Arquivo para novembro \20\America/Recife 2010

20
nov
10

quer um cheiro?

  • Nota prévia: apresento “Quer um Cheiro?”. Outro texto sacado do baú e produzido anos atrás, quando a saudade de São Paulo (bairro do Bom Retiro- mestrado USP) bateu mais forte que o habitual. Aqui, fatos e personagens conseguem mesclar “realidade e fantasia”. É fácil, depende apenas da vontade da imaginação. Beijos, RL

 

QUER UM CHEIRO?

Gente boa o Carlão! Faz tempo que não o encontro. Mas, toda vez que me lembro de suas histórias, fico a pensar na importância de cada um dos nossos cinco sentidos.

Conhecemo-nos em São Paulo, onde dividíamos o aluguel de um quarto, na residência de uma senhora espanhola, chamada Lourdes. Eu, paraibano, recém-formado em odontologia; ele, maranhense, empresário do ramo de limpeza.

O sobrado era antigo, conjugado a inúmeros outros de igual concepção arquitetônica. Sua localização na esquina lhe conferia alguma vantagem, não fosse o fato de, no térreo, e exatamente sob o nosso aposento, funcionar um bar/lanchonete. Logo o batizei de “Tel-Aviv da Catingueira”, uma vez que o bairro era predominantemente de judeus e, claro, de nordestinos.

Do referido estabelecimento, em algumas ocasiões, exalava um cheiro bem desagradável. Quando isto ocorria, eu notava que era sempre minha a primeira manifestação de desconforto, jamais do Carlão. Por mais que o odor evoluísse, meu companheiro estava sempre feliz, satisfeito, como se estivesse pedalando em um jardim de Amsterdã.

Certo dia, o vazamento de um cano, em “Tel-Aviv da Catingueira”, extrapolou a tolerância de qualquer mucosa nasal. Meu desespero foi tamanho que fez o Carlão me confidenciar – e pedir absoluto sigilo – um segredo guardado a sete chaves, e proferido com muita timidez: – eu não possuo olfato!”

Agora, sim, estava tudo explicado e bem evidenciado pela disparidade de comportamentos: de um lado, a minha aflição, nauseado pelo forte odor; do outro, a tranquilidade do meu amigo, completamente alheio ao fato de que, naquele fatídico instante, o planeta estava se transformando em colossal e fétido esgoto.

Do Carlão, guardo na lembrança sua incrível capacidade de transformar o déficit em bônus, através de histórias sempre narradas com exclusividade e requintado humor. Fazia questão de enaltecer os prós e contras de sua incapacidade de sentir cheiro. Em roda de amigos, sempre falava de uma namorada – caso sério – que havia deixado no Maranhão. Observei um fato curioso: todas as vezes que a narrativa era iniciada perante seus conterrâneos, todos, instintivamente, coçavam seus narizes.

Em certo dezembro, a correlação “falar da namorada maranhense/mão no nariz” adquiriu, para mim, motivo de urgente investigação, haja vista o aumento da frequência de repetições do fenômeno. A explicação era que o meu companheiro não parava de falar na proximidade da visita de sua amada maranhense. O Carlão era só felicidade! Tome falar na moça e, relação estabelecida, tome coçada de nariz.

Minha inquietude investigativa findou após ter sido finalmente apresentado (e cumprimentado com os costumeiros dois beijinhos) à bonita, simpática e exuberante Sueli.  A morena era de fato bela, possuidora de todos os predicados femininos, tudo no lugar! Exceção feita ao seu terrível mau hálito. Segurando a respiração, pensei: Nem tudo é perfeito!

Os atributos estéticos e morfológicos da mulata eram verdadeiros caprichos da natureza. Se a conhecessem, os maravilhosos Ivo Pitanguy e Joel Martins* a contratariam como modelo para poderem transmitir aos seus discípulos o “ideal pretendido”, em suas respectivas áreas de atuação.  Claro, desde que a Sueli se mantivesse calada. Abrindo a boca, infelizmente, despertaria a curiosidade médico-odontológica para pesquisar a possibilidade de, eventualmente, existir um encurtamento da distância entre boca e intestino delgado.

Para os íntimos, e olfativamente aptos, chegar a menos de quarenta centímetros daquele monumento significava penetrar numa área de risco, tamanho o odor exalado. Menos para o Carlão.  Aleluia, Senhor!

Recordo-me de uma situação, entre as muitas merecedoras de citação. Aconteceu no laboratório da faculdade, onde eu estava trabalhando na montagem de um caso em articulador. Para melhor desempenho da tarefa, usava lentes de aproximação, daquelas incorporadas a uma viseira que é fixada na cabeça (como boné), com haste de união que possibilita movimento basculante no sentido vertical. Era sábado. A programação agendada era irmos à feijoada do Paulão, com direito a pagode e tudo mais. Êpa! Quase esqueço o mais importante: as lentes só permitiam foco visual dentro de um raio de… quarenta centímetros.

