13
nov
10

chuva e saúde

  • nota prévia: o meu prazer de “brincar com as palavras” ganhou, com os recursos da informática e suas derivações, uma condição de melhor organizar o baú onde eram colocados alguns textos; conhecidos apenas por um pequeno grupo de amigos(as), sob a incômoda forma de envio por email. Agora, talvez como manobra de vingança, estou sendo por eles intimado para, neste blog, postar (ou será melhor ressuscitar?!) alguns desses textos. É esse o motivo que trago o “Chuva e Saúde” -situação por mim vivenciada: 82% no mundo real, e 18% trazida pela fada boa da imaginação. Espero que gostem e continuem a me perdoar. Beijos & abraços, RLombardi

 

CHUVA E SAÚDE!

Periodicamente, subo no trem da prevenção e faço uma revisão geral, conhecida por  check-up, ou, como prefere o mestre Ariano Suassuna, exame da carcaça e do conteúdo. Geralmente isso acontece entre os meses de junho/julho, período de chuvas que parece servir à introspecção em todo o seu sentido.

A cada ano, essa rotina vem exercitando, de forma progressiva, o meu lado hipocondríaco e, de maneira inversa e saudosista, distanciando-me do meu lado atleta-sarado. A novidade, desta vez, foi minha decisão de não buscar mais desculpas para permitir espaço ao sedentarismo, um dos grandes vilões da modernidade.

Chega de desculpas amarelas! Está decidido: Não vou mais consentir que o tempo chuvoso e feio sirva de justificativa para não levantar cedo (cinco horas) e abdicar do exercício mínimo e diário de caminhar quatro a cinco quilômetros. Providência inicial desta minha mais recente metamorfose foi comprar um guarda-chuva, acessório que jamais imaginei ser utilizado em minha querida João Pessoa, muito menos como utensílio associado à busca pela longevidade.

Onde comprar?! Lembrei-me de já ter percebido que alguns comerciantes do mercado informal fazem ponto nas portas de bancos, padarias e farmácias, expondo, para venda, meu novo sonho de consumo. Um pouco sem jeito, parecendo estar comprando coisas proibidas, indaguei ao vendedor (de forte sotaque paraguaio) qual o modelo que ele me aconselharia como companheiro nas minhas caminhadas matinais.

Fazendo parte da resposta veio uma coreografia caótica. Demonstrando uma prática invejável, o vendedor deu início, de forma frenética, a uma sessão de abre-e-fecha de guarda-chuvas. A demonstração tinha teor didático, pois fiquei sabendo que o ponto principal da avaliação era constatar a potência da mola que gerava a abertura automática do equipamento.

A cena, agora, estava enriquecida com linda sonoplastia: Splash! Vrumm! Crash! O ambiente estava ficando tumultuado. Alguns concorrentes, vendo chegar um consumidor leigo no assunto, passaram também a demonstrar a potencialidade das molas dos seus artigos – absolutamente iguais, pois tinham a mesma origem: China, Paraguai, 25 de Março e, pasmem, Juazeiro do Norte. Os provenientes dessa região, com o bônus da bênção de padre Cícero, eram absolutamente virgens, a julgar pelo irrisório índice pluviométrico ali verificado.

Querendo consumar o assunto, fiz as duas últimas perguntas: – Este aqui, agüenta muita chuva?

– Meu doutor, veja este produto (vrumm!), coisa de primeira qualidade (splash!), pode levar sem medo (crash!). Qualquer coisa venha trocar, meu ponto é aqui e todos me conhecem.

– Por favor, pare a demonstração e me responda: Qual o preço? – Veja bem! O produto me custa R$ 20,00, mas sabe como é… aqui no Nordeste tem pouca saída… vendo por R$12,00… lhe faço por R$10,00. Mas não comente com ninguém, certo?

Paguei e saí rápido, levando, além do guarda-chuva, uma sensação de conquista e alívio. Agora era só esperar pelo toró. A expectativa pela estreia foi tanta que não precisei usar o despertador. Acordei às 4:30 e vibrei com a chuva que caía. Valeu, São Pedro!

Estava escuro quando desci do carro. Para meu espanto (e sádica satisfação, confesso), percebi que não havia sido o primeiro a chegar. Cumprimentei, orgulhoso um grupo de pessoas que – inertes – se protegiam sob uma marquise, esperando a chuva passar. Acionei, pela primeira vez, a famosa mola e…. vrumm… o guarda-chuva abriu-se sob o olhar incrédulo da pequena platéia. O prazer foi tão grande que imagino ter ouvido aplausos.

Ainda observado pelo grupo da marquise, atravessei a rua em direção à calçada da orla. Logo percebi que alguma coisa estava, apocalipticamente, fora de ordem. O mar, bastante revolto, batia forte no muro de proteção; ventos alísios e contra-alísios pareciam duelar para saber quem era o mais forte. Não deu outra: ouvi um abafado truimmm. Olhei para cima e vi, uma a uma, as varetas do meu parágua (é assim que se chama no Paraguai) levantando em sentido contrário e me deixando, sob o olhar curioso e irônico testemunho do povo da marquise, em maus e úmidos lençóis.

