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15
maio
11

diálogos & ambientes

DIÁLOGOS & AMBIENTES

Faz sentido a concepção de que; se nós, seres humanos, possuímos dois ouvidos e uma só boca, é porque devemos ‘ouvir mais, e falar menos’.

Também concordo, mas com ressalvas, claro!

Em primeiro lugar, devemos entender que tanto a ‘fala’ quanto a ‘audição’ são processadas no córtex cerebral: parte mais desenvolvida do nosso cérebro, responsável pelo raciocínio, pensamento, funções cognitivas, percepções sensoriais (visão, audição, tato e olfato), além da capacidade de produzir e entender a linguagem.

Significa dizer: tudo aquilo que nós ‘dizemos’ e ‘ouvimos’ passa por uma espécie de ‘comando central’ que possui mecanismos capazes de assimilar e selecionar o que deve (ou não) ser dito e ouvido. Será?!…

Sendo isso verdadeiro, penso que devemos investir (havendo ainda tempo hábil) na sanidade dessa capacidade cognitiva, tão tsunamicamente comprometida pelos decibéis nossos de cada dia, sem deixar de passar pelo gosto(?!) musical do meu vizinho. É dose!

Outro ponto que me faz abordar esse tema, é que existe um segundo elemento fundamental na capacidade de interpretar corretamente tudo que se ouve. Refiro-me ao AMBIENTE FÍSICO, onde se encontra o portador do córtex cerebral – se é que ele ainda consegue distinguir ‘alhos de bugalhos’. Vamos tentar explicar melhor…

– Olá, dona Maria, a senhora prefere seus peitos grandes, não é?!

– Apenas um, seu Hugo! O outro eu quero pequeno.

– Posso arrancar a pele?!

– Só do pequeno porque meu genro gosta assim. É o contrário de Antonio, meu marido.

– Entendi! Deixa comigo que os dois vão ficar lindos.

O diálogo de fato existiu, acreditem! Eu estava presente e OUVI!

Acontece que – o AMBIENTE – foi o fator que impediu que o meu córtex cerebral tivesse catalogado dona Maria como portadora de algum tipo de ‘assimetria torácica-peitoral’ ou eleita parte demonstrativa em rituais de esquartejamento humano. Ou até mesmo ser rotulada como transgressora sexual na terceira idade.

Ainda bem que estávamos no mercado da Torre, no setor de galináceos, sendo atendidos por seu Hugo que, com uma faca na mão, dava um show de habilidade e profundo conhecimento anátomo-morfológico de peitos. Dos frangos, e não da dona Maria.

Fiquei olhando para os peitos de dona Maria (os que ela havia comprado, lógico). Entendi que o pequeno (já sem pele) ela iria levar para a sua filha.

De olhos, ouvidos, e córtex bem abertos, pus-me a imaginar que o mesmo diálogo ouvido há pouco, poderia também estar acontecendo em outro AMBIENTE – por exemplo, em uma clínica de cirurgia plástica! Neste caso, aí sim, a dona Maria estaria correndo sério risco de vida, ou de ser mal interpretada.

Seu Hugo ficou sem entender porque eu ria tanto. E sem tirar as minhas mãos dos peitos, claro!

CD Ricardo Lombardi