Na hora combinada, chega o casal para me pegar e, juntos, seguirmos ao saboroso encontro. O Carlão, paciente da periodontia, foi visitar aquele setor para remarcar consulta, ficando a Sueli sentada à minha frente do outro lado da bancada que media… cinquenta centímetros. Ufa! Pela primeira vez, tivemos oportunidade de trocar, a sós, algumas palavras.

– Puxa, Ricardo, estou muito feliz. O Cacá (era assim que o chamava) sempre me falou que tem você como um irmão. – É mesmo?! Sinto a mesma coisa por ele. Somos amigos de verdade!

– Pois é! Tenho até medo da felicidade que estou vivendo. Nunca tive um namoro que durasse mais de quinze dias (falou inibida). – Sei! Sei! Entendo! Tenho absoluta certeza de que vocês foram feitos um para o outro.

– Que interessante o que você está fazendo! Posso dar uma olhada mais de perto? (contornou a bancada e veio sentar ao meu lado. Era o que eu temia… distância próxima da área de risco).

– Claro! Por favor! (puxei a cadeira ao lado e, preventivamente, abaixei as lentes de aproximação). – Nossssa! São muitos detalhes, todos minúsculos. Por isso você usa essas lentes grossas, né?

– É…ajuda bastante, sim! Inclusive serve de proteção (respondi olhando diretamente para sua boca, ainda bem que fora de foco. Ao contrário da vida, meu objetivo agora era não encontrar o foco. Toda vez que ele estava chegando… eu recuava a cabeça).

– Pronto, pessoal! Podemos ir! Tudo resolvido. Proclamou o Carlão, para minha alegria plena. Deixamos o ambiente e fomos em direção ao carro. Dentro do veículo, ouço novamente o Carlão: – Êhhh, meu amigo Ricardão! Você está ficando esquecido. Vai pra feijoada com esse troço na cabeça? (risada geral).

– Ôpa, foi mal. Ossos do ofício, meu caro! Menti para o Carlão. (Minha vontade era ficar com as lentes em ação o tempo todo. Principalmente na feijoada). Após aquele episódio, e até hoje, ninguém entende por que eu chamo aquele importantíssimo acessório de “boné da sobrevida”.

Era facilmente perceptível o estado de aflição daqueles que, conhecendo o limite do espaço aéreo, presenciavam o casal trocando afagos, carícias. Ninguém, exceto eu, compreendia de onde vinha a enorme resistência daquele apaixonado moço. Vê-los abraçados representava, para mim, interpretar a perda olfativa, dependendo das circunstâncias, como algo fantástico.

De conformidade com o previsto, após a implantação de sua microempresa “Limpa-Fossas Maranhense”, o Carlão deixou o sobrado e foi morar com a Sueli, que além de esposa, passou a ocupar o cargo de relações públicas da firma. Guardo boas recordações do casal. Para mim, representa a prova inequívoca da existência de almas gêmeas.

Não sei se o problema da Sueli foi resolvido, mas de uma coisa tenho certeza: continuo torcendo bastante para a prosperidade da empresa onde juntos trabalham. Não a conheço, mas estou convicto de que ela ajudou – e muito – a aumentar o limite do espaço aéreo ou, se preferirem, da área de risco.

O amor é lindo!

CD Ricardo Lombardi

* Querido e saudoso amigo. Ortodontista, brilhante pesquisador e professor universitário. Juntos, convivemos em SP na virada dos anos 70/80. Excelente contador de “causos”. A ele, em memória, dedico este texto.


Com o Joel Martins (esq.)

Em pé (esq-dir): Ignácio Román; Cayres; Miguel Régio; Joel Martins; Luiz Álvarez. Sentados: eu e a Irene Ueti (futura esposa).

13
nov
10

chuva e saúde

  • nota prévia: o meu prazer de “brincar com as palavras” ganhou, com os recursos da informática e suas derivações, uma condição de melhor organizar o baú onde eram colocados alguns textos; conhecidos apenas por um pequeno grupo de amigos(as), sob a incômoda forma de envio por email. Agora, talvez como manobra de vingança, estou sendo por eles intimado para, neste blog, postar (ou será melhor ressuscitar?!) alguns desses textos. É esse o motivo que trago o “Chuva e Saúde” -situação por mim vivenciada: 82% no mundo real, e 18% trazida pela fada boa da imaginação. Espero que gostem e continuem a me perdoar. Beijos & abraços, RLombardi

 

CHUVA E SAÚDE!

Periodicamente, subo no trem da prevenção e faço uma revisão geral, conhecida por  check-up, ou, como prefere o mestre Ariano Suassuna, exame da carcaça e do conteúdo. Geralmente isso acontece entre os meses de junho/julho, período de chuvas que parece servir à introspecção em todo o seu sentido.

