É sabido que a evolução da humanidade não aconteceu em um ritmo linear, mas sim aos “saltos”; impostos pelo instinto de sobrevivência, e por turbulências geofísicas, ou mesmo culturais. Tais surtos espasmódicos foram rotulados como períodos ou eras, estabelecidos para, didaticamente, justificarem o esgotamento criativo de uma fase e/ou o surgimento fértil de outra.
Parece arriscado tentar determinar nesta sequencia evolutiva qual tenha sido o “principal salto”. Primeiro, porque a fração mínima de tempo utilizada nesta abordagem chama-se século; cuja densidade cronológica sempre dificultou a linha de corte, determinada pelo fato histórico que referendava a alternância de período.
Outra justificativa é que fazer esta análise hoje, na comodidade dos tempos modernos, parece dispensável. Principalmente considerando que todo o processo, indiscutivelmente evolutivo e sempre condicionado a uma seleção natural, invariavelmente nos consagrou como seres vitoriosos (?!); fazendo-nos acreditar que a janela do hoje está somente virada para o amanhã, sem muito interesse em rever o ontem. Será mesmo?!
Apesar disso, e sem fugir ao desafio, comungo com aqueles que consideram que o “grande salto” aconteceu quando deixamos a Pré-História e ingressamos na Idade Antiga; plenamente evidenciada com a origem da escrita (4.000 a.C.).
Junto com ela (e por meio dela) também chegaram: as primeiras formas de governar com a criação do Estado; o estabelecimento de leis e regras visando um melhor bem-estar às populações; e o surgimento de um fenômeno que, além de perpetuado, deve ser cada vez mais aprimorado – a comunicação.
Hoje, após 6.010 anos de existência, e contando com os fantásticos recursos da tecnologia, parece-me que o grande desafio da comunicação escrita não reside em assimilar e saber usar o seu poder multiplicador, mas de reverter a perda do controle seletivo de informações, devido à velocidade (e proliferação) com que as mesmas trafegam no planeta.
Sem nenhuma dúvida, cabe à informática, mais precisamente ao PC* (computador pessoal), ser consagrado como o grande instrumento de transformação social, determinante do estabelecimento de uma nova ordem mundial. Hoje, já não parece possível haver inclusão social, sem a cumplicidade de inclusão digital.
Estou consciente do meu atrevimento em escrever sobre um equipamento que, quando conectado a qualquer www (world wide web: rede de alcance mundial), faz-me compreender que a minha participação nesta relação homem/máquina gira (se muito) em torno de irrisórios, mas não desprezíveis, 5%. Isso mesmo; sinto-me um ser jurássico contemporâneo!
Confesso que esta minha nova condição de cyber-viciado tem me deixado preocupado. De um lado, deixo-me seduzir por uma fantástica (e veloz) máquina, imbatível quando o assunto é arquivamento e consulta de dados – condições que facilitam minha vida de professor e blogueiro casual.
Por outro lado, fico apreensivo com as redes sociais/net sendo utilizadas em detrimento de outros canais de socialização; reais, e não virtuais. Sobre o assunto, tento enxergar melhor o amanhã, abrindo a janela do ontem, deixando-me levar pela lembrança de uma única, saudosa, e descartada cena:
- Após o jantar, sentávamos na calçada para conversarmos sobre amenidades enquanto o cafezinho, moído em casa e feito em coador de pano, era servido em bule e xícaras de louça.
Rapidamente, fecho a janela! Ainda não estou pronto para analisar as conseqüências da chegada à cena de um certo senhor Google; sempre acompanhado do seu agitado sobrinho Orkut, de olhar muito sinistro. Ave credo!
CD Ricardo Lombardi de Farias
* Aos interessados, recomendo o filme “Pirates of Silicon Valley” (baseado no livro Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer, de Paul Freiberger e Michael Swaine) que mostra uma versão próxima da realidade sobre a época, o local, e as principais personalidades envolvidas na criação dos PC’s.
