Arquivo para junho \30\America/Recife 2010

30
jun
10

COPA E CHUVA

COPA E CHUVA

Lá longe, a Copa rola; aqui perto, a chuva cai!

São dois eventos muito esperados por brasileiros, principalmente pelos nordestinos. Melhor ainda quando o primeiro acontece com força total, e o segundo vem com a complacência divina de uma generosa mãe que busca transformar o solo árido, em fértil.

Hoje, assistindo as notícias pela televisão, fiquei dividido entre dois fatos assustadores: o edema ósseo do meia Elano; e o sofrimento de dona Maria das Dores – uma das inúmeras contempladas com o sumiço de seu único bem; uma minúscula casa localizada nas proximidades de um dos rios que banham pobres cidades do interior de Alagoas e Pernambuco.

Na coletiva à imprensa, o Dr. José Luís Runco assegurou a nação que o incômodo da lesão apenas se manifestava quando o Elano fazia movimentos de desaceleração. Pena que a dona Maria das Dores não pôde acompanhar a entrevista, pois sua televisão foi tsunamicamente levada pela correnteza. Mas, se tivesse assistido, certamente a nossa heroína desejaria que o vetor desaceleração (maléfico ao atleta), viesse se manifestar no abrandamento da força dos rios.

Durante o noticiário, o assunto lesão/Elano consumiu cinco vezes mais tempo que o assunto sofrimento/dona Maria. Até entendo, porque no momento a fome do Brasil é de jabulani na rede; não importa o preço. Inclusive para dona Maria que, entre choros e soluços, e à espera de donativos, também torce pela conquista do hexa.

Dona Maria é (ou era?!) moradora de Catende. Certamente o município pernambucano está bem mais próximo de Brasília que Port-au-Prince, capital do Haiti. Incrivelmente, naquele país irmão, a participação brasileira na ajuda às vítimas dos terremotos, chegou com urgência máxima – tanto por terra, ar, ou mar. Ainda bem que os abalos sísmicos aconteceram anteriormente ao período da Copa; assim como o Haiti não possui Elano, nem conseguiu classificação ao torneio.

Tenho certeza que antes do final da Copa, o jovem Elano estará totalmente curado e dona Maria receberá assistência relativa à recuperação do seu patrimônio. Ao primeiro, não faltarão rápidos recursos terapêuticos reabilitadores.

Quanto à sem-teto, tenho certeza que, para aliviar seu sofrimento, os nossos representantes em Brasília logo encontrarão mecanismos compensatórios; uma vez que estão trabalhando – em plena Copa, vale frisar – com a mesma abnegação demonstrada ao aprovarem mais um justo aumento salarial aos servidores da Câmara Federal, concedido em 15/6/2010.

Enquanto esperamos, convido a dona Maria para – juntos – ouvirmos um grupo de jovens nordestinos que, em 1975, colheram um bonito fruto desta terra, outrora seca, agora encharcada de lama: http://www.youtube.com/watch?v=rnc84s-i3ew   (botão direito – open link).

Detalhe final: várias vuvuzelas foram encontradas nos entulhos deixados pela força das águas. Viva a globalização!

CD Ricardo Lombardi de Farias

19
jun
10

TAMBÉM QUERO VUVUZELAR

TAMBÉM QUERO VUVUZELAR

Em qualquer parte do mundo, o brasileiro é facilmente identificado pelo seu maior patrimônio: a alegria. Não importando o ambiente ou condição em que se encontre, sempre será notado pelo sorriso espontâneo e franco; e pela capacidade comunicativa, confirmada pela assiduidade de gestos e abraços.

São características autênticas, resultantes de quinhentos e dez anos de miscigenação com o mais puro tempero latino, acontecida em terras quentes e férteis situadas abaixo da linha do equador, aonde, segundo Caetano Veloso, inexiste pecado.

Não restam dúvidas que este maravilhoso legado nos credencia, em âmbito universal, como agentes proliferadores da alegria – produto lamentavelmente ameaçado de extinção.

Por outro lado, quando existe alguma forma de cerceamento desta natural e intrínseca condição, perdemos a luz própria do encanto e passamos a trafegar no escuro da incerteza – como parece acontecer agora, com nossos vinte e três heróis na África do Sul.

Sobre este fato, não adianta querermos colocar a culpa na linda jabulani, muito menos nas estressantes vuvuzelas. Igualmente impossível atribuir esta dura responsabilidade aos simpáticos anfitriões; até porque deles cabe-nos somente agradecer pela fortíssima herança filogenética e cultural.

Também não seria justo creditar exclusivamente ao professor Dunga – e sua eterna birra com os meios de comunicação – a responsabilidade pela mudança de comportamento da seleção. Nesse capítulo, o seu colega Maradona vem dando show em termos de relacionamento com a mídia, e também com a demonstração de um belo e vistoso futebol – independente de resultados. É isto que nos faz falta!

