- Nota prévia: apresento “Quer um Cheiro?”. Outro texto sacado do baú e produzido anos atrás, quando a saudade de São Paulo (bairro do Bom Retiro- mestrado USP) bateu mais forte que o habitual. Aqui, fatos e personagens conseguem mesclar “realidade e fantasia”. É fácil, depende apenas da vontade da imaginação. Beijos, RL
QUER UM CHEIRO?
Gente boa o Carlão! Faz tempo que não o encontro. Mas, toda vez que me lembro de suas histórias, fico a pensar na importância de cada um dos nossos cinco sentidos.
Conhecemo-nos em São Paulo, onde dividíamos o aluguel de um quarto, na residência de uma senhora espanhola, chamada Lourdes. Eu, paraibano, recém-formado em odontologia; ele, maranhense, empresário do ramo de limpeza.
O sobrado era antigo, conjugado a inúmeros outros de igual concepção arquitetônica. Sua localização na esquina lhe conferia alguma vantagem, não fosse o fato de, no térreo, e exatamente sob o nosso aposento, funcionar um bar/lanchonete. Logo o batizei de “Tel-Aviv da Catingueira”, uma vez que o bairro era predominantemente de judeus e, claro, de nordestinos.
Do referido estabelecimento, em algumas ocasiões, exalava um cheiro bem desagradável. Quando isto ocorria, eu notava que era sempre minha a primeira manifestação de desconforto, jamais do Carlão. Por mais que o odor evoluísse, meu companheiro estava sempre feliz, satisfeito, como se estivesse pedalando em um jardim de Amsterdã.
Certo dia, o vazamento de um cano, em “Tel-Aviv da Catingueira”, extrapolou a tolerância de qualquer mucosa nasal. Meu desespero foi tamanho que fez o Carlão me confidenciar – e pedir absoluto sigilo – um segredo guardado a sete chaves, e proferido com muita timidez: – “eu não possuo olfato!”
Agora, sim, estava tudo explicado e bem evidenciado pela disparidade de comportamentos: de um lado, a minha aflição, nauseado pelo forte odor; do outro, a tranquilidade do meu amigo, completamente alheio ao fato de que, naquele fatídico instante, o planeta estava se transformando em colossal e fétido esgoto.
Do Carlão, guardo na lembrança sua incrível capacidade de transformar o déficit em bônus, através de histórias sempre narradas com exclusividade e requintado humor. Fazia questão de enaltecer os prós e contras de sua incapacidade de sentir cheiro. Em roda de amigos, sempre falava de uma namorada – caso sério – que havia deixado no Maranhão. Observei um fato curioso: todas as vezes que a narrativa era iniciada perante seus conterrâneos, todos, instintivamente, coçavam seus narizes.
Em certo dezembro, a correlação “falar da namorada maranhense/mão no nariz” adquiriu, para mim, motivo de urgente investigação, haja vista o aumento da frequência de repetições do fenômeno. A explicação era que o meu companheiro não parava de falar na proximidade da visita de sua amada maranhense. O Carlão era só felicidade! Tome falar na moça e, relação estabelecida, tome coçada de nariz.
Minha inquietude investigativa findou após ter sido finalmente apresentado (e cumprimentado com os costumeiros dois beijinhos) à bonita, simpática e exuberante Sueli. A morena era de fato bela, possuidora de todos os predicados femininos, tudo no lugar! Exceção feita ao seu terrível mau hálito. Segurando a respiração, pensei: Nem tudo é perfeito!
Os atributos estéticos e morfológicos da mulata eram verdadeiros caprichos da natureza. Se a conhecessem, os maravilhosos Ivo Pitanguy e Joel Martins* a contratariam como modelo para poderem transmitir aos seus discípulos o “ideal pretendido”, em suas respectivas áreas de atuação. Claro, desde que a Sueli se mantivesse calada. Abrindo a boca, infelizmente, despertaria a curiosidade médico-odontológica para pesquisar a possibilidade de, eventualmente, existir um encurtamento da distância entre boca e intestino delgado.
Para os íntimos, e olfativamente aptos, chegar a menos de quarenta centímetros daquele monumento significava penetrar numa área de risco, tamanho o odor exalado. Menos para o Carlão. Aleluia, Senhor!
