Arquivo para 23 de fevereiro de 2011

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maré quase morta

MARÉ QUASE MORTA

-Basta! Vou me permitir ao direito de um justo desabafo!

Assim fazendo, estou convicto de haver chamado para mim, e para minha geração, a responsabilidade histórica de manifestar um descontentamento acumulado ao longo de séculos.

Certamente que os meus ancestrais, se vivos fossem, não acreditariam que – HOJE – as nossas ‘lutas por sobrevivência’ sejam infinitamente maiores que às suas, travadas no remanso de épocas pós-dilúvio.

Talvez estejamos fadados à extinção por um aspecto meramente topográfico: vivemos em terras próximas aos oceanos. Parece ironia do destino, percebermos que o mesmo habitat que nos possibilitou, no passado, condições de evolução e vida; hoje nos sinaliza com acenos de destruição e morte.

Houve até um tempo em que contávamos estrelas, ao som de belas melodias:  ♫…o mar/ quando quebra na praia/ é bonito/ é bonito… // ♪…toda gente homenageia/ Januária na janela/ até o mar faz maré cheia/ pra chegar mais perto dela …

Julgando pelas inúmeras manifestações poéticas dos ‘seres mais evoluídos’, chegamos a acreditar que desfrutaríamos ad perpetum de um paraíso: ♫…beira do mar/ lugar comum/ começo do caminhar…♪ – Ledo engano!

A onda mudou! Foi-se o tempo em que éramos acordados pelo canto feliz de uma preamar que, mansa e dadivosa, nos brindava com moluscos, conchas, estrelas, e até pérolas (stricto e latu sensu).

Hoje, apesar de estressada e combalida, ainda mantém-se generosa. Usa toda a sua força para devolver aos seres mais inteligentes todas as ‘sobras’ dos produtos por eles criados – usados – e largados.

Posso garantir que, pelos resíduos encontrados, o mundo transformou-se em um imenso depósito de ‘coisas descartáveis’. Todas as manhãs; basta eu sair de casa para ter a certeza de que: –“se o ‘homo sapiens’ descobriu o PET, o ‘homo urbanus’ está anos-luz de distância de entender (e trabalhar) a cultura da reciclagem”.

Meu andar tornou-se trôpego. Não pela idade, mas pelo confinamento imposto pelos obstáculos deixados à minha volta: copos, garrafas, latas, sacos plásticos, tábuas, tocos, cocos, chinelos, camisinhas, seringas, velas, vômitos, dejetos, e etc…

HORA DE APRESENTAR-ME: sou da família Ocypodidae; gênero Ocypode Albicans; classe Malacostraca; ordem Decapoda. Apesar de me chamar Ruy, sou conhecido por maria-farinha. É mole, ou quer mais?!

Morro de medo de crianças que, sempre dóceis e afáveis, quando capturam um de nós, forçam-nos a tomar seus sorvetes, comermos seus biscoitos, e depois ficam testando a resistência de nossas patas! Ou põem-se a cutucar nossos olhinhos com seus dedos untados de areia, sorvetes, e biscoitos. Taquêopariu!

Ouvi dizer que a coisa vai mudar. Que já existe uma ‘consciência ecológica’ no coletivo das pessoas. Será mesmo?! Pelo que vejo ao meu redor, essa coisa está bem longe de acontecer! Parece até que está indo em direção contrária!

O que me mantém esperançoso é quando vejo pessoas como @ruthavelino; @petroniosouto; @irapuansobral (citando apenas três ‘tuiteiros’), andando na praia e zelando pelo meio-ambiente. Ou mesmo @LOMBARDRIC quando – do nada – se ocupa em fotografar e escrever sobre o assunto.

Torço para que atitudes assim se multipliquem. Rezo para que isso aconteça muito rapidamente. Conheço bem de tábua de marés. Assusta-me, pelo exemplo do hoje, que o amanhã venha trazer apenas as quase-mortas. Urge cuidar!

Salve-nos, Pai protetor da Vida! E dos caranguejos, amém!

Valei-nos São Chico Science! http://bit.ly/3IXzRU

Valei-nos São Tom Jobim! http://bit.ly/g1Aqts

CD Ricardo Lombardi