Mesmo tratando-se de duas personalidades distintas, os dois possuem pontos em comum: residem em terras situadas abaixo da linha do equador; são consagrados ex-jogadores de futebol; foram campeões mundiais; e possuem um plantel que os habilitam à conquista de qualquer Copa do Mundo.

Entre as muitas diferenças, prefiro destacar apenas uma; o estilo de trabalho: enquanto o baixinho olha pra cima e distribui beijos e afagos; o outro, mais alto, olha pra baixo enquanto morde (literalmente) a língua. Rezo muito para que este TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) se converta em bola na rede.

Claro que numa competição, o que importa são os resultados. Acontece que os mesmos só são conhecidos após os noventa minutos de cada jogo. Sendo assim, não parece justo sofrermos por antecipação com a pseudo-obrigatoriedade de sempre conquistarmos a vitória. Historicamente, sabemos que ela só vem quando conseguimos conciliar três coisas: competência, arte, e alegria.

Como cidadão brasileiro e apaixonado por futebol, orgulho-me de ter sido citado na brilhante frase estampada no “meu” ônibus verde-amarelo: LOTADO! O BRASIL INTEIRO ESTÁ AQUI DENTRO! De fora, continuo torcendo para que seus principais passageiros, a cada abertura de porta, desçam os degraus com semblantes mais descontraídos. Próprios daqueles que, mesmo desconhecendo o resultado do próximo jogo, possuem brilho próprio de todos que conhecem e convivem com a alegria de um GOL.

CD Ricardo Lombardi de Farias

Em tempo: o presente texto foi concluído às 19:30 horas do sábado que precede ao jogo Brasil x Costa do Marfim. Espero que o resultado não possibilite nenhum tipo de rima, mas que traga alegria com demonstração explícita de competência e arte.

09
jun
10

MÍDIA E COPA

MÍDIA E COPA

Será que estou me preocupando à toa?! Vamos ver…

Outro dia escrevi sobre a preocupação brasileira (e mundial) com as coxas do Kaká, e do Luis Fabiano. Foram os primeiros a chegarem na “funilaria” do Centro de Treinamento do Atlético/PR, logo após a descontraída coletiva do metódico Dunga, para anunciar e justificar a sua lista de convocados.

Conforme esperado, o acontecimento serviu como sinal de largada para que todos os meios de comunicação do país acionassem máquinas & profissionais em busca de oferecer a melhor cobertura do maior evento esportivo do planeta.

Tudo é registrado e cronometrado: a lista de convocados foi divulgada faltando um mês para o início do torneio; enquanto a missão para recuperação das coxas disporia apenas de três semanas para ser efetivada.

O poder da mídia é realmente extraordinário. Dia após dia, qualquer bola dividida que resulte em expressão facial de dor ou desagrado, vira preocupação nacional; mesmo que o gravíssimo acidente tenha acontecido em treinos coletivos, ou em inócuos amistosos. Nada escapa, e tudo é notícia: até mesmo a principal personagem – a bola – foi motivo de reportagens sobre a sua “indômita personalidade”. Eu, hein?!

O assédio jornalístico parece estar diretamente atrelado a cotação da seleção candidata ao título, e a importância do atleta dentro do grupo. Assim eu acreditava! Agora, parece-me lícito acrescentar dois outros fatores: função do jogador, e parte anatômica lesionada.

Para justificar tal preocupação, recorro à lembrança dos meus tempos de peladeiro – de praia, e de várzea. Frente à falta absoluta de patrocínio financeiro, e ao pleno abandono de cobertura da mídia, não dava outra: quem mandava era o dono da bola! A este cabia o legítimo direito de escolher o time, e o lado a jogar; geralmente àquele favorecido pelo vento. Também estava no seu direito: apitar o jogo, e determinar o seu final.

Outro relevante personagem, facilmente identificado pela sua (permitam-me) irrelevante demonstração de intimidade com a pelota, era o goleiro! O titular desta posição jamais seria o dono da bola; não possuía concorrência, e era sempre o último a ser anunciado.

Tomara que a preocupação manifestada no presente texto inexista, e seja apenas fruto de lampejos saudosistas. Mesmo assim, declaro-me apreensivo com alguns fatos que podem ser traduzidos sob a forma de perguntas:

• Por que as costas do Júlio César merecem menos tempo de mídia do que as coxas do Kaká, ou o tornozelo do Michael Bastos?!  • Será que o ritmo de jogo da “função goleiro” é diferente da “função atacante”?!  • Será que a falha de um goleiro é tão perdoável quanto a de um atacante?! (vide a copa de ’50)  • É justo dizer que um goleiro só é destaque do jogo quando o seu time joga mal?!  • Alguém duvida que os coreanos do norte (e outros adversários) não estejam treinando “pra caramba” seus chutes à distância?!

