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ago
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dia dos pais – apenas um ensaio marítimo

DIA DOS PAIS – apenas um ensaio marítimo

Soa como lugar-comum observarmos que o TEMPO já não está mais passando; mas sim, voando! O fenômeno torna-se melhor percebido na medida em que a turbulência dos afazeres diários vai-nos exigindo um irracional desprendimento de energia, sutilmente lembrado pelo grande timoneiro Fernando Pessoa*: …“navegar é preciso, viver não é preciso”.

Em silêncio, e não obstante a dimensão do maremoto que cada um busca para si, o nosso relógio-biológico está sempre contabilizando a inexorável marcha do tempo; cabendo à memória o armazenamento das inúmeras cartas de navegação.

Envolvido com tais pensamentos, o experiente navegador sentou-se à beira do cais, onde ficou, pacientemente, aguardando a embarcação que traria um de seus filhos, prestes a retornar após uma longa viagem de cinco anos e meio navegando em águas hipocráticas de seu curso de medicina, feito em mares diferentes de Tambaú.

Apenas a suave brisa do entardecer, mansamente afagando os cabelos grisalhos que excediam ao seu boné, mantinha cumplicidade com os pensamentos daquele professor de navegação (equivalente a professor universitário), conhecido na vila como tio Lombardinho.

A julgar pelo seu apego ao ofício de formar navegadores, certamente o velho marujo estava bem mais identificado em contemplar embarcações que deixam o porto, ao invés daquelas que chegam ao porto. Dizia sempre: “as que partem, levam a saudade dos sobrinhos, e a certeza do dever cumprido. As que chegam, trazem novos desafios, e a incerteza de lições ainda não aprendidas”.

A exceção a esta regra estava próxima de acontecer. Durante a última meia década, conviveu com a satisfação – enquanto PAI – de saber que seu filho estava sendo formado em uma escola superior de ótima referência. Porém – enquanto MESTRE – conviveu com uma espécie de vácuo, pela impossibilidade de não poder validar (in loco) a transformação de um ente querido: de adolescente, a doutor.

Sobre este delicado ponto, em certa ocasião, mantive com ele um diálogo bastante pedagógico:

  • – E aí, tio Lombardinho?! Muita saudade do filhão?!
  • – Sim, muita! Mas vou lhe confidenciar que estou aprendendo muito com um mecanismo compensatório que, feliz e naturalmente, coloco em prática a todo instante.
  • – Posso saber qual é?!
  • – Claro que sim! O mesmo não me pertence, é ofertado pela própria VIDA. Basta saber usá-lo de maneira honesta e correta.
  • – Conte-me, então?!
  • – É tão somente transformar cada sobrinho (aluno) em um filho. É fácil, pois todos eles estão na mesma faixa etária. Certamente possuem as mesmas inquietudes e prazeres deste lindo momento de suas vidas. Basta ouvi-los, e vê-los como interagem entre si. Mesmo que você acredite já conhecer o caminho, se for convidado, aceite acompanhá-los. É muito saboroso aprender com eles novos rumos, e comungar com suas tentativas de erros e acertos. O TEMPO REAL é deles; a EXPERIÊNCIA é (talvez) minha; ou melhor, veio com os mares dantes navegados.

Confesso que, após o diálogo, passei a duvidar que a Síndrome de Peter Pan seja – de fato – um tipo de patologia na área da Psicologia. A julgar pelo ”estilo tio Lombardinho”, parece que o quadro é ilustrativo de perfeita sanidade física/mental, além de ser mantenedor de ótima longevidade – assim penso e espero!

O navio finalmente atraca no porto seguro. O aguardado passageiro é recebido com um forte abraço do velho lobo do mar; enquanto, em casa, a tia Irene abre as janelas do quarto e arruma a cama do mais novo navegador.

Certamente o melhor presente para o Dia dos Pais, é a chegada – mesmo que temporária – de um filho que, igual a muitos sobrinhos, está pronto para enfrentar tempestades e calmarias, no eterno desbravamento de novos oceanos.

Beijos, e boa navegação para todos – sempre!

CD Ricardo Lombardi de Farias

* ”Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]


6 Respostas to “dia dos pais – apenas um ensaio marítimo”


  1. Avatar de Esther (Bandeirinha) 1 Esther (Bandeirinha)
    08/08/2010 às 06:04

    Nossa professor… nesse texto o senhor detonou hein?!
    quanto aos novos navios que surgirão quero lhe dizer uma coisa: o senhor já tem a arte de conquistá-los… talvez não lhe chamem de tio Lombardinho, mas com certeza levarão todo conhecimento e exemplo que o senhor transmite.

    sou sua fã!!! :o)

    saudades do senhor e tia irene…

  2. 08/08/2010 às 09:08

    Helowww my sweet little flag: tudo bem por aí/SP?! O fato de você ter sido uma das criadoras do “tio Lombardinho”, lhe transforma – no mínimo – em cúmplice desta minha “leitura marítima”. Com relação aos “novos passageiros” que chegam, tenho certeza que muitos suprirão a ausência deixada por você, e por vários outros. Essa é a rotina da VIDA; digo, do cais. Bjus, RL e tia Irene.

  3. Avatar de Gustavo 3 Gustavo
    08/08/2010 às 10:31

    Grande Tio Lombardinho!Com seus textos sempre nos alegrando!Não é á toa que o nome de nossa turma é o seu!

    Abraço cara!

  4. 08/08/2010 às 12:37

    Oi, Gustavo: fico feliz de levar boas energias sob a forma de textos. Talvez seja uma pequeníssima forma de retribuir todas as manifestações de carinho dessa querida turma. Bjs, RL

  5. Avatar de Jussara Mesquita Cansanção 5 Jussara Mesquita Cansanção
    09/08/2010 às 16:29

    Olá, amigo. Que lindo o que v. escreveu… É dizem q se cria filhos p/ o mundo mas, como é dificil p/ os pais vê-los indo p/ o mundo e pior ainda, é qdo eles quererem ficar em casa…
    Eu passei pela experiencia de sair de casa – fui fazer pg em Bauru – um pouco mais tarde mas, se considerarmos a época 1977 , quase igual. E fui muito muito feliz. Encontrei varios “lombardinhos” e duas novas familias . Elas me acolheram e ainda hoje sou a irmã mais velha de uma ou a irmã mais nova , de outra.Continuamos nossa amizade , a conversa continua como se tivesse sido interrompida ontem , viajamos juntos e choramos juntos pq as familias mudaram, perdemos alguns , adicionamos outros mas, a importancia delas p/ mim , p/ minha vida ,continua até hoje.
    Voltei p/ minha casa pq queria voltar p/ minha familia , minha cidade e voltei com mais confiança em mim e mais amor por todos e por tudo. Aprendi a valorizar mais ainda todos e tudo . E entendi o sacrificio de meus pais em me deixar ir…
    Navegar é preciso mas,saber q se tem um porto seguro p/ retornar sempre q se quer , faz a viagem ser melhor ainda. E vs pais controi isso p/ nós.
    Bjs. p/ v. e Irene . Jussara

    • 09/08/2010 às 17:23

      Querida JU: temos você como uma “irmã argonauta” muito especial. Sabemos que a importância de navegar só é menor do que a arte de fazer novos amigos. De nada adiantaria deixarmos nossos portos seguros, singrarmos mares revoltos, e não colhermos novas (e positivas) experiências. Você sabe fazer isso muito bem, pois leva junto muita Dignidade que, em terras estranhas, tem a mesma importância da LUZ de um farol para navegantes sem rumo. Com você à bordo, qualquer bússola torna-se obsoleta. Bjus, RL e Irene.


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