Arquivo para agosto \28\America/Recife 2010

28
ago
10

eu, quase por inteiro!

Eu, quase por inteiro!

Prólogo: Um dos maiores predicados dos brasileiros, especialmente dos nordestinos, é a capacidade de sintetizar uma situação pontual, ou mesmo exprimir uma filosofia de vida, através de riquíssimos provérbios, vulgarmente conhecidos como ditos populares. 

Sem dúvida alguma, trata-se de um sólido patrimônio cultural. Concebido como espécie de máxima sentença, popularizada ou consagrada pelo uso; sem a necessidade de possuir domínio autoral, ou coisa que o valha.

A amostragem é imensa; além de eclética! Sua utilização pode ser feita de forma indiscriminada. Não importa se o momento é de felicidade, ou de tristeza; muito menos se o ambiente é religioso, ou profano. Também não faz distinção social; haja vista que é praticada tanto pela nobreza, quanto pela plebe rude.

Conteúdo: Ultimamente, tenho dedicado especial atenção a um deles: “quem tem c*, tem medo!”. Por favor, peço que não me perguntem a origem do mesmo; como também não façam pré-julgamentos sobre esta minha opção anatomo-psicológica, antes de finalizarem (assim espero) a presente leitura.

Inicio confirmando que o silogismo contido no ditado não pode ser interpretado como verdade absoluta. Posso aqui garantir-lhes que a ausência (funcional e transitória) do importante detalhe anatômico (c*), não anula a existência do estado psicológico (medo). Trocando em miúdos: “quem NÃO tem c*, TAMBÉM tem medo!”.

A explicação é simples, além de conhecida pela maioria dos meus amigos; muitos dos quais me honram como freqüentadores deste blog. O fato é que me encontro colostomizado, desde os meados de novembro do ano passado, após cirurgia para remoção de lesão na região do cólon intestinal.

Numa boa, viu gente! Significa dizer que estou, há exatos 285 dias, utilizando um circuito alternativo para atender às exigências fisiológicas pertinentes ao maravilhoso e sublime ato de defecar. Equivale dizer que estou com o meu c* interditado para o desempenho de suas naturais (e antropológicas) funções. Literalmente, posso apregoar: fechado para obras! (risadas).

Epílogo: Semana que vem, estarei sendo submetido a uma intervenção cirúrgica (etapa de tratamento previamente programada) para reconstrução do trânsito intestinal. Mesmo consciente de que; o corpo e o espírito encontram-se (e mantém-se) revigorados na FÉ, a ansiedade do momento, e o prazer de escrever, trouxeram-me inspiração ao presente texto.

Espero que o conteúdo do tema abordado não faça com que eu perca alguns visitantes deste blog. Meu intuito é querer dividir com vocês – de forma risível – um pouco deste crescimento mental e espiritual, que se torna tangível sempre que o ser humano se depara com fortes desafios a serem superados. E vencidos, como vem acontecendo.

Pelo exposto, resta-me apenas uma forma de finalizar: agradecendo a DEUS, e a todos os sinais que dão-nos a certeza de que ELE nos quer vitoriosos – sempre!

Grato pelo AMOR, e por todas as manifestações de torcida! Sigamos juntos!

CD Ricardo Lombardi de Farias

22
ago
10

voto difícil

VOTO DIFÍCIL

Das duas, uma: ou é mesmo difícil votar na Paraíba, ou eu sou um eleitor atípico aos padrões ora vigentes. Nesta linha de raciocínio, antecipo que não me considero alienado; jamais anulei (nem anularei) um voto e, como cidadão, sempre me empenhei, quando consultado, em escolher o melhor para o meu prédio, minha rua, meu bairro, minha cidade, meu estado, e meu país.

Talvez o fator responsável por este martírio seja o critério seletivo adotado. Continuo garimpando à procura de representantes (não importa o gênero ou o desvio padrão de sua opção sexual) que possam corresponder à confiança traduzida pelo voto.

Percebo que este é um ponto difícil, pois as pessoas foram abduzidas pelos partidos políticos de suas conveniências ou, melhor dizendo, de suas convicções ideológicas. Claro que a conseqüência deste processo de fagocitose é que a criatura humana (candidato ou candidata) renuncia à sua individualidade em detrimento do seu compromisso com a corporação escolhida.

Como se não bastasse, os partidos também abdicam de suas já fragilizadas “convicções doutrinárias” em troca das chamadas coligações/alianças que lhes assegurem mais tempo de mídia e maior redução na possibilidade de destacar valores individuais que não sejam de interesse do grupo; agora inchado.

Percebi o tamanho da encrenca quando solicitei a um amigo candidato que me enviasse algum material de campanha para que eu, modestamente, pudesse divulgar o seu nome entre pessoas do meu relacionamento. Fiquei surpreso quando recebi um farto e ostentoso material. Pena que em nenhuma das peças publicitárias aparecia (como eu esperava) a foto do meu amigo/candidato sozinho; mas sempre acompanhado de outras ilustres personalidades do seu partido.

