Somente a terceira lei de Newton – a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade – seria capaz de justificar a internação e o elevadíssimo nível de estresse verificado naqueles três companheiros, em consequencia do recém findo carnaval.
Tudo começou quando ouviram dizer que iriam descansar em uma praia deserta, longe de qualquer tipo de poluição. Os três ficaram tão emocionados que um deles até permitiu-se ao desabafo: –‘Já não era sem tempo, meus camaradas! Faz anos que não temos um período de real sossego! Nossa carga de trabalho está cada vez mais insalubre, árdua, e desgastante!’.
Apesar de pequenos e frágeis, os três amigos eram reconhecidos por todo o sistema, como ‘funcionários padrão’. Era admirável o entrosamento e sinergismo funcional, por eles conquistados. Jamais eram vistos fora dos seus pequenos e contíguos ambientes de trabalho. Nem mesmo quando se viam (como agora) contemplados com ‘momentos relax’.
Assim que chegaram à praia, logo vibraram com a sonoridade dos ventos e das ondas do mar:
– Ôpa! Estou sentindo que vai pintar quatro dias de sombra e água fresca!
– Peraí, calma! Sombra… até que é bom; já estamos acostumados. Mas… água fresca?!! Tô fora! Não me faz bem…
– Se eu pudesse escolher, pediria quatro dias de… silêncio!
– SILÊNCIO! (exclamaram os outros dois, incrédulos!) – Mas isso é produto em extinção! Faz tempo que não lidamos com tal ‘preciosidade’! Todos se entreolharam simbolizando perfeita concordância de que aquilo, caso acontecesse, seria interpretado como dádiva ou milagre: poderem ouvir o som do silêncio!
Mas o que se (ou)viu foi o contrário! Junto com eles também chegaram legiões de jovens gladiadores, montados em suas reluzentes caminhonetes, que logo se espalharam em pontos supostamente estratégicos ao colapso auditivo.
Uma vez apeados, os guerreiros abriam as portas traseiras dos veículos de onde emergiam: possantes alto-falantes; caixas; bazookas; amplificadores; equalizadores; tweeters; woofers; subwoofers… e até um discretíssimo ‘divisor de freqüência crossover driver super tweeter woofer’. Tudo acionado à distância, via Bluetooth (Uau, brother!).
Para desespero dos três amigos apaixonados pelo silêncio – agora totalmente descartado, enquanto hipótese – teve início uma gigantesca avalanche de decibéis, sob as formas de gêneros musicais(?!) que abdicaram de levezas harmônicas, em detrimento de um duradouro e linear bate-estacas.
Concordo! Gosto musical não se discute – é subjetivo! Mas potência sonora, sim – é mensurável! É medida por decibel (dB). Graças a inúmeros trabalhos científicos, podemos acreditar que estaremos sempre em ‘áreas de conforto’ quando as nossas emissões sonoras não ultrapassarem os 85 decibéis, aceitos como ’tolerável’ ao ouvido humano.
Não foi bem isso que aconteceu naquela praia durante o carnaval. Certamente os nossos três amigos passaram horas trabalhando em cima de – no mínimo – 110 / 130 decibéis (equivalente ao som de um trio elétrico, ou à suavidade de uma britadeira).
Ainda pior era a desesperada tentativa de decifrar os significados das ’mensagens babel-polifônicas-poéticas’: ♪ vou não / Super-Man ficou fraco / olha pra frente / pra frente / ♫ quero não / o Pingüim jogou criptonita / ♪ posso não / cintura, cabeça / tchubirabiron / ♩Lex Luthor e Coringa roubou laço da Mulher Maravilha… ♫
Não me levem a mal, foi coisa de carnaval! EVOÉ!
CD RICARDO LOMBARDI
* (para meu irmão, Leonardo – o anjo Léo)
- O último boletim médico informou que nossos três amigos – Martelo, Bigorna, e Estribo – estão prestes a receberem alta. O documento também destaca a imperiosa necessidade de poupá-los de todo e qualquer tipo de violência sonora; entenda-se, barulho.
- Neste sentido, é conveniente mantê-los com doses diárias de: https://www.youtube.com/watch?v=L-JQ1q-13Ek ou algo semelhante.
- Outro bônus/depoimento com Alexandre Garcia: http://www.youtube.com/watch?v=DoyvG8cvLjA