A cada ano, essa rotina vem exercitando, de forma progressiva, o meu lado hipocondríaco e, de maneira inversa e saudosista, distanciando-me do meu lado atleta-sarado. A novidade, desta vez, foi minha decisão de não buscar mais desculpas para permitir espaço ao sedentarismo, um dos grandes vilões da modernidade.

Chega de desculpas amarelas! Está decidido: Não vou mais consentir que o tempo chuvoso e feio sirva de justificativa para não levantar cedo (cinco horas) e abdicar do exercício mínimo e diário de caminhar quatro a cinco quilômetros. Providência inicial desta minha mais recente metamorfose foi comprar um guarda-chuva, acessório que jamais imaginei ser utilizado em minha querida João Pessoa, muito menos como utensílio associado à busca pela longevidade.

Onde comprar?! Lembrei-me de já ter percebido que alguns comerciantes do mercado informal fazem ponto nas portas de bancos, padarias e farmácias, expondo, para venda, meu novo sonho de consumo. Um pouco sem jeito, parecendo estar comprando coisas proibidas, indaguei ao vendedor (de forte sotaque paraguaio) qual o modelo que ele me aconselharia como companheiro nas minhas caminhadas matinais.

Fazendo parte da resposta veio uma coreografia caótica. Demonstrando uma prática invejável, o vendedor deu início, de forma frenética, a uma sessão de abre-e-fecha de guarda-chuvas. A demonstração tinha teor didático, pois fiquei sabendo que o ponto principal da avaliação era constatar a potência da mola que gerava a abertura automática do equipamento.

A cena, agora, estava enriquecida com linda sonoplastia: Splash! Vrumm! Crash! O ambiente estava ficando tumultuado. Alguns concorrentes, vendo chegar um consumidor leigo no assunto, passaram também a demonstrar a potencialidade das molas dos seus artigos – absolutamente iguais, pois tinham a mesma origem: China, Paraguai, 25 de Março e, pasmem, Juazeiro do Norte. Os provenientes dessa região, com o bônus da bênção de padre Cícero, eram absolutamente virgens, a julgar pelo irrisório índice pluviométrico ali verificado.

Querendo consumar o assunto, fiz as duas últimas perguntas: – Este aqui, agüenta muita chuva?

– Meu doutor, veja este produto (vrumm!), coisa de primeira qualidade (splash!), pode levar sem medo (crash!). Qualquer coisa venha trocar, meu ponto é aqui e todos me conhecem.

– Por favor, pare a demonstração e me responda: Qual o preço? – Veja bem! O produto me custa R$ 20,00, mas sabe como é… aqui no Nordeste tem pouca saída… vendo por R$12,00… lhe faço por R$10,00. Mas não comente com ninguém, certo?

Paguei e saí rápido, levando, além do guarda-chuva, uma sensação de conquista e alívio. Agora era só esperar pelo toró. A expectativa pela estreia foi tanta que não precisei usar o despertador. Acordei às 4:30 e vibrei com a chuva que caía. Valeu, São Pedro!

Estava escuro quando desci do carro. Para meu espanto (e sádica satisfação, confesso), percebi que não havia sido o primeiro a chegar. Cumprimentei, orgulhoso um grupo de pessoas que – inertes – se protegiam sob uma marquise, esperando a chuva passar. Acionei, pela primeira vez, a famosa mola e…. vrumm… o guarda-chuva abriu-se sob o olhar incrédulo da pequena platéia. O prazer foi tão grande que imagino ter ouvido aplausos.

Ainda observado pelo grupo da marquise, atravessei a rua em direção à calçada da orla. Logo percebi que alguma coisa estava, apocalipticamente, fora de ordem. O mar, bastante revolto, batia forte no muro de proteção; ventos alísios e contra-alísios pareciam duelar para saber quem era o mais forte. Não deu outra: ouvi um abafado truimmm. Olhei para cima e vi, uma a uma, as varetas do meu parágua (é assim que se chama no Paraguai) levantando em sentido contrário e me deixando, sob o olhar curioso e irônico testemunho do povo da marquise, em maus e úmidos lençóis.

Completamente molhado, coloquei em prática todas as minhas habilidades ortodônticas em busca de retificar – em tempo real e urgente – as hastes distorcidas. Impossível. É como tentar colocar pasta de dentes de volta ao tubo.

Pior foi ter percebido que a mola havia travado, não permitindo o fechamento do “assimétrico” guarda-chuva. Procurei relaxar. Acontece que o ridículo da cena me consumia: apenas eu caminhava na calçada, segurando um objeto acima da cabeça, todo envergado, pano (preto) rasgado, hastes retorcidas em todas as direções, que, nem de longe, lembrava um guarda-chuva, mais parecendo uma antena parabólica… do Talibã.

Por sorte, visualizei uma caçamba Disk-Entulho e lá depositei meu investimento de R$10,00 que, em seu primeiro teste, foi reprovado com todas as honras e impropérios.

Agora vou até uma farmácia para comprar um antigripal. Não naquela, que fica defronte ao local onde comprei tão precioso objeto.

CD Ricardo Lombardi