo, de fala mansa e atitudes discretas. Estava sempre envolvido com a leitura de um livro que o deixava ainda mais “impenetrável”. Apreciador de música clássica, fazendo concessão apenas a dois famosos grupos: Beatles e Rolling Stones. De nós três, era o único que ainda não havia definido qual carreira seguir, mas que, certamente, não seria nenhuma da área de saúde, ou tecnológica.

Outra forte característica do ‘moço das letras’ era o seu voraz apetite sexual, naturalmente confirmado pela alta frequência com que trocava de namoradas. Quando sozinho, estava sempre lendo. Enquanto uma das mãos segurava o livro, a outra, por hábito (do ofício?!) estava sempre, e literalmente… coçando o saco(!!). Para desespero do seu companheiro de quarto, zombávamos entre risos.

O Zeca preferiu ficar em um hotel justificando não querer causar incômodo e preservar a privacidade; dele e nossa. Conforme havíamos combinado, fui buscá-lo às seis horas da manhã para irmos tomar café no Mangai – restaurante de cozinha regional que ele somente conhecia por nome, e fama.

Encontrei-o na recepção, já pronto para sairmos. Vestia uma indefectível calça jeans; camisa estampada; chapéu à moda texana; botas; um largo cinturão de couro e, sobre este, uma bolsa capanga. Também concordo; era páreo duro com o Agostinho da ‘Grande Família’.

Seu andar continuava o mesmo: rápido, de pisada firme e com maior tração nos calcâneos, dando-lhe a impressão que suas pernas chegavam antes do resto de seu corpo. Além disso, existia a particularidade de possuir pernas ligeiramente arqueadas na altura dos joelhos, semelhante a alguém que acabara de descer de uma montaria.

Êita, meu amigo! Dê cá um abraço! Segurou-me com os dois braços com a mesma sutileza de um peão que derruba um garrote na vaquejada, aplicando-me ainda duas tapinhas nas costas. O conjunto dos agrados me deixou assustado com a real possibilidade de despertar (em mim) uma velha e crônica lombalgia. Quase sem poder respirar, apelei: – Aaaiii, porra!! Peraí, Zeca! Devagar com os carinhos!  A sonora gargalhada demonstrou que ele havia deferido o meu pedido de salvação. Ufa!

Fomos os primeiros a chegar ao restaurante. O sistema self-service e a minha dieta matinal (eternamente light), permitiram-me maior rapidez na feitura do prato. Sentei-me à mesa e fiquei aguardando o homem de chapéu que já estava circulando com desenvoltura pelo ambiente.

Passado alguns minutos, chega o Zeca. Feliz como uma criança. Vinha carregando uma travessa com as duas mãos e ainda sendo ajudado por uma funcionária do local. Ao sentar-se e depositar sobre a mesa suas opções gastronômicas me foi possível constatar a primeira grande diferença entre a vida rural, e a urbana.

Enquanto o meu desjejum compreendia um pouco de cereais, iogurte, duas fatias de mamão, chá verde, pão integral e queijo ricota; meu convidado contra-atacou com um prato que parecia a maquete de um vulcão em plena erupção.

A base da montanha era uma combinação de inhame com macaxeira, volumetricamente compactados. Do topo, descia uma generosíssima porção de bode guisado, distribuída com absoluto esmero ao redor do mini-Vesúvio, lembrando suas lavas incandescentes.

E não parava por aí… Sobre a nossa mesa a garçonete também depositou: uma coalhada (das grandes); cuscuz; três ovos de capoeira; tapioca; queijo de coalho, e de manteiga; uma cartola, e um bule de café. Este último, sendo assim justificado: – É pra ajudar na descida dessas coisinhas! Gelei!

Ôhh Zeca! São sete horas da manhã e você já está almoçando? Brinquei com o meu fastioso amigo.

– Que nada! Lá na roça eu como esse tantim às cinco hora, depois que vórto da ordenha das vaca. Acho que estou anoréxico, pensei!

No aeroporto, ficamos em um café conversando sobre a Ritinha, filha do Zeca. Deduzi, sem muita convicção, que a moça estava fazendo pós-graduação em Paris, na área de moda. A minha incerteza estava fundamentada na forma como ouvi o seguinte comentário: – A menina terminou um curso de fazer roupa pro povo, mas quis estudar mais naquela cidade que tem uma torre de ferro bem alta e onde se toma vinho quinem água.

Estávamos perto da área de desembarque. Notamos que, pela quantidade de repórteres e emissoras de televisão, alguma personalidade estava sendo aguardada. Ao avistar sua filha, o Zeca acionou seus calcâneos e zarpou em direção ao abraço. Juntei-me aos dois, e fui apresentado à bonita moça com as honras de um verdadeiro amigo-irmão.

– Papai, eu tenho uma grande novidade para contar-lhe! Há dois meses conheci o famoso coreógrafo do Bejart Ballet Lausanne e ficamos apaixonadíssimos! Ele também veio comigo, resolveu aceitar um convite para se apresentar no Brasil. Está retirando nossas bagagens, mas eu fiz questão de me adiantar para contar que estou flutuando nas nuvens de tanta felicidade.

Presenciar o bonito encontro entre pai e filha, me deixou emocionado. Ainda mais com o bônus da oportunidade de poder testemunhar uma bela confidência, além da expectativa de conhecer o futuro (e internacionalmente famoso) genro do Zeca.

