Em qualquer parte do mundo, o brasileiro é facilmente identificado pelo seu maior patrimônio: a alegria. Não importando o ambiente ou condição em que se encontre, sempre será notado pelo sorriso espontâneo e franco; e pela capacidade comunicativa, confirmada pela assiduidade de gestos e abraços.
São características autênticas, resultantes de quinhentos e dez anos de miscigenação com o mais puro tempero latino, acontecida em terras quentes e férteis situadas abaixo da linha do equador, aonde, segundo Caetano Veloso, inexiste pecado.
Não restam dúvidas que este maravilhoso legado nos credencia, em âmbito universal, como agentes proliferadores da alegria – produto lamentavelmente ameaçado de extinção.
Por outro lado, quando existe alguma forma de cerceamento desta natural e intrínseca condição, perdemos a luz própria do encanto e passamos a trafegar no escuro da incerteza – como parece acontecer agora, com nossos vinte e três heróis na África do Sul.
Sobre este fato, não adianta querermos colocar a culpa na linda jabulani, muito menos nas estressantes vuvuzelas. Igualmente impossível atribuir esta dura responsabilidade aos simpáticos anfitriões; até porque deles cabe-nos somente agradecer pela fortíssima herança filogenética e cultural.
Também não seria justo creditar exclusivamente ao professor Dunga – e sua eterna birra com os meios de comunicação – a responsabilidade pela mudança de comportamento da seleção. Nesse capítulo, o seu colega Maradona vem dando show em termos de relacionamento com a mídia, e também com a demonstração de um belo e vistoso futebol – independente de resultados. É isto que nos faz falta!
Mesmo tratando-se de duas personalidades distintas, os dois possuem pontos em comum: residem em terras situadas abaixo da linha do equador; são consagrados ex-jogadores de futebol; foram campeões mundiais; e possuem um plantel que os habilitam à conquista de qualquer Copa do Mundo.
Entre as muitas diferenças, prefiro destacar apenas uma; o estilo de trabalho: enquanto o baixinho olha pra cima e distribui beijos e afagos; o outro, mais alto, olha pra baixo enquanto morde (literalmente) a língua. Rezo muito para que este TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) se converta em bola na rede.
Claro que numa competição, o que importa são os resultados. Acontece que os mesmos só são conhecidos após os noventa minutos de cada jogo. Sendo assim, não parece justo sofrermos por antecipação com a pseudo-obrigatoriedade de sempre conquistarmos a vitória. Historicamente, sabemos que ela só vem quando conseguimos conciliar três coisas: competência, arte, e alegria.
Como cidadão brasileiro e apaixonado por futebol, orgulho-me de ter sido citado na brilhante frase estampada no “meu” ônibus verde-amarelo: LOTADO! O BRASIL INTEIRO ESTÁ AQUI DENTRO! De fora, continuo torcendo para que seus principais passageiros, a cada abertura de porta, desçam os degraus com semblantes mais descontraídos. Próprios daqueles que, mesmo desconhecendo o resultado do próximo jogo, possuem brilho próprio de todos que conhecem e convivem com a alegria de um GOL.
Em tempo: o presente texto foi concluído às 19:30 horas do sábado que precede ao jogo Brasil x Costa do Marfim. Espero que o resultado não possibilite nenhum tipo de rima, mas que traga alegria com demonstração explícita de competência e arte.
