Trânsito como agente da paz
Faltando apenas algumas poucas horas para que a Paraíba conheça os seus eleitos estaduais, observo certa desmotivação em eleitores que, como eu, não se deixaram seduzir pelos encantos dos astros e estrelas que desfilaram nos guias eleitorais e congêneres. Confesso que não foi por falta de opções; mas talvez pelo excesso das mesmas, e principalmente pela pluralidade de estilos.
Angustiado com a minha letárgica capacidade de opção/voto, tornei-me assíduo consumidor de várias modalidades de noticiários políticos. Felizmente, logo percebi – pela abundância de ofertas – que isso poderia ser letal. Já pensou: – ”morreu de quê?! – Sei não! Parece que consumiu uma overdose de guia eleitoral”. Lascou-se!
Um fato que contribuiu para fechar o diagnóstico desta minha inércia cívico-eleitoral, por incrível que pareça, aconteceu, dias atrás, em pleno engarrafamento de trânsito em uma das principais avenidas da cidade. O motivo foi uma discreta colisão – dianteira de um, na traseira do outro – de dois carros; particulares e bem vistosos.
Foi exatamente esse último detalhe que me encheu de curiosidade para aproximar-me do acidente, enquanto anônimo e solidário transeunte: o carro da frente estava totalmente preenchido com adesivos de candidatos pertencentes à falange VERMELHA; enquanto o de trás, igualmente camuflado com peças publicitárias de tons LARANJA!
Ambos os veículos eram dirigidos por duas jovens senhoras que, pelo vocabulário e altura dos decibéis usados em seus iPhones, deviam ser parentes de candidatos ou, no mínimo, pessoas fortemente ligadas à coligação (!?).
– Pois, é! A idiota da frente parou de repente! Depois não aceita quando dizemos que vivem parados no tempo e olhando pelo retrovisor! – Logo percebi que o diálogo, rico em metáforas, poderia ser promissor para definição do meu voto! Ledo engano…
– Idiota, uma porra! Vocês é que vivem falando em saltar pra frente, desconhecendo a importância do freio! O sinal estava deixando de ser verde!
– Calma aí! Eu sou testemunha e pertenço ao partido VERDE. Melhor a senhora dizer em seu depoimento que o sinal estava deixando de estar aberto, para não parecer uma forma de retaliação partidária – comentou um rapaz de barba e bolsa (ambos longos), vestido com uma camiseta estampada com um imenso 43/Marina.
– Não tem nenhum problema, ô do’alface! Essa moça aqui está desde o início, ela viu tudo, e com certeza pode ser minha testemunha.
– Ver, eu vi! Mas não quero nem posso ser testemunha para não quebrar meus princípios e disciplinamentos partidários. Pertenço ao PCO e, para nós, trabalhador não protege burguês! Eita, doeu!
– E tem mais, madames! Não dou nenhuma colaboração a presente pauta de discussão, até porque ambos os veículos usam combustível não renovável, além de estarem causando o maior desastre ecológico já visto nesta cidade desde o protocolo de Kyoto! – ponderou (claro) o representante da camada de ozônio.
Deu pra sentir que aquele cruzamento havia se transformado em uma magnífica versão contemporânea da torre de Babel. A cada minuto que passava mais eu adquiria consciência da proximidade do Apocalipse. Sigamos…
– Alguém já ligou para o STTrans?! – indagou um jovem da janela do ônibus parado.
– Epa! Vamos com calma! O STTrans é municipal. Com certeza vai proteger a patota da cor LARANJA – retrucou a representante da facção ENCARNADA.
– Calma pessoal! Devemos acreditar na imparcialidade dos órgãos públicos! – disse uma garotinha de óculos, com a sabedoria (e inocência) dos seus doze aninhos.
– Olha mamãe! No carro da frente o candidato é amigo do Lula e da Dilma! – exclamou ainda a garotinha repleta de ignorante inocência.
