– Será que estou me preocupando à toa?! Vamos ver…
Outro dia escrevi sobre a preocupação brasileira (e mundial) com as coxas do Kaká, e do Luis Fabiano. Foram os primeiros a chegarem na “funilaria” do Centro de Treinamento do Atlético/PR, logo após a descontraída coletiva do metódico Dunga, para anunciar e justificar a sua lista de convocados.
Conforme esperado, o acontecimento serviu como sinal de largada para que todos os meios de comunicação do país acionassem máquinas & profissionais em busca de oferecer a melhor cobertura do maior evento esportivo do planeta.
Tudo é registrado e cronometrado: a lista de convocados foi divulgada faltando um mês para o início do torneio; enquanto a missão para recuperação das coxas disporia apenas de três semanas para ser efetivada.
O poder da mídia é realmente extraordinário. Dia após dia, qualquer bola dividida que resulte em expressão facial de dor ou desagrado, vira preocupação nacional; mesmo que o gravíssimo acidente tenha acontecido em treinos coletivos, ou em inócuos amistosos. Nada escapa, e tudo é notícia: até mesmo a principal personagem – a bola – foi motivo de reportagens sobre a sua “indômita personalidade”. Eu, hein?!
O assédio jornalístico parece estar diretamente atrelado a cotação da seleção candidata ao título, e a importância do atleta dentro do grupo. Assim eu acreditava! Agora, parece-me lícito acrescentar dois outros fatores: função do jogador, e parte anatômica lesionada.
Para justificar tal preocupação, recorro à lembrança dos meus tempos de peladeiro – de praia, e de várzea. Frente à falta absoluta de patrocínio financeiro, e ao pleno abandono de cobertura da mídia, não dava outra: quem mandava era o dono da bola! A este cabia o legítimo direito de escolher o time, e o lado a jogar; geralmente àquele favorecido pelo vento. Também estava no seu direito: apitar o jogo, e determinar o seu final.
Outro relevante personagem, facilmente identificado pela sua (permitam-me) irrelevante demonstração de intimidade com a pelota, era o goleiro! O titular desta posição jamais seria o dono da bola; não possuía concorrência, e era sempre o último a ser anunciado.
Tomara que a preocupação manifestada no presente texto inexista, e seja apenas fruto de lampejos saudosistas. Mesmo assim, declaro-me apreensivo com alguns fatos que podem ser traduzidos sob a forma de perguntas:
• Por que as costas do Júlio César merecem menos tempo de mídia do que as coxas do Kaká, ou o tornozelo do Michael Bastos?! • Será que o ritmo de jogo da “função goleiro” é diferente da “função atacante”?! • Será que a falha de um goleiro é tão perdoável quanto a de um atacante?! (vide a copa de ’50) • É justo dizer que um goleiro só é destaque do jogo quando o seu time joga mal?! • Alguém duvida que os coreanos do norte (e outros adversários) não estejam treinando “pra caramba” seus chutes à distância?!
Mais do que nunca torço pela recuperação do grande, competente, e simpático Júlio César; personagem número 001 do nosso time. Independentemente de resultados, jamais consentiremos que se repitam injustiças como esta: – “no Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. Eu já cumpri mais de 40 anos de punição, por um erro que não cometi” – BARBOSA (goleiro de ’50), ao ser proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira para fazer uma visita de cortesia aos jogadores que disputariam a Copa de 1994: diziam que ele dava azar! (http://fotolog.terra.com.br/filosofiadofutebol:284)
Xô, urucubaca! – Sou brasileiro, sou vitorioso, e sei morder: quero o hexa contra los hermanos argentinos!
– Alguém viu a minha vuvuzela?!
CD Ricardo Lombardi de Farias

Texto muito bom, professor! =D
Época de copa é sempre assim. Qlq coisa vira notícia… ehehehehe
Gostava do tempo de colégio pq discutíamos essa política, se assim posso chamar, de pão e circo. Ou melhor, bola e circo.
É incrível como as pessoas esquecem de tudo e de todos nesse período.
Enfim, acho que merecia um texto sobre isso. 😀
Abraços!
Olá, Dened – agradeço pelos comentários. De fato, o futebol/Copa é um pouco do ópio do povo. Lembro uma frase do saudoso Armando Nogueira (misto de cronista esportivo e poeta): “O futebol não aprimora os caracteres do homem, mas sim os revela”. Portanto, vamos torcer pela alegria do esporte, muito mais do que pela angústia da incerteza do resultado. Abs, RL