Completamente molhado, coloquei em prática todas as minhas habilidades ortodônticas em busca de retificar – em tempo real e urgente – as hastes distorcidas. Impossível. É como tentar colocar pasta de dentes de volta ao tubo.

Pior foi ter percebido que a mola havia travado, não permitindo o fechamento do “assimétrico” guarda-chuva. Procurei relaxar. Acontece que o ridículo da cena me consumia: apenas eu caminhava na calçada, segurando um objeto acima da cabeça, todo envergado, pano (preto) rasgado, hastes retorcidas em todas as direções, que, nem de longe, lembrava um guarda-chuva, mais parecendo uma antena parabólica… do Talibã.

Por sorte, visualizei uma caçamba Disk-Entulho e lá depositei meu investimento de R$10,00 que, em seu primeiro teste, foi reprovado com todas as honras e impropérios.

Agora vou até uma farmácia para comprar um antigripal. Não naquela, que fica defronte ao local onde comprei tão precioso objeto.

CD Ricardo Lombardi


9 Respostas to “chuva e saúde”


  1. Avatar de Yuri 1 Yuri
    13/11/2010 às 15:18

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Tava sentindo falta dos textos! Este, por sinal, espetacular!
    Valeu a pena a “saída do Baú”.
    Professor, retificar guarda-chuva é que nem retificar o Morelli 0.6!
    Na primeira você tem vontade de jogar no lixo…
    Mas depois vira craque!
    kkkkkkkkkkkkk

    Abração!

    • 21/11/2010 às 10:20

      Meu caro Yuri: novamente sinto-me feliz e agraciado com seus comentários. Agora, mais ainda, ao perceber que você identificou o grau de dificuldade na retificação de fios ortodônticos. Acredite: bem mais fácil que hastes de “paragua”. Bj, RL

  2. Avatar de Edna Cristina 3 Edna Cristina
    13/11/2010 às 17:23

    Olá,amigo!
    Apesar de já ter tido o privilégio antecipado de ler esse texto (Chuva e Saúde) quando ainda estava no baú, relí e tornei a rir muito. Ainda bem que você tornou possível boas risadas a muitos, quando postou em seu blog essa dose de bom humor. Seria imperdoável não postar.
    Por favor, ressuscite os textos do baú e continue a “brincar com as palavras”. Tenha certeza que seus leitores agradecem.
    Jesus lhe abençoe sempre.

    • 21/11/2010 às 10:24

      Minha doce irmã Edna: “prá lá de bom” receber seus comentários/opiniões, e mais que tudo ver a sua evolução no domínio dessas ‘ferramentas digitais’/risadas/. Bjão,RL

  3. Avatar de Felix 5 Felix
    14/11/2010 às 11:01

    Caro Ricardo.
    Também tenho o privilégio de integrar o pequeno grupo que recebeu este texto, produzido e enviado, salvo engano, em meados de 2008. De fato, sua iniciativa de reenviá-lo, desta feita, para um grupo maior de amigos foi oportuna. Assim considero, entre outros motivos, porque o conteúdo nele inserido continua atualizado e a forma de expor sua angústia e sua impotência ante o inesperado é digna dos melhores cronistas. Por favor, revolva, mais uma vez, o baú porque lá, certamente, existem peças valiosas. Abraços.Felix.

    • 21/11/2010 às 10:33

      Professor-amigo Felix: não é de agora que manifesto a minha gratidão pela forma ‘pedagógica e constante’ com que tenho sido contemplado com os seus incentivos para continuar “brincando com as palavras”. Além do mais, você também possui uma cópia da chave que abre esse ‘baú’. Tenho certeza de que, além de bem guardada, ela está em boas e competentes mãos. Vamos em frente, mestre! Abr,RL

  4. Avatar de Sandra Tavares 7 Sandra Tavares
    14/11/2010 às 18:36

    Olá amigo,

    Estava precisando desta dose de humor, sorri bastante com a leitura. A idéia de abrir o baú foi excelente.abraços, Sandra.

    • 21/11/2010 às 10:37

      Amiga Sandra: muito bom encontrá-la por aqui e saber que a leitura do texto permitiu-lhe momentos de leveza. Grato pela presença e comentários. Volte sempre, você é muito bem-vinda! Bj,RL

  5. Avatar de Jussara Mesquita Cansanção 9 Jussara Mesquita Cansanção
    24/11/2010 às 14:46

    ADOREI, DEI BOAS RISADAS E ME LEMBREI QUE JÁ PASSEI P/ ALGUMAS “ASSIMETRIA” DESSA. SEMPRE EM VIAGENS, PASSO PELA MESMA SITUAÇÃO E COMPRO UM E DO MESMO MODO , FICA NO LIXO DE LÁ.
    POR ISSO , UM DIA , QDO VI UM PERDIDO NUMA LOJA (NUM SHOPPING) AGARREI. ELE É DE FIBRA DE CARBONO,PEQUENO E DE COR LARANJA, IMPERDÍVEL….. SÓ FALTA A CHUVA P/ TESTA-LO.
    BJS. P/ V. e IRENE . JU


Deixe um comentário