– Ôxen, minha filha! Nós também somos! Apenas não colocamos o adesivo grande com a foto deles, por conta das coligações partidárias – respondeu a motorista rica em vitamina C.
– Mas, por que então a senhora não botou a foto do Zé Serra?! – perguntou a menina pentelha, já recebendo um beliscão da sua genitora.
– Minha senhora, dê mais educação a sua filhota. Cada pergunta…!?!
– De minha filha, eu sei cuidar! Ela fica questionando assim, porque no colégio ela vive explicando porque eu e meu marido votamos em Eymael!
– EM QUEMMMMMM?! – todos gritaram em uníssono.
Infelizmente, não pude mais permanecer no local. Após uma hora e meia, o mesmo havia se transformado em “praça de panfletagem” com a recém chegada militância do PSTU, PSOL, PCdoB, e até de adeptos do yôga, divulgando uma nova academia que seria inaugurada logo mais. Onde ela fica?! Fácil, é vizinha aquela igreja igualmente inaugurada semana passada.
Outro fato que me motivou à retirada, foi que as duas motoristas descobriram possuir um parentesco em comum, e já estavam amigavelmente trocando informações sobre quem melhor estava fazendo tingimento de cabelos na cidade:
– Olha amor! Mas você garante que ele não deixa muito vermelho?!
– Que nada! É só você pedir pra ficar alaranjado como o meu!
Ganhou a liberdade democrática! Agora o risco é por conta da estética capilar!
- Em tempo: claro que todo o texto é fruto da imaginação. Ou não! /kkk

kkkkkkkk
Digno de uma peça teatral…Dava para investir Lombardi!
Muito boa leitura, excelente para “desopilar” um pouco das obrigações acadêmicas!
Forte abraço!
Valeu, Yuri: os textos que buscam tirar de cenas do cotidiano, aquilo que elas possuem de mais risível; tornam, de fato, a vida mais leve. Gosto de investir na proposta. Bj, RL
Meu caro Dr. Ricardo. Seu texto, mais uma vez, dá um banho de criatividade, acompanhado de uma boa dose de ironia. Se você atribuísse aos personagens nomes de animais, seu texto se transformaria numa fábula. E, como você sabe, uma fábula traz sempre ao final uma frase expressando uma mensagem de conotação educativa ou moral. Caso seu texto fosse uma fábula, a mensagem “educativa” poderia ser expressa na seguinte frase: “Os políticos brigam, mas sempre, ao final, acabam se entendendo”.
Saudações democráticas.
Felix
Caro mestre/amigo Felix: seu belo comentário me faz pensar que podemos correr sério risco em atribuir às pessoas, nomes de animais. O suporte deste pensamento vem de um historiador português, Alexandre Herculano, ao citar: “Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais”. Por enquanto, melhor não desejarmos saber o que eles (animais) pensam de nós. Tenho medo da recíproca/kkk. Abs, RL
Assim eu fiquei mais indecisa kkkkkkkkk…tô de saída pra votar aki em Pombal, o calor tá cozinhando meus miolos e a indecisão agora me atormenta, ainda mais depois de ler seu texto , fiquei foi louca kkkkkkkkkkkk!!!!!!!!!!
Aki vou ficando na expectativa da comemoração logo mais a noite!!!!!!!
Bjsssssssssssss
Oi, fofa: não é bem o calor de Pombal que cozinha seu juízo para votar, mas sim o receio de estarmos fazendo a escolha certa. Vamos continuar “aquecidos” no sonho que, um dia, as coisas mudem – para melhor, claro! Bjs, RL
Mt bom!
E a onda verde chegou no meio do deserto: Campo Alegre de Lourdes – BA.
MAAAAAAAAAAAAAAAARINA!
Bjs
Oi, Tani: ♫ Marina, morena Marina, você ME pintou ♫! O mestre Dorival (BA) sempre soube do bem que o VERDE faz! Bjs, RL