Mesmo compreendendo a logística de campanha partidária, senti-me frustrado nesta minha primeira experiência como cabo eleitoral. Enquanto imaginava que iria receber alguns santinhos (é o novo!) do meu amigo/candidato, recebi mesmo foi uma amostra fotoshopeada de representantes tanto do céu, quanto do inferno; segundo as minhas convicções eleitorais – cada vez mais tênues.

Agradeci ao amigo/candidato pelo envio do vistoso material panfletário. Disse-lhe que ficaria com algumas poucas unidades de um único modelo (o mais simples) que fazia menção à sua pessoa e às suas idéias de forma individualizada; mas não com os demais, elaborados de maneira coletivizada.

Assegurei-lhe a fidelidade do meu humilde e criterioso voto. Mesmo sabendo que, se eleito, será difícil vê-lo atuar durante os quatro anos de mandato, com a mesma liberdade que tive – em trinta segundos – de manifestar o meu “obrigatório” direito de escolha.

Por enquanto é isso! Depois voltaremos ao tema “voto pensado é voto desprezado”.

 CD Ricardo Lombardi de Farias

07
ago
10

dia dos pais – apenas um ensaio marítimo

DIA DOS PAIS – apenas um ensaio marítimo

Soa como lugar-comum observarmos que o TEMPO já não está mais passando; mas sim, voando! O fenômeno torna-se melhor percebido na medida em que a turbulência dos afazeres diários vai-nos exigindo um irracional desprendimento de energia, sutilmente lembrado pelo grande timoneiro Fernando Pessoa*: …“navegar é preciso, viver não é preciso”.

Em silêncio, e não obstante a dimensão do maremoto que cada um busca para si, o nosso relógio-biológico está sempre contabilizando a inexorável marcha do tempo; cabendo à memória o armazenamento das inúmeras cartas de navegação.

Envolvido com tais pensamentos, o experiente navegador sentou-se à beira do cais, onde ficou, pacientemente, aguardando a embarcação que traria um de seus filhos, prestes a retornar após uma longa viagem de cinco anos e meio navegando em águas hipocráticas de seu curso de medicina, feito em mares diferentes de Tambaú.

Apenas a suave brisa do entardecer, mansamente afagando os cabelos grisalhos que excediam ao seu boné, mantinha cumplicidade com os pensamentos daquele professor de navegação (equivalente a professor universitário), conhecido na vila como tio Lombardinho.

A julgar pelo seu apego ao ofício de formar navegadores, certamente o velho marujo estava bem mais identificado em contemplar embarcações que deixam o porto, ao invés daquelas que chegam ao porto. Dizia sempre: “as que partem, levam a saudade dos sobrinhos, e a certeza do dever cumprido. As que chegam, trazem novos desafios, e a incerteza de lições ainda não aprendidas”.

A exceção a esta regra estava próxima de acontecer. Durante a última meia década, conviveu com a satisfação – enquanto PAI – de saber que seu filho estava sendo formado em uma escola superior de ótima referência. Porém – enquanto MESTRE – conviveu com uma espécie de vácuo, pela impossibilidade de não poder validar (in loco) a transformação de um ente querido: de adolescente, a doutor.

Sobre este delicado ponto, em certa ocasião, mantive com ele um diálogo bastante pedagógico:

  • – E aí, tio Lombardinho?! Muita saudade do filhão?!
  • – Sim, muita! Mas vou lhe confidenciar que estou aprendendo muito com um mecanismo compensatório que, feliz e naturalmente, coloco em prática a todo instante.
  • – Posso saber qual é?!
  • – Claro que sim! O mesmo não me pertence, é ofertado pela própria VIDA. Basta saber usá-lo de maneira honesta e correta.
  • – Conte-me, então?!
  • – É tão somente transformar cada sobrinho (aluno) em um filho. É fácil, pois todos eles estão na mesma faixa etária. Certamente possuem as mesmas inquietudes e prazeres deste lindo momento de suas vidas. Basta ouvi-los, e vê-los como interagem entre si. Mesmo que você acredite já conhecer o caminho, se for convidado, aceite acompanhá-los. É muito saboroso aprender com eles novos rumos, e comungar com suas tentativas de erros e acertos. O TEMPO REAL é deles; a EXPERIÊNCIA é (talvez) minha; ou melhor, veio com os mares dantes navegados.

Confesso que, após o diálogo, passei a duvidar que a Síndrome de Peter Pan seja – de fato – um tipo de patologia na área da Psicologia. A julgar pelo ”estilo tio Lombardinho”, parece que o quadro é ilustrativo de perfeita sanidade física/mental, além de ser mantenedor de ótima longevidade – assim penso e espero!

O navio finalmente atraca no porto seguro. O aguardado passageiro é recebido com um forte abraço do velho lobo do mar; enquanto, em casa, a tia Irene abre as janelas do quarto e arruma a cama do mais novo navegador.

Certamente o melhor presente para o Dia dos Pais, é a chegada – mesmo que temporária – de um filho que, igual a muitos sobrinhos, está pronto para enfrentar tempestades e calmarias, no eterno desbravamento de novos oceanos.

Beijos, e boa navegação para todos – sempre!

CD Ricardo Lombardi de Farias

* ”Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]