Mais do que nunca torço pela recuperação do grande, competente, e simpático Júlio César; personagem número 001 do nosso time. Independentemente de resultados, jamais consentiremos que se repitam injustiças como esta: – “no Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. Eu já cumpri mais de 40 anos de punição, por um erro que não cometi” – BARBOSA (goleiro de ’50), ao ser proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira para fazer uma visita de cortesia aos jogadores que disputariam a Copa de 1994: diziam que ele dava azar! (http://fotolog.terra.com.br/filosofiadofutebol:284)

Xô, urucubaca! – Sou brasileiro, sou vitorioso, e sei morder: quero o hexa contra los hermanos argentinos!

– Alguém viu a minha vuvuzela?!

CD Ricardo Lombardi de Farias

07
jun
10

QUERO O MEU LOGOFF

QUERO O MEU LOGOFFtempos modernos A

 

É sabido que a evolução da humanidade não aconteceu em um ritmo linear, mas sim aos “saltos”; impostos pelo instinto de sobrevivência, e por turbulências geofísicas, ou mesmo culturais. Tais surtos espasmódicos foram rotulados como períodos ou eras, estabelecidos para, didaticamente, justificarem o esgotamento criativo de uma fase e/ou o surgimento fértil de outra.

Parece arriscado tentar determinar nesta sequencia evolutiva qual tenha sido o “principal salto”. Primeiro, porque a fração mínima de tempo utilizada nesta abordagem chama-se século; cuja densidade cronológica sempre dificultou a linha de corte, determinada pelo fato histórico que referendava a alternância de período.

Outra justificativa é que fazer esta análise hoje, na comodidade dos tempos modernos, parece dispensável. Principalmente considerando que todo o processo, indiscutivelmente evolutivo e sempre condicionado a uma seleção natural, invariavelmente nos consagrou como seres vitoriosos (?!); fazendo-nos acreditar que a janela do hoje está somente virada para o amanhã, sem muito interesse em rever o ontem. Será mesmo?!

Apesar disso, e sem fugir ao desafio, comungo com aqueles que consideram que o “grande salto” aconteceu quando deixamos a Pré-História e ingressamos na Idade Antiga; plenamente evidenciada com a origem da escrita (4.000 a.C.).

Junto com ela (e por meio dela) também chegaram: as primeiras formas de governar com a criação do Estado; o estabelecimento de leis e regras visando um melhor bem-estar às populações; e o surgimento de um fenômeno que, além de perpetuado, deve ser cada vez mais aprimorado – a comunicação.

Hoje, após 6.010 anos de existência, e contando com os fantásticos recursos da tecnologia, parece-me que o grande desafio da comunicação escrita não reside em assimilar e saber usar o seu poder multiplicador, mas de reverter a perda do controle seletivo de informações, devido à velocidade (e proliferação) com que as mesmas trafegam no planeta.

Sem nenhuma dúvida, cabe à informática, mais precisamente ao PC* (computador pessoal), ser consagrado como o grande instrumento de transformação social, determinante do estabelecimento de uma nova ordem mundial. Hoje, já não parece possível haver inclusão social, sem a cumplicidade de inclusão digital.

Estou consciente do meu atrevimento em escrever sobre um equipamento que, quando conectado a qualquer www (world wide web: rede de alcance mundial), faz-me compreender que a minha participação nesta relação homem/máquina gira (se muito) em torno de irrisórios, mas não desprezíveis, 5%. Isso mesmo; sinto-me um ser jurássico contemporâneo!

Confesso que esta minha nova condição de cyber-viciado tem me deixado preocupado. De um lado, deixo-me seduzir por uma fantástica (e veloz) máquina, imbatível quando o assunto é arquivamento e consulta de dados – condições que facilitam minha vida de professor e blogueiro casual.

Por outro lado, fico apreensivo com as redes sociais/net sendo utilizadas em detrimento de outros canais de socialização; reais, e não virtuais. Sobre o assunto, tento enxergar melhor o amanhã, abrindo a janela do ontem, deixando-me levar pela lembrança de uma única, saudosa, e descartada cena:

  • Após o jantar, sentávamos na calçada para conversarmos sobre amenidades enquanto o cafezinho, moído em casa e feito em coador de pano, era servido em bule e xícaras de louça.  

Rapidamente, fecho a janela! Ainda não estou pronto para analisar as conseqüências da chegada à cena de um certo senhor Google; sempre acompanhado do seu agitado sobrinho Orkut, de olhar muito sinistro. Ave credo!

CD Ricardo Lombardi de Farias

 * Aos interessados, recomendo o filme “Pirates of Silicon Valley” (baseado no livro Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer, de Paul Freiberger e Michael Swaine) que mostra uma versão próxima da realidade sobre a época, o local, e as principais personalidades envolvidas na criação dos PC’s.