Eu, inteiro, porém mais curto!
– Pronto senhor, o seu táxi chegou! Foi com esta frase que a simpática enfermeira do hospital sinalizou, à porta do apartamento, a chegada de um moço forte que manobrava uma cadeira de rodas vazia. Entendi que ali estavam; motorista e táxi, que iriam me conduzir ao ato cirúrgico programado para reconstrução do trânsito intestinal.
Sempre identifiquei que instantes dessa natureza possuem grande poder doutrinário. Eles nos permitem, sem nenhum direito à réplica, conceber a exata dimensão do que realmente somos. Sentar naquele “táxi”, apenas e sumariamente vestido com uma bata; segurando ao colo um surrado envelope com os últimos exames realizados; ser solicitado a retirar (até) os óculos, faz-nos enxergar – com absoluta propriedade – a pequenez, enquanto matéria, do ser humano.
O contraponto que suaviza essa ”visão liliputeana” atinge o seu ponto alto no momento em que as manifestações de despedidas são feitas entre o passageiro e seus entes queridos: – “Boa sorte! Vai dar tudo certo! Ficaremos aqui aguardando a sua volta! Estaremos orando por você! Confie em Deus!”.
Sem nenhuma dúvida, a cultura e a fé cristã concedem aos seus adeptos (sou um deles) um fantástico e revigorante estímulo que nos faz crescer na convicção balsâmica de que somos meramente efêmeros personagens de uma dádiva chamada VIDA.
Pensar assim, confirma a imperiosa necessidade de conquistarmos o equilíbrio e perfeita coexistência entre corpo e espírito. Saber incorporar essa harmonia como estilo de vida, certamente nos permitirá mais condições de absorver e superar desafios; significa dizer: viver com mais plenitude. Viver em consonância com o projeto de DEUS.
O percurso no táxi até o centro cirúrgico foi brevíssimo. E relaxante. Permitiu ao pudico passageiro (acreditem, eu!) esboçar um sorriso frente à sua infrutífera tentativa de bloquear com o envelope a exposição pública de suas partes íntimas. Afinal, pensei, estou sendo deslocado para uma mesa cirúrgica, e não para Tambaba*.
Já na ante-sala, apalpei em tom de despedida a derradeira bolsa de colostomia que, durante 287 dias, possibilitou-me a grande e inusitada oportunidade de – literalmente – conviver com outro magnífico ditado popular: – “Tô cagando e andando!”
A cirurgia foi um sucesso! Estou em casa reaprendendo a fazer cocô pelas vias naturais; apenas encurtadas em alguns centímetros. Agora entendo fazer sentido a expressão: “sentado no troninho”, sempre que nos referimos a alguém que está operacionalizando excrementos. Está perfeita! É mesmo um ato de pura realeza – acreditem!
Beijos, abraços, e permitam-me usar uma expressão do teatro (encaixada aqui de forma bem pertinente): MERDA** para todos! Valeu gente!
CD Ricardo Lombardi de Farias
(*) praia de naturismo/nudismo – litoral sul da PB: http://360graus.blog.com/2010/07/12/tambaba-praia-de-naturismo-em-joao-pessoa/
