Lá longe, a Copa rola; aqui perto, a chuva cai!
São dois eventos muito esperados por brasileiros, principalmente pelos nordestinos. Melhor ainda quando o primeiro acontece com força total, e o segundo vem com a complacência divina de uma generosa mãe que busca transformar o solo árido, em fértil.
Hoje, assistindo as notícias pela televisão, fiquei dividido entre dois fatos assustadores: o edema ósseo do meia Elano; e o sofrimento de dona Maria das Dores – uma das inúmeras contempladas com o sumiço de seu único bem; uma minúscula casa localizada nas proximidades de um dos rios que banham pobres cidades do interior de Alagoas e Pernambuco.
Na coletiva à imprensa, o Dr. José Luís Runco assegurou a nação que o incômodo da lesão apenas se manifestava quando o Elano fazia movimentos de desaceleração. Pena que a dona Maria das Dores não pôde acompanhar a entrevista, pois sua televisão foi tsunamicamente levada pela correnteza. Mas, se tivesse assistido, certamente a nossa heroína desejaria que o vetor desaceleração (maléfico ao atleta), viesse se manifestar no abrandamento da força dos rios.
Durante o noticiário, o assunto lesão/Elano consumiu cinco vezes mais tempo que o assunto sofrimento/dona Maria. Até entendo, porque no momento a fome do Brasil é de jabulani na rede; não importa o preço. Inclusive para dona Maria que, entre choros e soluços, e à espera de donativos, também torce pela conquista do hexa.
Dona Maria é (ou era?!) moradora de Catende. Certamente o município pernambucano está bem mais próximo de Brasília que Port-au-Prince, capital do Haiti. Incrivelmente, naquele país irmão, a participação brasileira na ajuda às vítimas dos terremotos, chegou com urgência máxima – tanto por terra, ar, ou mar. Ainda bem que os abalos sísmicos aconteceram anteriormente ao período da Copa; assim como o Haiti não possui Elano, nem conseguiu classificação ao torneio.
Tenho certeza que antes do final da Copa, o jovem Elano estará totalmente curado e dona Maria receberá assistência relativa à recuperação do seu patrimônio. Ao primeiro, não faltarão rápidos recursos terapêuticos reabilitadores.
Quanto à sem-teto, tenho certeza que, para aliviar seu sofrimento, os nossos representantes em Brasília logo encontrarão mecanismos compensatórios; uma vez que estão trabalhando – em plena Copa, vale frisar – com a mesma abnegação demonstrada ao aprovarem mais um justo aumento salarial aos servidores da Câmara Federal, concedido em 15/6/2010.
Enquanto esperamos, convido a dona Maria para – juntos – ouvirmos um grupo de jovens nordestinos que, em 1975, colheram um bonito fruto desta terra, outrora seca, agora encharcada de lama: http://www.youtube.com/watch?v=rnc84s-i3ew (botão direito – open link).
Detalhe final: várias vuvuzelas foram encontradas nos entulhos deixados pela força das águas. Viva a globalização!

Muito Bom texto Profº Lombardi!
Assistindo CQC segunda, deu pra ver que alguns de nossos colegas em Brasília
não conseguem diferenciar nem pernambuco de alagoas…
Enfim, seria clichê falar: “pena que no Brasil as coisas acontecem assim…”
Penso que importante mesmo é denunciarmos isso… coisa que pode mudar o nosso país.
“O patriotismo da maior parte dos brasileiros só vai até onde o Brasil chegar”
(já dizia a charge da Pedro II…)
Enfim, coisas que precisam mudar
Olá, Yuri: sua análise é perfeita – infelizmente! Bom saber que se tomarmos atitudes corretas e urgentes, um dia este país será, de fato, confiável e respeitador de seu maior patrimônio: sua gente. Vamos juntos, trabalhando na antecipação deste “novo tempo”. Abração, RL