Recordo-me de uma situação, entre as muitas merecedoras de citação. Aconteceu no laboratório da faculdade, onde eu estava trabalhando na montagem de um caso em articulador. Para melhor desempenho da tarefa, usava lentes de aproximação, daquelas incorporadas a uma viseira que é fixada na cabeça (como boné), com haste de união que possibilita movimento basculante no sentido vertical. Era sábado. A programação agendada era irmos à feijoada do Paulão, com direito a pagode e tudo mais. Êpa! Quase esqueço o mais importante: as lentes só permitiam foco visual dentro de um raio de… quarenta centímetros.
Na hora combinada, chega o casal para me pegar e, juntos, seguirmos ao saboroso encontro. O Carlão, paciente da periodontia, foi visitar aquele setor para remarcar consulta, ficando a Sueli sentada à minha frente do outro lado da bancada que media… cinquenta centímetros. Ufa! Pela primeira vez, tivemos oportunidade de trocar, a sós, algumas palavras.
– Puxa, Ricardo, estou muito feliz. O Cacá (era assim que o chamava) sempre me falou que tem você como um irmão. – É mesmo?! Sinto a mesma coisa por ele. Somos amigos de verdade!
– Pois é! Tenho até medo da felicidade que estou vivendo. Nunca tive um namoro que durasse mais de quinze dias (falou inibida). – Sei! Sei! Entendo! Tenho absoluta certeza de que vocês foram feitos um para o outro.
– Que interessante o que você está fazendo! Posso dar uma olhada mais de perto? (contornou a bancada e veio sentar ao meu lado. Era o que eu temia… distância próxima da área de risco).
– Claro! Por favor! (puxei a cadeira ao lado e, preventivamente, abaixei as lentes de aproximação). – Nossssa! São muitos detalhes, todos minúsculos. Por isso você usa essas lentes grossas, né?
– É…ajuda bastante, sim! Inclusive serve de proteção (respondi olhando diretamente para sua boca, ainda bem que fora de foco. Ao contrário da vida, meu objetivo agora era não encontrar o foco. Toda vez que ele estava chegando… eu recuava a cabeça).
– Pronto, pessoal! Podemos ir! Tudo resolvido. Proclamou o Carlão, para minha alegria plena. Deixamos o ambiente e fomos em direção ao carro. Dentro do veículo, ouço novamente o Carlão: – Êhhh, meu amigo Ricardão! Você está ficando esquecido. Vai pra feijoada com esse troço na cabeça? (risada geral).
– Ôpa, foi mal. Ossos do ofício, meu caro! Menti para o Carlão. (Minha vontade era ficar com as lentes em ação o tempo todo. Principalmente na feijoada). Após aquele episódio, e até hoje, ninguém entende por que eu chamo aquele importantíssimo acessório de “boné da sobrevida”.
Era facilmente perceptível o estado de aflição daqueles que, conhecendo o limite do espaço aéreo, presenciavam o casal trocando afagos, carícias. Ninguém, exceto eu, compreendia de onde vinha a enorme resistência daquele apaixonado moço. Vê-los abraçados representava, para mim, interpretar a perda olfativa, dependendo das circunstâncias, como algo fantástico.
De conformidade com o previsto, após a implantação de sua microempresa “Limpa-Fossas Maranhense”, o Carlão deixou o sobrado e foi morar com a Sueli, que além de esposa, passou a ocupar o cargo de relações públicas da firma. Guardo boas recordações do casal. Para mim, representa a prova inequívoca da existência de almas gêmeas.
Não sei se o problema da Sueli foi resolvido, mas de uma coisa tenho certeza: continuo torcendo bastante para a prosperidade da empresa onde juntos trabalham. Não a conheço, mas estou convicto de que ela ajudou – e muito – a aumentar o limite do espaço aéreo ou, se preferirem, da área de risco.
O amor é lindo!
CD Ricardo Lombardi
* Querido e saudoso amigo. Ortodontista, brilhante pesquisador e professor universitário. Juntos, convivemos em SP na virada dos anos 70/80. Excelente contador de “causos”. A ele, em memória, dedico este texto.