Com a Rita entre nós, ficamos perfilados e de braços dados, esperando chegar o príncipe. O alvoroço dos repórteres aumentou e uma chuva de flashes, microfones, e câmeras, incidiu sobre um homem alto, magro e elegantemente vestido.

– Pronto pai! Aquele lá é o grande amor de minha vida!

Ao virar-se, e focar o seu futuro genro, o Zeca emitiu um dilacerante grito que não somente fez disparar o sistema eletrônico de segurança do aeroporto, como também desviou a atenção da mídia presente:

FFRRRÉÉÉDDDD! Seu filho de uma putaaaaaa…

Uh la la! Vivre l’amour!!

CD Ricardo Lombardi

06
set
11

breve mergulho na violência

BREVE MERGULHO NA VIOLÊNCIA

Penso que a imensa maioria de brasileiros vem sofrendo de uma APATIA CÍVICA derivada de um bombardeio diário de ‘MÁS NOTÍCIAS’, que são veiculadas de forma crescente e ininterrupta, em todos os meios de comunicação.

A impressão é de que a frenética recorrência de tristes acontecimentos não mexe mais com o nosso emocional, pois já virou rotina. Antropologicamente faz sentido! Equivaleria a dizer: ‘o meio faz o homem’.

Pena que, ao admitirmos o estado atual de barbárie como meio, a conclusão óbvia é que estamos (faz tempo) na contramão da sonhada evolução da espécie.

– Onde foi que erramos?!

É essa a pergunta que incomoda. Até porque ela traz em sua estruturação a inequívoca premissa de que, ao proferi-la, assumimos cumplicidade no erro. E isso dói!

– Como que eu posso ter errado?!

Sempre ensinei aos meus filhos a lição que melhor aprendi: ‘o meu direito termina, onde começa o do outro’. Em outros momentos fui até mais ousado, acreditando que: ’há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura’.

Tudo errado, cara pálida! Em se tratando do tema violência, melhor assumirmos que amolecemos e perdemos a noção de ternura. Ou então nos vestirmos de um moderno Diógenes; acendermos uma lanterna, e sairmos perguntando: –‘alguém sabe onde posso encontrar os meus direitos?!’

Não fiquem imaginando que eu esteja me reportando apenas às manifestações de violência, do tipo: estupros, assaltos, assassinatos, sequestros, balas perdidas, drogas, pedofilias, acidentes de trânsito por embriaguez, explosões de caixas-eletrônicos, e outros… Sim, elas são danosas. E muito! Suas vítimas são escolhidas ao acaso, meio que no estilo ‘roleta-russa’. Pouw!!

O modelo de violência que mais me preocupa atualmente, fonte inspiradora do presente texto, é o que emana dos nossos poderes públicos; daqueles constituídos exatamente para dar bons exemplos e elevar as nossas autoestimas.

Entretanto, quando abandonam os seus atributos constitucionais, fato que acontece com a mesma assiduidade dos estupros, aí então… o dragão da maldade avança sobre o santo guerreiro.

Nesta vertente, os malefícios logo acontecem; e não surgem ao acaso. Eles são pensados, analisados, articulados, votados, e implantados.  Atingem a todos; ou melhor, quase todos. Conheçamos alguns deles; pelo menos os mais recentes:

  • Parlamentares definem e aprovam aumento de seus próprios salários (61,83%);
  • Com os salários devidamente em dia, movem-se em dezenas de plenárias que se destinam (algumas delas) a explicar aos contribuintes – fonte pagadora – acidentes de percurso conhecidos como: mensalões, cuecões, valeriodutos, operação Satiagraha, etc…
  • Câmara Federal, no mais alto espírito corporativista, absolve (em votação secreta) sua colega Jaqueline Roriz, aquela que foi flagrada… bem, vocês sabem como…
  • STF solicita uma releitura no orçamento/2012 da União. Houve esquecimento de um aporte financeiro destinado a atender o pleito de aumento salarial na ordem de 56% para os servidores daquele colegiado. O Supremo calcula que o impacto do aumento dos servidores nas contas públicas seja de R$ 6,36 bilhões;
  • Vem aí a CPMF/2011 para atender ‘exclusivamente a Saúde’. Parece que não entrou ainda porque existe uma cláusula que determina ‘voto aberto’ – procedimento difícil de ser aplicado em vésperas de ano eleitoral, etc e tal…
  • Obras ‘estruturantes’ para a Copa do Mundo ocupam topo de prioridades, mas encontram-se atrasadas, e superfaturadas /parece que vamos ter a ‘farra da jabulani’;
  • Posterga-se a definição de políticas voltadas para a taxação de impostos das grandes fortunas;
  • Reforma política e eleitoral no Brasil vem sendo conduzida no casco de um cágado idoso;
  • A sonhada ‘faxina política’ foi estancada em nome da governabilidade;
  • Chega! (mas, se vocês quiserem, podem enviar mais exemplos. Devo ter esquecido de alguns!)

Uma última pergunta: “É impressão minha, ou somos mesmo co-responsáveis por esse tipo de violência?!”

Peço desculpas a alguns amigos, articulistas políticos, pelo atrevimento no presente ensaio. Nesta ‘praia’ sei pouco nadar, e sempre fico no raso. Admiro o trabalho de vocês, e gosto muito quando os percebo mergulhados em águas profundas e, ao emergirem, nos trazerem – com absoluta autonomia de fôlego – pérolas preciosas.

Eu, aprendiz, agradeço! Até porque fico menos apático!

Tchibum…

CD Ricardo Lombardi